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Ataques sexuais do Egito contra mulheres são vingança pela revolução de 2011

Mulheres protestam na Praça Tahrir, no Cairo, capital do Egito, em 6 de fevereiro de 2011 [Flickr]

Na primeira vez que Sara Mohani foi presa, em 2017, forças de segurança a imobilizaram contra uma parede e passaram a descrever seu corpo com detalhes íntimos. “Caso encontremos qualquer foto de protesto em seu celular, iremos estuprá-la”, disseram a ela.Sara havia sido levada para a Delegacia de Polícia de Dokki após ser detida durante um protesto que cobria para o site de notícias Bawabet Yanayer. Sara estava preparada, mas ainda assim ficou chocada com a ameaça.

“Nós mulheres discutimos antes de participar de qualquer manifestação sobre o que faremos caso tenhamos de enfrentar ataques sexuais”, explicou Sara. “Perguntamos isso a nós mesmas ainda antes de pensar sobre o que fazer caso enfrentemos as balas das forças de segurança.”

No Egito é bastante notório a contratação por autoridades de gangues do regime conhecidas como baltagiya, que se infiltram nos protestos e abusam sexualmente das mulheres. As autoridades agridem mulheres nas delegacias, nas prisões, nos postos de controle, durante visitas a familiares detidos e mesmo em suas próprias casas, durante invasões arbitrárias.

Mulheres egípcias protestam contra a violência cometida contra elas pelas autoridades do Egito, em 22 de dezembro de 2015 [Amr Sayed/Apaimages]

Nove anos depois da Primavera Árabe, esta é a realidade para as mulheres no Egito – tornou-se procedimento padrão o abuso verbal e sexual cometido por autoridades egípcias contra mulheres politicamente ativas.

Diante do cauteloso otimismo dos protestos que tomaram a Praça Tahrir, no centro do Cairo, em 2011, mulheres permaneceram entre as multidões e exigiram o direito a um papel central na vida política do Egito.

Estavam cansadas da era Mubarak, quando seus direitos eram cotidianamente violados no que se refere a qualquer participação política, e desejavam integrar-se ao trabalho público. Entretanto, ao invés de conceder às mulheres uma presença central, sua participação aterrorizou o establishment egípcio.

“Após a revolução, as mulheres sabiam do valor de sua voz, seu impacto e sua importância na sociedade. À medida que reivindicávamos nossos direitos, a repressão aumentava”, relata Sara.

“A violência contra as mulheres no Egito não ocorre apenas no âmbito familiar, não é cometida apenas por homens nas ruas, mas se estende também aos homens no poder”, prossegue. “Ao invés de protegê-las, as autoridades tornaram-se sua pior ameaça. Forças de segurança utilizam de violência sexual para coagí-las a deixar de participar na vida política e abandonar suas demandas por uma vida mais justa.”

Desde que chegou ao poder, o general e presidente Abdel Fattah el-Sisi estabeleceu um objetivo prioritário: evitar outro levante como em 2011, que seria capaz de depô-lo do trono. Para tanto, aprisionou 60.000 pessoas, cometeu tortura e deixou-as para morrer em suas celas de prisão ao lhes negar qualquer acesso apropriado à saúde e remédios, além de efetivamente executá-los.

Sisi sancionou, ou ao menos ignorou, diversos casos de violência sexual contra mulheres a fim de destruir sua força de vontade, forçá-las a confessar e executá-las sumariamente pelo direito legítimo ao protesto. Em agosto de 2019, a plataforma de direitos humanos We Record, com sede na Turquia, havia documentado 2.761 casos de tortura e violações contra mulheres nos centros de detenção em todo o Egito, desde o golpe de 2013.

“Mulheres egípcias sob o governo de Sisi vivenciam a era mais sinistra na história do Egito”, afirma Asmaa Shukr, porta-voz da organização Women Against the Coup (Mulheres contra o Golpe), movimento de resistência feminino que foi fundado durante o protesto sit-in em Rabaa, em agosto de 2013, que resultou em massacre.

Apoiadores do ex-presidente egípcio Mohammed Morsi durante protestos no Cairo, Egito, em 19 de agosto de 2013 [foto de arquivo]

“Violência sexual contra mulheres aumentou de forma bastante significativa após a revolução, como punição sistemática contra mulheres que participaram dos protestos”, relata Asmaa.

Sara concorda: “É vingança contra as mulheres pela sua participação na revolução.”

Em um movimento bastante cínico de relações públicas, Sisi tentou representar a si mesmo como um salvador das mulheres, ao realizar discursos pungentes sobre o papel fundamental da comunidade feminina na sociedade do Egito, ao ponto de declarar 2017 como “Ano das Mulheres”.

O povo do Egito, entretanto, não se esqueceu dos testes de virgindade coordenados pelo general durante as manifestações de 2011 contra manifestantes mulheres. Depois, o militar justificou tais ordens deliberadas e ações abusivas ao alegar que tratava-se de um meio para proteger o Exército de acusações de estupro.

