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Estratégia anti-BDS de Israel simplesmente promove mais mitos e mentiras

Palestinos protestam contra decisão do Parlamento da Alemanha em relação ao movimento de BDS, em Gaza, 23 de maio de 2019 [Mohammed Asad/Monitor do Oriente Médio]

O Ministério de Assuntos Estratégicos de Israel publicou um relatório intitulado Terroristas de Terno: As Relações entre ONGs que promovem o BDS e Organizações Terroristas. O documento possui um toque de melodrama, em particular ao exibir fotografias de ativistas do BDS fixados com alfinetes em um quadro de avisos conectados por uma teia de barbantes vermelhos, como uma cena de um filme policial.

O homem por trás do relatório é o Ministro de Segurança Pública e Assuntos Estratégicos Gilad Erdan; o político evidentemente possui uma imaginação fértil. Nomes, lugares, datas, eventos, reuniões e imagens são embaralhados com o intuito de apresentar um cenário no qual é razoável prender apoiadores do movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) e ignorar os crimes de Israel contra o povo palestino. Ao fazê-lo, simplesmente promove mais mitos e mentiras.

O documento sugere que todo ativista pró-Palestina favorável à justiça, na realidade, não é o que parece. Cita, por exemplo, um texto emitido em 2007 pela Suprema de Corte de Israel que então descrevia Shawam Jabarin, diretor-geral da Fundação Al-Haq, uma das organizações de direitos humanos mais tradicionais da Cisjordânia ocupada, como uma espécie de “Dr. Jekyll e Mr. Hyde”. Devido a “consideráveis preocupações de segurança”, a corte apoiou a decisão do Exército de proibí-lo de viajar para fora do país. Khalida Jarrar, vice-diretora da Associação de Direitos Humanos Addameer, é definida da mesma forma. Ela é mantida sob ordem de prisão administrativa desde 2017, devido ao seu papel como membro sênior da Frente Popular pela Libertação da Palestina (FPLP) e seu suposto envolvimento em atividades terroristas. O conceito de prisão administrativa proporciona a Israel que mantenha indivíduos – sempre palestinos – atrás das grades sem necessidade de acusação ou julgamento, passível de renovação a cada seis meses.

Outro trecho do relatório israelense busca representar um ato de pirataria em alto-mar como alguma espécie de heroísmo anti-terrorista. Quando fuzileiros israelenses atacaram o navio Mavi Marmara, registrado na Turquia, em 2010, a embarcação era então parte de um comboio de ajuda humanitária em direção à Faixa de Gaza sitiada. Em águas internacionais, com enorme desdém à lei internacional e às vidas humanas, os israelenses sequestraram o comboio, mataram nove ativistas turcos – İbrahim Bilgen, Çetin Topçuoğlu, Furkan Doğan, Cengiz Akyüz, Ali Heyder Bengi, Cevdet Kılıçlar, Cengiz Songür, Fahri Yaldız, Necdet Yıldırım – e deixaram outro, Ugur Suleyman Soylemez, tão gravemente ferido que veio a falecer após quatro anos em coma. Eventualmente, Israel aceitou pagar mais de $20 milhões às famílias das vítimas. Marqueteiros israelenses a serviço do ministério de Erdan ainda trabalham na difamação dos mártires e distorcem a realidade do ataque. De fato, todos que tiveram alguma relação com o comboio Mavi Marmara ainda são acusados de “terrorismo”, incluindo Sarah Colborne, chefe da Campanha de Solidariedade Palestina da Grã-Bretanha, Ismail Patel dos Amigos de Al-Aqsa e lideranças palestinas exiladas como Muhammad Sawalha e Zaher Birawi.

As acusações contra estes ativistas incluem aparecer na emissora de TV Al-Aqsa, pertencente ao Hamas; promover frotas pela liberdade a fim de romper o cerco israelense a Gaza; reivindicar o fim da venda de armas a Israel e organizar manifestações em apoio ao direito legítimo de retorno dos palestinos, como os protestos da Grande Marcha do Retorno. Conforme o relatório de Erdan, é suficiente para o registro a viagem a Gaza com o intuito de dar auxílio humanitário e apoio moral aos palestinos sitiados. Descreva Israel como estado de apartheid e será chamado de terrorista, embora as ações israelenses preencham todos os critérios para tal descrição.

Ao longo de Terroristas de Terno… há um prepotente desrespeito pela lei internacional, pelas resoluções da ONU e pelo puro e simples senso comum, refletindo o desprezo de Israel às leis e convenções estabelecidas com o objetivo de proteger populações vulneráveis e lhes prover justiça. Em lugar algum do relatório é sugerida a menor indicação de que seus autores estejam remotamente cientes da brutal ocupação militar de Israel, sob a autoridade de suas cortes nacionais e agências de segurança. De fato, cita declarações em juízo e relatórios da Shin Bet, a agência interna de segurança, como se fossem completamente independentes e imparciais, o que é absurdo. Qualquer oposição ou resistência à ocupação beligerante e ilegal é tratada como terrorismo, e as mesmas punições aguardam todos que pensarem diferente.

De acordo com Erdan e sua equipe, ninguém está seguro destes processos penais tão perniciosos: organizações da sociedade civil, entidades palestinas, intelectuais ou ativistas. O relatório afirma que 42 ONGs lideram quase 300 organizações internacionais no ato de promover a “deslegitimação de Israel” e a campanha de boicote (BDS) contra o estado sionista. Somente isso, insiste, é razão suficiente para classificá-los como “terroristas” e desprestigiá-los junto ao seu trabalho admirável. A militância, aos olhos do Ministério de Assuntos Estratégicos, é aceitável apenas quando favorece Israel; caso contrário, é “terrorismo”.

Como disse o Presidente dos Estados Unidos George W. Bush após os ataques de 11 de setembro: “Ou vocês estão conosco ou estão com os terroristas.” Não deixou qualquer espaço para o meio-termo; o mesmo estigma vale àqueles contrários tanto ao militarismo americano quanto ao terrorismo em geral. Israel aproveitou-se da popularidade deste discurso: ou está a favor de Israel ou é terrorista. Não é possível, nessa perspectiva, defender a justiça caso a justiça venha a amparar o povo da Palestina ocupada. Então reflito: Israel e seus apoiadores irão acordar para o fato de que ativistas pacíficos pró-Palestina não são o problema e que a ocupação israelense é, na verdade, o coração do conflito?

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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