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Os Estados Unidos não têm direito algum para clamar liderança sobre o mundo livre

Protestos contra o assassinato de George Floyd, homem negro morto asfixiado por um policial branco em Minneapolis, Estados Unidos, 2 de junho de 2020 [Tayfun Coskun/Agência Anadolu]
Protestos contra o assassinato de George Floyd, homem negro morto asfixiado por um policial branco em Minneapolis, Estados Unidos, 2 de junho de 2020 [Tayfun Coskun/Agência Anadolu]

A recusa do presidente americano Donald Trump em lidar com as reivindicações legítimas da população negra dos Estados Unidos destacou, mais uma vez, a razão pela qual seu país não possui qualquer qualificação como “liderança do mundo livre”. Até o racismo sistêmico, que tanto sufoca a sociedade americana, ser de fato erradicado, reivindicações americanas de liderança internacional continuarão a soar vazias e sem qualquer sentido.

Por pior que seja hoje, jamais devemos esquecer que o câncer do racismo corrói o coração da sociedade americana há mais de duzentos anos. O discurso político do presidente Trump, podemos dizer, incorpora suas piores manifestações.

Sempre que vem à tona, a supremacia branca mostra-se consequência de preconceitos e privilégios. Trump busca perpetuá-los hoje para si mesmo e seus aliados, mesmo que isso leve ao pleno desrespeito ao estado de direito, tanto nacional quanto internacionalmente.

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No Oriente Médio, seu apoio a autocratas como Abdel Fattah el-Sisi (Egito), Mohammed bin Salman (Arábia Saudita) e Benjamin Netanyahu (Israel) tornou-se folclórico.

Todos compartilham a inclinação política para depreciar toda a dignidade humana, negar a equidade e oprimir liberdades. Como seu “ditador favorito”, o general egípcio Sisi, Trump despreza o diálogo político, em particular diante de críticos e opositores. Ambos preferem a força bruta do Exército, como método para “solucionar” diferenças.

No Egito, Sisi demonstrou-se imediatamente pronto para transpor essa ameaça a ações efetivas, ao ordenar o massacre de centenas de civis na Praça Rabaa Al-Adawiya, em agosto de 2013, com o objetivo de consolidar seu golpe de estado. De modo bastante semelhante, em seu desespero para ser reeleito, Trump agora ameaça empregar forças militares dos Estados Unidos para suprimir as ruas.

Embora Sisi possa ser o “ditador favorito” de Trump, há outros no Oriente Médio que desfrutam da patronagem do presidente americano, pois também recorrem ao exército para “solucionar” disputas políticas. O príncipe herdeiro e governante de fato da Arábia Saudita Mohammed bin Salman escolheu a força militar para intervir em um problema fundamentalmente político no Iêmen e, segundo a ONU, arquitetou o assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi, crítico do regime.

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Mas há outro comparsa: o Primeiro-Ministro de Israel Benjamin Netanyahu. O premiê, junto do governo de Trump, contesta a jurisdição do Tribunal Penal Internacional (TPI) para investigar crimes de guerra israelenses nos territórios palestinos ocupados.

Outra característica comum que une os déspotas do Oriente Médio a Trump é sua franca e total fiabilidade em insinuações, difamações e campanhas de desinformação. Sua descrição de políticos opositores pode variar superficialmente, mas o sentido fundamental prevalece sempre o mesmo. Para Trump, seus críticos são “esquerdistas”; para Sisi, são “terroristas”; para Netanyahu, todos são invariavelmente rotulados de “antissemitas”.

Sob pretexto de possuir um “mandato” proveniente de seu povo, Trump e os outros autocratas do Oriente Médio fazem todo o possível para sabotar e impedir o diálogo, o debate público e a negociação.

Milhares de manifestantes erguem cartazes em frente à Casa Branca, para protestar contra o assassinato de George Floyd, cidadão negro morto por um policial branco, em 2 de junho de 2020 [Yasin Öztürk/Agência Anadolu]

Milhares de manifestantes erguem cartazes em frente à Casa Branca, para protestar contra o assassinato de George Floyd, cidadão negro morto por um policial branco, em 2 de junho de 2020 [Yasin Öztürk/Agência Anadolu]

Sob tais pretextos, centenas de jovens palestinos foram mortos e mutilados por soldados da ocupação israelense somente por engajarem-se em marchas pacíficas cuja reivindicação buscava exercer seu direito legítimo de retorno.

De certo modo, a única diferença entre Trump e seus colaboradores no Oriente Médio é que o presidente americano costuma satisfazer-se até então em insultar jornalistas e adversários, enquanto os autocratas parceiros não demonstram qualquer pudor em aprisionar ou comandar execuções extrajudiciais.

Apenas alguns dias após o assassinato de George Floyd nos Estados Unidos, um policial israelense foi libertado logo depois de executar Eyad Hallak, de 32 anos, cidadão palestino com transtornos mentais, em Jerusalém ocupada. Oficiais de Israel alegaram que Hallak era suspeito de terrorismo pelo simples fato de vestir luvas.

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Do mesmo modo que o racismo retalhou qualquer tecido coeso da sociedade americana, ameaça ainda levar ao caos todo o sistema internacional. O desdém de Trump aos povos não-brancos tornou-se bastante claro quando, durante reunião com líderes do congresso, em janeiro de 2018, referiu-se ao Haiti e estados africanos como “países de merda”.

Como parte de sua campanha maliciosa para desfazer tudo que seu predecessor Barack Obama possa ter feito, Trump incitou legisladores a retirar o status de proteção a cerca de 800.000 jovens imigrantes nos Estados Unidos, sob grave risco de deportação.

“Por que precisamos do Haiti?”, declarou Trump. “Fora com eles!”

Quando o assunto da imigração proveniente de países africanos veio à tona, durante a mesma reunião, Trump voltou a resmungar: “Por que deixamos toda essa gente de países de merda vir até aqui?”. De modo bastante expressivo, o presidente americano sugeriu ao congresso que deveriam encorajar cidadãos noruegueses a emigrar ao país. Por que Noruega? Porque são majoritariamente brancos, observaram diversos analistas.

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Evidentemente, há uma razão histórica para que Trump e outros presidentes americanos tenham demonstrado tamanha antipatia ao Haiti e seu povo. O Haiti foi o primeiro país a realizar com êxito uma revolução que trouxe independência e permanente fim à escravidão, ainda no início do século XIX. Por dizer não à supremacia branca, sucessivos presidentes americanos enxergaram a pequena ilha na América Central com terrível suspeita, por receios de que inspirasse rebeliões contra o racismo e ao sistema escravocrata, ainda presente nos Estados Unidos. Desta forma, sob pretexto de que o Haiti era “ingovernável”, invadiram-no 26 vezes, entre 1849 e 1915.

Até que os Estados Unidos reconheçam de fato os direitos humanos fundamentais de seus 40 milhões de cidadãos afrodescendentes, suas reivindicações à liderança de um suposto mundo livre serão sempre questionadas. O presente processo, mesmo que demore, deverá dar início à erradicação do legado escravocrata e à perspectiva institucional de que cidadãos de origem africana são sub-humanos e inferiores aos seus compatriotas brancos. Apenas então, será possível que o país clame alguma liderança moral sobre o mundo livre.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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