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Estados árabes precisam ser completamente honestos sobre o coronavírus

Trabalhadores desinfectam o átrio do Museu Egípcio, localizado na célebre Praça Tahrir, como parte das medidas de prevenção contra a pandemia de coronavírus (Covid-19), no Cairo, capital do Egito, 23 de março de 2020 [Khaled Desouki/AFP/Getty Images]

No início deste mês, o jornalista pró-Assad Rafiq Lutf escreveu no Twitter que havia descoberto muitos casos de pessoas infectadas com coronavírus na Síria. Lutf afirmou ter feito um apelo ao Ministério da Saúde da Síria para investigar e revelar o número exato de casos; entretanto, o ministério “permanece em silêncio e alertei que não ficarei quieto por muito tempo.” O jornalista então alegou que há ao menos 400 mortes pelo vírus nas regiões de Lattakia, Tartus e Damasco, com ao menos 2.000 casos não registrados. Então passou a denunciar a falta de ações do regime sírio: “O Ministério da Saúde e mesmo o governo não tomaram qualquer medida preventiva a não ser o silêncio.”

O último tuíte de Lutf foi publicado em 9 de março, quando subitamente percebeu sua situação precária diante do governo e anunciou: “Não falarei mais do coronavírus, desejo a todos segurança. Boa sorte a nosso valente exército em Idlib.” Desde então, suas páginas do Twitter e Facebook permanecem em silêncio, em contraste notório com a frequência regular anteriormente mantida. Nesta semana, a Síria enfim admitiu que um pessoa morreu do coronavírus, uma mulher que recentemente voltou ao país do exterior. A falta de honestidade por parte do regime em Damasco é claramente fatal em larga escala, mas não precisava ocorrer dessa maneira.

O coronavírus varreu o mundo e levou nações inteiras à paralisação e suspensão de voos internacionais. Supermercados britânicos testemunharam pânico sem precedentes e brigas por itens mais procurados. Nos Estados Unidos, lojas de armas tiveram filas às suas portas à medida que consumidores preparam-se para um suposto apocalipse. Auto-isolamento e trabalho de casa são a nova via de regra para a maior parte das pessoas nos países que hoje estão em “isolamento”.

Países por todo o Oriente Médio também assumiram medidas drásticas – mas necessárias – para conter a propagação do vírus. De proibições de viagens ao fechamento de espaços públicos e mesmo cancelamento de orações e cultos coletivos, tais nações demonstraram medidas notoriamente proativas no combate à pandemia.

Porém, há contrapontos. O Irã serviu de lição a seus vizinhos, com um número mínimo de infecções em fevereiro mas que cresceu exponencialmente desde então. No momento da escrita, o país possui mais de 20.600 casos com mais de 1.500 mortes. Trata-se de um dos países mais afetados desde o início do surto, na China, no final de 2019.

Teorias conspiratórias fervilham sobre as origens do vírus. Autoridades chinesas e iranianas chegaram a afirmar que o coronavírus foi criado pelos Estados Unidos para dizimar suas nações; por sua vez, o presidente americano Donald Trump passou a chamar a doença de “vírus chinês”. Alguns religiosos alegam se tratar de uma punição divina; para outros, é um plano global conduzido por governo internacionais para subjugar o povo e reduzir liberdades. Há ainda aqueles que dizem que o assassinato do general iraniano Qassem Soleimani, no início de janeiro, foi o catalisador de tudo, pois ele supostamente representava o ponto de estabilidade para todo o mundo.

O coronavírus afeta a economia global – cartum [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

Pouco importa se o vírus é uma arma biológica ou agente de fato natural, o importante é que as nações do Oriente Médio – como Irã, Síria e até mesmo Egito – agem para encobrir a severidade da doença. Isso não apenas prejudica seus cidadãos e impõe um pesado fardo a seus próprios sistemas de saúde, já precários, como também retoma a longa história de desinformação e má comunicação entre as autoridades do Oriente Médio, que levaram a diversos fracassos em inúmeras situações.

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Exemplos destes fracassos incluem as guerras com Israel em 1967 e 1973. Dentre os fatores que contribuíram para a derrota dos países árabes – além da exagerada ênfase em centralização, cálculos estratégicos equivocados e desunião entre comandantes egípcios –, um dos mais fatais revelou ser o encobrimento e a distorção das próprias informações de inteligência a fim de salvar as aparências. Quando forças israelenses atravessaram a Península do Sinai para conter forças egípcias, por exemplo, os comandantes egípcios em campo recusaram-se a informar os devidos fatos e omitiram informações vitais a qualquer resposta possível. Comandantes de alto escalão julgaram mal a situação, o que lhes foi mortal.

Outro exemplo foi o desacordo entre o general egípcio Saad El-Shazly e o chefe de estado-maior do Egito Ismail Ali. Na ocasião, El-Shazly criticou veementemente a decisão de realizar investidas estratégicas no Sinai para pressionar o recuo israelense, devido à cobertura aérea que as tropas israelenses então possuíam. Ali e o Presidente Anwar Sadat, no entanto, ignoraram os apelos de El-Shazly e insistiram em fazer exatamente o que era esperado por Israel. Novamente, uma decisão política foi priorizada em detrimento de observações técnicas, fundamentalmente devido à falta de informações confiáveis e responsabilidade para assumir as medidas que poderiam ter impedido tamanho fracasso. Apenas em 1982, Israel enfim devolveu o Sinai ao Egito.

Da mesma forma que a desinformação foi a causa de diversos fracassos entre as campanhas militares árabes, ao menos nos últimos cem anos, tais fatores também poderão levar ao colapso de sistemas de saúde e ao consequente extermínio de populações árabes inteiras. Por um lado, tais prioridades podem impor um obstáculo severo à ofensiva do regime de Assad na província de Idlib; por outro, podem resultar na propagação da doença sem qualquer controle entre os sírios deslocados na região. A relativa inação do governo sírio, e sua contraparte egípcia neste sentido, pode até servir aos interesses dos regimes em Damasco e Cairo, mas será devastadora aos civis em ambos os países.

Caso a Síria de fato esteja encobrindo a própria existência do vírus em sua população e caso o Egito esteja diminuindo deliberadamente as estatísticas de infectados, como se alega, então temos mais uma evidência de que nenhum dos países efetivamente aprendeu suas devidas lições históricas – em particular, diante das derrotas militares nas mãos de Israel. Confiança e honestidade são essenciais em qualquer estrutura de comando, civil ou militar. Quando se ausentam um ou ambos os fatores, os efeitos são previsivelmente catastróficos. Na Síria e no Egito, serão as pessoas comuns que pagarão o preço pela omissão de seus governos.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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