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Como nos tornamos refugiados: O dia em que meu avô perdeu sua aldeia na Palestina

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A partir de 27 de março de 1948, uma pequena e muito bonita aldeia palestina chamada Beit Daras tornou-se alvo de ataques de milícias sionistas. Com pouquíssimos recursos – alguns rifles antigos e facas de cozinha –, os residentes locais tentaram resistir e conseguir repelir o primeiro e o segundo ataque. O ataque final sobre a aldeia pacífica foi sucedido por uma estratégia militar de terra arrasada, deixando para trás um rastro de mortos e feridos e toda a aldeia em situação de fuga. Dentre os milhares de palestinos vítimas da limpeza étnica em Beit Daras, uma família de seis pessoas, incluindo uma criança pequena, conseguiu recuperar algumas cobertas velhas e alguns suprimentos e saiu em busca de um lugar seguro, na esperança de retornar para casa após alguns dias. Seus quase cem descendentes ainda esperam retornar a Beit Daras, após 72 anos.

Fé, esperança e cobertas velhas

“Por que transportar boas cobertas nas costas de um burro e expô-las à poeira da jornada, se sabemos que é questão de mais ou menos uma semana até voltarmos a Beit Daras?”, afirmou Mohammed à sua esposa perplexa, Zeinab. Muitos anos depois, vovó Zeinab repetia essa história com um risinho; ao ouví-la, vovô Mohammed balançava a cabeça, com um misto de constrangimento e luto.

Não posso pontuar o momento em que meu avô, aquele maravilhoso homem idoso com sua pequena barba branca e gestos humildes, descobriu que suas “boas cobertas” eram parte do passado, que tudo que restou de sua aldeia foram dois gigantescos pilares de concreto e montes de cactos. Sei bem que ele jamais cedeu a esperança de retornar a Beit Daras, quem sabe ao mesmo casebre de tijolos de barro com uma torre de pombos no telhado.

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A existência de Beit Daras no presente atrai pouco interesse, senão dois pilares de concreto que, certa feita, serviram de entrada a uma pequena mesquita, cujos muros, assim como os fiéis, pertencem ao passado. Todavia, de algum modo, os fiéis ainda insistem em se identificar com aquele lugar sereno e sua existência simples. Naquele mesmo lugar, sobre os ombros daquela pequena colina, acanhada entre campos e cercas de cactos em flores, certa vez repousou aquela pequena e adorável aldeia. E também lá, em algum canto nos arredores daqueles dois pilares enormes, em um pequeno casebre de barro com um pequeno anexo para guardar a colheita e uma torre de pombos no telhado, nasceu meu pai, Mohammed Baroud.

Não é fácil compor uma história que, apenas algumas décadas atrás, foi transformada em ruínas, como cada edifício daquela aldeia, com a intensidade própria de quem desejava apagar sua existência. A maior parte das referências históricas a Beit Daras, seja por historiadores palestinos ou israelenses, são breves e, em último caso, resultam em delinear a queda de Beit Daras como apenas uma das quase 500 aldeias palestinas aniquiladas pela violenta limpeza étnica entre os anos de 1947 e 1949. Representa um episódio de uma tragédia muito mais ampla que resultou na expropriação e expulsão de quase 800.000 palestinos.

Para os sionistas, Beit Daras foi somente outra colina, conhecida por um código de guerra, a ser conquistada, com bem foi. Entretanto, deveria se tratar de algo mais do que uma nota de rodapé nos “Diários de Guerra” de Ben Gurion, ou no volume “O Nascimento do Problema dos Refugiados Palestinos” de Benny Morris. É muito mais do que simples números em uma tabela sem fim, seja para documentar as vítimas dos massacres ou estimar quantos refugiados palestinos ainda dependem de assistência alimentar das Nações Unidas. Para os palestinos, sua queda é uma das muitas tristezas na antologia conhecida coletivamente como al-Nakba – isto é, catástrofe.

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Meus avós jamais se cansaram das lembranças de sua amada aldeia. Costumavam brincar com meu avô por não ter compreendido a dimensão de sua tragédia, por insistir em deixar as “boas cobertas” para trás, enquanto juntava seus filhos para escapar da aldeia e do intenso bombardeio. Meu avô faleceu apenas 58 quilômetros a sudoeste de Beit Daras, em um campo de refugiados conhecido como Nuseirat.

