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O Brasil de Bolsonaro é subordinado a Trump e Netanyahu

Donald Trump,Benjamin Netanyahu e Mohammed bin Zayed [Agência Anadolu]
Donald Trump,Benjamin Netanyahu e Mohammed bin Zayed [Agência Anadolu]

No primeiro artigo do mês de outubro de 2020, abordamos o papel colonizado e lacaio do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), realizada em formato virtual. Nesse texto citado, desenvolvemos o tema da falácia da “cristofobia”, alinhando-nos como se o país estivesse numa cruzada mundial. Após dissecar este argumento falacioso, oscilando entre o ridículo e o grotesco, damos sequência à análise do discurso subalterno do chefe do Poder Executivo.

Vejamos. Na terça-feira, 22 de setembro, o chefe do Poder Executivo nacional pronunciou um discurso recheado de mentiras   e potencialmente perigoso, no que diz respeito ao Oriente Médio. Nos trechos a seguir, comentamos os elogios de Bolsonaro da aliança de Trump e Netanyahu.

Citamos no artigo anterior, mas vale a pena ressaltar. O Líbano foi finalmente reconhecido como um dos países-chave na formação do Brasil contemporâneo. A negligência que leva à explosão no Porto de Beirute, fruto do descaso oriundo do sistema sectário, realmente comoveu a comunidade árabe-brasileira. Se verificou um avanço importante nos grandes veículos, incluindo o Grupo Bandeirantes, sob controle da família Saad. Mas, manobra antiga, a direita tenta separar o Líbano do Mundo Árabe desde a conformação do país (na independência do mandato francês em 1943) da maior parte de nossos ancestrais. Bolsonaro repete essa máxima, e o subordina à sua política colonizada e bajuladora dos EUA. Disse o presidente:

“Também quero reafirmar minha solidariedade e apoio ao povo do Líbano pelas recentes adversidades sofridas.”

E antes citara que “O Brasil está preocupado e repudia o terrorismo em todo o mundo.” Fora de contexto, em especial no que diz respeito à integridade territorial e independência libanesa. Os EUA classificam vários partidos políticos legais (e com representantes eleitos) do Mundo Árabe como “terroristas”. Para a Casa Branca, resistir à invasão estrangeira ou apoiar a libertação da Palestina é  um “ato de terror”, mas de sua parte financiam Israel e seus governos formados por criminosos de guerra, literalmente. Como considerar “democrático” um país que já teve primeiros-ministros com passado de terroristas como Menahem Begin (ex-membro da IRGUN) e Yitzhak Shamir (ex-membro do LEHI), além do próprio Yitzhak Rabin (ex-PALMACH, cuja imagem pública foi reconfigurada após seu assassinato por Yigal Amir, membro da extrema direita), todos responsáveis por atentados, massacres, explosões e limpeza étnica? Hoje segue o problema, porque a maior ameaça ao Líbano são as agressões israelenses, mais especificamente a ação da Força Aérea do Estado fundado na limpeza étnica. O Itamaraty concorda com isso? Porque não se pronuncia?

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O que fundamenta a afirmação que segue?  

“Cremos que o momento é propício para trabalharmos pela abertura de novos horizontes, muito mais otimistas para o futuro do Oriente Médio.”

O sistema de “crenças” do governo de extrema direita aliado aos militares menos nacionalistas da história do Brasil e com projeto econômico de liquidação do patrimônio nacional brasileiro se baseia no que? Na alucinação digital fomentada por farsantes como Olavo de Carvalho, sua “defesa da civilização judaico-cristã” e a demencial fauna que o segue? Este ato de “acreditar” no momento propício se dá porque as condições humanitárias em Gaza e na Cisjordânia deterioraram progressivamente por culpa do cerco e da ocupação?

