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Negaram-me patentes internacionais por ser refugiado palestino

Entrevista com o inventor Amer Darwish (Parte 2)

Confira a parte 1 da entrevista

Esta é a segunda parte da entrevista com o refugiado palestino Amar Darwish, inventor ativo em busca de soluções para problemas que detecta no cotidiano e que poderiam servir a diversas pessoas no mundo. Por exemplo, seu dispositivo de higienização contra o coronavirus a partir de um corriqueiro aparelho celular.

Há, porém, um problema que impede a inserção de seus inventos no mercado internacional: a negação de patentes internacionais a uma pessoa com documento de refugiado palestino. Por ora, ele só obtém patentes locais do Líbano, onde vive.

A seguir, Amer explica um pouco de seus inventos.

Quais patentes você obteve até agora no Líbano?

Em 2017, anunciei minha primeira invenção, o Blue Drive 48, que é um dispositivo eletrônico a ser instalado em máquinas pesadas, convertendo o processo de direção convencional em digital, podendo ser conduzido a partir de um smartphone, conectando-se por Bluetooth ou pela Internet de longa distância, uma vez que é equipado com uma câmera wi-fi. A escavadeira, em que o aparelho foi instalado em 2017, e que carregava a bandeira palestina, foi a primeira escavadeira do mundo a ser conduzida por meio de um smartphone.

Esta invenção tem uma história, pois eu dirigia originalmente uma escavadeira, até um dia em que fraturei meu braço, após ter sofrido um acidente. Liguei para a empresa fabricante da escavadeira e pedi um dispositivo eletrônico que me permitisse conduzir a escavadeira remotamente. A empresa me disse que não havia disponibilidade deste dispositivo no Líbano e não havia esperança de produzi-lo em breve. Então, eu disse a eles que o inventaria e que seria acionado por meio de um smartphone. É claro que eles não levaram minhas palavras a sério, e isso estimulou em mim uma grande motivação e determinação para inventar este dispositivo. Levei um mês inteiro para prepara-lo e experimentá-lo na minha própria escavadeira.

A patente libanesa para o Corona Fighter 48 (Foto de arquivo)

A patente libanesa para o Corona Fighter 48 (Foto de arquivo)

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E esse foi o começo de várias invenções?

Sim. Em 2019, criei o Pals Fire Fighter 48, minha segunda invenção, que é um “sistema de combate a incêndio e resgate”, também controlado remotamente por um smartphone. Eu o criei com esforço individual ao longo de 4 meses de trabalho contínuo, dia e noite, entre a preparação dos dispositivos e a prática efetiva. Gostaria de frisar que tudo o que fiz foi feito manualmente e sozinho, usando ferramentas domésticas, sendo que cheguei a usar até mesmo alguns brinquedos de crianças para combinar com o que queria criar.

Este sistema é dividido em três partes: uma parte é uma casa incubadora para o robô, equipada com painéis solares que nos permitem usar energia limpa, natural e renovável, caso o robô esteja trabalhando em uma instalação de petróleo, ou em uma floresta, etc.; a segunda parte é o robô, e a terceira é um trilho de guindaste, este trilho é fixado nas bordas das varandas durante a ocorrência de incêndio, seja manualmente, a partir do piso superior içado por meio de cordas, ou por drones que os transportam e os fixam nas varandas. Isso facilita o processo de escalada do robô, para entrar em um prédio pelas varandas.

Como funciona esse invento no local do incêndio?

Uma das vantagens deste sistema é que ele contém uma cápsula de primeiros socorros, por exemplo. Caso haja um incêndio dentro de um edifício, havendo pessoas feridas e não queiramos colocar em risco a vida dos bombeiros, este robô pode dar-lhes uma cápsula que contém itens de primeiros socorros, como cobertas à prova de fogo, que permitem aos feridos usá-las para sair do prédio de maneira segura, além de cordas anti-fogo e alguns utensílios médicos.

Outras vantagens deste sistema consistem também na utilização de uma gama de meios de extinção do fogo, ou seja, utiliza água para incêndios tradicionais, pó para incêndios que contêm redes elétricas, e espuma para combate a incêndios que contêm líquidos e derivados de petróleo inflamáveis. Mas a característica mais importante deste sistema é que ele utiliza os meios mais modernos de combate a incêndios existentes nos países mais desenvolvidos do mundo, como é o caso da bola extintora, que é lançada pelo robô para explodir e espalhar produtos químicos especiais para extinguir o incêndio. Este sistema também pode transportar dois feridos de dentro da área de fogo e levá-los para um local seguro. Uma outra vantagem também é de lançar fumaça colorida, para cobrir a fumaça preta ou branca que emana do fogo sinalizando, assim, a existência de pessoas presas na área em que estiver o robô, caso sofram de problemas de audição ou outras coisas

A terceira invenção, anunciada em setembro passado e patenteada, é o Corona Fighter 48 (ver parte 1 da entrevista).

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Invenções precisam de um grande apoio, talvez permanente. Existe algum órgão específico que apoie ou patrocine seus projetos?

Estes projetos até agora não foram apoiados por ninguém, nem no nível financeiro, tampouco no nível técnico. Por isso até agora tenho contato tão somente com o esforço pessoal individual, sem qualquer aconselhamento técnico, mesmo de especialistas neste assunto. E todas as etapas do trabalho nestas inovações estão documentadas em som e imagem e guardadas comigo. No momento apropriado, irei apresentá-lo ao meu povo, para que eles possam ver a extensão do esforço despendido nessas invenções.

Em relação a patrocínio e apoio a esses projetos, existem promessas de algumas partes, mas até a data desta entrevista nada foi acertado.

O que Amer Darwish precisa para continuar? Como você acha que suas invenções poderiam chegar à América Latina?

Francamente, com meu esforço individual, consegui concluir um conjunto de projetos e cheguei à fase de experimentos preliminares e protótipos.

Agora, entretanto, acho que preciso do apoio oficial de empresas, instituições ou países, para transformar essas inovações e invenções em produtos de mercado, porque esse processo de transformação precisa de grandes fábricas e especialistas em todas as áreas. Assim, cada parte de qualquer invenção precisa de um especialista, apesar eu ter confiado em minhas próprias capacidades, naquilo que achei apropriado.

Espero que meu apoio comece pelos países árabes, especialmente os lugares onde o povo palestino está localizado, a fim de proporcionar uma oportunidade de trabalho para jovens palestinos e árabes. Mas, caso isso não seja possível, aceitarei todo e qualquer apoio internacional e estrangeiro, para levar adiante meus projetos e produzir minhas invenções, transformando-as em produtos de mercado.

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