Beit Daras lhe concedeu dignidade. As mãos calejadas de meu avô e a pele queimada pelo sol representava décadas de trabalho árduo destinado ao solo rochoso nos campos da Palestina. Era um passatempo popular entre eu e meus irmãos apontar para um cicatriz em seu corpo abatido e ouvir histórias arrasadoras dos rigores da vida na fazenda. Meu avô corria os dedos sobre a tênue cicatriz no topo de sua cabeça e ria: “Ganhei essa pela manhã. Fui ordenhar a vaca, costumava ser tarefa de sua avó, e aquela vaca tinha algo contra mim. Abaixei-me atrás dela e então tudo escureceu”. Relatos de ser pisoteado pelo burro ou atropelado pelo arado, ferimentos que possivelmente ameaçaram sua vida, eram todos reduzidos a anedotas bem humoradas para entreter os netos.

Dia da Nakba, em 1948 [Carlos Latuff/Monitor do Oriente Médio]

De modo similar, agradava a meu avô recordar-se dos bons e velhos tempos de quando tinha uma terra, uma casa, galinhas, cabritos, costas fortes – tudo que precisava para prover à sua família. A vida no campo lhe concedeu a chance de cultivar uma forte noção de respeito próprio. Alimentos que certa vez foram fruto de horas de colheita em seus próprios campos, agora eram fornecidos em um saco de pano por algum país europeu ou pelas Nações Unidas. Talvez, um dos maiores desafios enfrentados por ele foi suportar uma vida de ócio. Porém, uma atividade que lhe ocupava o tempo era sentar-se com outros homens no campo e discutir as políticas do dia, debater de quem e quando viria sua libertação. Sua terra natal estaria pronta para o plantio? Poderiam reconstruí-la logo assim?

Mais tarde na vida, alguém lhe deu um pequeno rádio de pilha para que ouvisse as últimas notícias e, dali em diante, jamais foi visto sem ele. Quando criança, lembro-me dele escutando as notícias do Arab Voice naquele rádio abatido. Certa feita, fora azul, mas tornou-se branco com o tempo. Suas pilhas salientes eram coladas com fita adesiva na parte de trás do rádio. Sentado com o aparelho no ouvido, com dificuldade para compreender o repórter em meio a tanta estática, meu avô ouvia e aguardava pelo tão esperado anúncio, sobre o qual convocaria a todos: “Povo de Beit Daras: suas terras estão livres, retorne à sua aldeia.”

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Em toda a minha vida, só ouvi meu avô xingar em uma única ocasião, embora recorrente. Seu filho mais novo, Muneer, costumava brincar com meu avô ao correr para o quarto onde estava e gritar: “Papai, fizeram o anúncio, podemos retomar nossas terras!”. Meu avô pulava de sua cadeira e corria ao rádio e meu tio não conseguia segurar suas risadas. Meu avô sabia muito bem que seu filho o enganara novamente, então apontava seu dedo trêmulo contra ele e murmurava brevemente: “Seu pequeno desgraçado”. Então retornava calmamente à sua cadeira e voltava a esperar.

O dia em que meu avô morreu, seu rádio fiel repousava sobre o travesseiro perto de seu ouvido, de modo que sempre pudesse escutar o anúncio pelo qual esperou por toda a vida. Preferia compreender sua expulsão como uma simples falha na consciência do mundo que certamente seria corrigida no momento oportuno. Não estava ciente das balanças de poder, da geopolítica regional ou outros assuntos tão triviais. Mas decerto era um homem atento, atento a todas as coisas do mundo que envolviam sua existência humilde. Contudo, recusou-se deliberadamente a aceitar qualquer lógica que manifestasse aceitação a um eterno divórcio de seu passado, que definiu cada fibra de seu ser. Para ele, aceitar que as “boas cobertas” já não existiam era o fim da esperança, o fim da fé, o fim da vida. Meu avô Mohammed era um homem esperançoso, com sua fé forte e resoluta. Eu adorava sua companhia e suas agradáveis histórias de Beit Daras, seu povo simples e tempos muito mais felizes.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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