Infelizmente o Ministério das Relações Exteriores do Brasil (MRE) parece estar à mercê do Assessor Especial para Assuntos Internacionais, o olavista Filipe Garcia Martins Pereira, cujas aberrações em forma de texto podem ser verificadas no seu Twitter ou em seu perfil do Facebook. O triunvirato gerador de vexames, incidentes e gafes internacionais é composto pelo chanceler Ernesto Araújo e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).

Como a pregação doutrinária beira uma cruzada internacional, a presença da colossal colônia árabe-brasileira (mais de 16 milhões de pessoas) é solenemente ignorada afirmando apenas a origem libanesa de maioria cristã, como se isso fosse sinônimo de ser pró-ocidental (algo que não é verdade, tendo visto o papel central de cristãos do Oriente Médio na formação do pan-arabismo). Este tipo de ignorância com má intenção faz com que as seguintes afirmações sejam ditas sem observações.

“Os acordos de paz entre Israel e os Emirados Árabes Unidos, e entre Israel e o Bahrein, três países amigos do Brasil, com os quais ampliamos imensamente nossas relações durante o meu governo, constitui excelente notícia.”

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Ou seja, o governo Bolsonaro naturaliza o apartheid israelense, como se dissesse “e daí” para o povo palestino. Não surpreende, mas sempre aumenta a indignação. Tampouco nada dizem sobre as operações dos Emirados Árabes Unidos (comandados na prática pelo emir de Abu Dhabi) e sauditas promovendo o massacre no Iêmen e o farto emprego de redes salafistas.

“O Brasil saúda também o plano de paz e prosperidade lançado pelo presidente (dos EUA), Donald Trump, com uma visão promissora para, após mais de sete décadas de esforços, retomar o caminho da tão desejada solução do conflito israelense-palestino.”

Desta forma, a imagem do Brasil, além de elogiar a traição de duas monarquias “árabes” que só existem em função do petróleo, passa por cima da ONU e suas resoluções no que tange à disputa e partilha territorial de 1948 a retirada “imediata” dos Territórios Ocupados em 1967. Não bastasse atropelar a pouca legalidade existente no Sistema Internacional (SI), o elogio mundialmente difundido ao governo de outro país e especificamente um mandato em disputa por reeleição é sinal de evidente subordinação. Nenhum país soberano elogia a administração de outro Estado dessa forma tão subserviente. Não apenas a submissão é manifesta aos Estados Unidos e Trump, mas também a Israel e seu governo de criminosos, com Netanyahu, Gancz e outros corruptos e sociopatas. Isso sem falar nos ataques de drones estadunidenses, que sequer são reportados .

“A nova política do Brasil de aproximação simultânea a Israel e aos países árabes converge com essas iniciativas, que finalmente acendem uma luz de esperança para aquela região.”

Qual seria então a “velha política”? O respeito às decisões das Nações Unidas, a autodeterminação dos povos e uma inserção soberana e altiva do Brasil no sistema internacional? Ou a demência doutrinária anda junto com a cegueira diplomática, aumentando as compras de tecnologia com alto valor agregado vinda de Israel e negando a capacidade de violação de soberania que este país pode ter sobre o nosso ao vender sistemas de inteligência integrados e comutados com seu centro produtor? O que propõe Bolsonaro e seu governo? Ajudar a normalizar a ocupação e o apartheid promovido por Israel? Parece que sim.

Do lado de cá do oceano Atlântico, a colônia árabe-brasileira, a diáspora palestina e seus milhões de apoiadores e apoiadoras devem fazer todo o possível para mudar a política externa brasileira assim como a imagem internacional do Brasil. Não podemos nos tornar um pária internacional, subordinado a dois picaretas como Trump e Netanyahu e vinculando os interesses do país às piores versões da humanidade no século XXI. A “paz” dos bantustões, cemitérios e das crianças mortas por tiros israelenses não é “paz” para ninguém. E só haverá PAZ no Oriente Médio com o total reconhecimento dos direitos inalienáveis do povo palestino.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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