Tal abordagem concernente a abusos sexuais cotidianos, proveniente do mais alto escalão do governo, além da completa falta de juízo contra oficiais responsáveis e executores, espalhou-se para as ruas, como vimos recentemente no caso de agressão sexual contra uma mulher em Mansoura, cometido por um grupo de homens, enquanto ela tentava entrar em seu caso na véspera do Ano Novo.

“A negligência das instituições judiciais e a falta de justiça são uma razão significativa para a propagação deste fenômeno de assédio. Ao deixar de responsabilizar os agressores, houve um estímulo ao crime”, relata Asmaa. “Evidentemente, não vamos nos esquecer do papel das instituições de segurança que supostamente deveriam proteger as mulheres do Egito, e não abusá-las.”

Durante o processo de ascensão de Sisi ao poder, muitas mulheres vieram a público para contar suas histórias e exigir seus direitos. Contudo, conforme a repressão sobre o Egito tornou-se cada vez mais severa, tais mulheres recuaram, a fim de proteger suas famílias de medidas punitivas.

Talvez, o mais famoso exemplo seja o caso de Umm Zubeida, presa após denunciar à rede britânica BBC como sua filha foi abusada sexualmente por forças de segurança do Egito. Ao ser interrogada durante a primeira vez em que sua filha foi detida, guardas ameaçaram estuprá-la em frente da mãe.

Umm Zubeida, mãe de Zubeida Ibrahim Yousef, foi presa após denunciar publicamente o desaparecimento e estupro de sua filha por forças de segurança do Egito [Facebook]

Nancy Kamel, jornalista e mãe de dois filhos, foi presa duas vezes pelo regime de Sisi, sob acusações espúrias, incluindo espalhar rumores no Facebook. Nancy foi jogada em uma cela com quatro outras mulheres. Sangue da tortura executada contra as outras detidas cobriam o interior da cela, inclusive cobertores. Alguém escreveu na parede, em caneta preta permanente: “Algum dia vocês vão sofrer como nos fizeram sofrer.”

Um dos guardas relatou a Nancy ter recebido ordens para não alertar sua família se ela estava viva ou morta. “Por que você não simplesmente diz que gosta do seu presidente?” questionou outro oficial ao transferí-la para a corte. “Por tudo que aconteceu no Egito”, respondeu Nancy. “É meu país e amo meu país, desejo que seja o melhor país do mundo.”

Na audiência em tribunal de Nancy, sua irmã compareceu com uma de suas filhas, na esperança de que a menina pudesse ver a mãe por um breve instante. Entretanto, o guarda responsável a reeprendeu duramente: “Esta mulher é uma puta, por que daria a ela sua filha? Ela não tem permissão para ver a filha!”

Em outra ocasião, a mãe o pai de Nancy foram visitá-la e, ao ver suas filhas através do grosso vidro de contenção, a prisioneira acenou para elas e gritou por impulso: “Estou indo”. Quando os oficiais viram sua animação diante das filhas, cancelaram prontamente a visita e a levaram de volta à cela.

Durante seu tempo na prisão, Sara foi submetida a violentas e degradantes revistas corporais executadas por um prisioneiro, criminoso comum, além de ser verbal e sexualmente assediada. Quando reclamou às autoridades responsáveis, os guardas prenderam-na com dois pares de algemas, isolaram-na em uma cela sem ventilação por sete horas e voltaram a revistá-la.

Sara afirma que recebe hoje tratamento psicológico devido às memórias da cadeia, onde foi forçada a ouvir a tortura e os gritos de angústia de outros prisioneiros – método coercitivo que as autoridades descrevem como “festa da tortura”.

Sara lembra-se também de um episódio no qual duas meninas de três e cinco anos de idade foram presas junto de seu pai e jogadas em celas masculinas, enquanto o pai implorava aos oficiais para enviarem as filhas à ala feminina, com receio de que fossem agredidas ou assediadas.

“Eles levaram as meninas à nossa cela; quando a mãe chegou para levá-las para casa, a polícia mandou que ela limpasse o chão de toda a delegacia, antes de devolver suas filhas”, relata Sara.

Logo antes do Natal, Maryam Salem tornou-se a primeira mulher detida a morrer na prisão, após autoridades penitenciárias recusarem-se a transferí-la para um hospital, quando suas condições de saúde gravemente se deterioraram.

Maryam tinha 32 anos de idade e deu a luz a seu filho ainda presa. Autoridades egípcias entregaram o menino a um orfanato após seu segundo aniversário.

Infelizmente para Maryam, seu nome não tornou-se conhecido até sua morte, o que muitas vezes parece ser o destino inexorável de prisioneiras do regime.

Sara afirma que, quando detida, oficiais checaram páginas do Facebook para monitorar eventuais atualizações sobre ela. “Eles ficaram furiosos, e me perguntavam por que as pessoas estavam falando sobre mim”, conta Sara.

“Quero aconselhar as famílias dos detidos a falar sobre eles. Lembro-me bem: quando estava na prisão e as pessoas falavam sobre nós na imprensa, o tratamento da polícia subitamente melhorava. É preciso não deixar que a polícia pense que foram esquecidos. É realmente importante. Alguns dos desaparecidos foram mortos simplesmente porque ninguém falou sobre eles ou questionou seu destino.”

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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