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Catar é quem cerca, não quem é cercado

Bandeira do Catar [foto de arquivo]

Há dois anos atrás quatro países – Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos (EAU), Bahrein e Egito – passaram a impor um cerco ao Catar. Após este tempo, o país sitiado tornou-se mais forte e mais poderoso, enquanto aqueles que o cercam permaneceram atolados naquilo que pensaram construir como arapuca ao vizinho do Golfo. O passado recente indica que o Catar costuma ser o vizinho incômodo à Arábia Saudita e aos EAU, pois se recusa a submeter-se às suas decisões. Esta é a essência do conflito que regularmente vem à tona de tempos em tempos, demonstrando a fragilidade das relações entre os diversos regimes árabes, incluindo os governos do Golfo, alguns dos quais provavelmente mais resilientes do que os outros.

O Catar é o primeiro país a rejeitar a “Iniciativa do Golfo”, supostamente proposta pelos estados do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) a fim de salvar seu aliado Ali Abdullah Saleh, falecido presidente do Iêmen, das garras do povo iemenita após a revolução popular em 2011. Aqueles que acompanham a situação lembram-se como a Arábia Saudita concentrou-se no uso de seus “voos eletrônicos” – embora o termo não fosse comum na época – para almejar e minar as forças políticas do Catar. A inteligência saudita utilizou hashtag atrás de hashtag para acusar o Catar de ser dissonante em relação aos interesses regionais.

Desde então, o Catar recusou-se a ser dependente ou submisso a quaisquer países. Doha passou a acreditar que não poderia alcançar seus planos para o futuro e seu desenvolvimento como estado sem tomar decisões soberanas e independentes. No entanto, vale notar que o Catar tolerou e manteve boas relações com seus vizinhos. Preservou a humildade em relação à sua irmã maior, a Arábia Saudita, e insistiu em defendê-la sempre que os sauditas recebiam críticas internacionais. Vale ressaltar que os catarianos resistiram às políticas sauditas, frequentemente arbitrárias e negligentes quanto aos riscos políticos e à compreensão da volatilidade e das repercussões na região. Um exemplo disto é Saleh, defendido pela Arábia Saudita por uma iniciativa miserável, rechaçada tanto pelo Catar quanto pela indignação de seu povo, mas que – em último caso – decidiu aliar-se com os rebeldes houthis e opôr-se aos sauditas.

Este artigo não é extenso o suficiente para expor os pormenores deste assunto; contudo, devo mencionar a Operação Tempestade Decisiva, de intervenção militar no Iêmen, lançada por Mohammed Bin Salman, príncipe herdeiro saudita, em março de 2015, que surpreendeu o mundo ao indicar diversos países participantes sem antes discutir a decisão com eles. Quando os sauditas pediram ao Catar por tropas armadas para auxiliá-los a proteger sua fronteira do sul com o Iêmen, o Catar não se recusou e imediatamente enviou suas forças sob a condição de que permaneceriam na Arábia Saudita como missão de defesa, e não ofensiva, apesar de afirmar ser absolutamente contra qualquer guerra na região.

No entanto, todos esses eventos viraram-se contra o Catar da noite para o dia, e as forças catarianas deixaram a Arábia Saudita após a imposição do cerco. Sitiar o território do Catar não estava originalmente nos planos dos quatro países envolvidos. Eles tentaram invadí-lo e ocupá-lo, segundo detalhes vazados à imprensa por diversas fontes americanas. Sobretudo, quando tais países perceberam que se tratava de uma tarefa impossível, decidiram não sair de mãos vazias e então impuseram o cerco ao Catar e proibiram que qualquer pessoa entrasse no país durante o Ramadã. Também fecharam seu espaço aéreo, com efeitos e perdas, assim como apartaram laços familiares entre o povo do Catar e os povos da Arábia Saudita, dos EAU e do Bahrein.

Conforme o pensamento dos quatro países sitiantes, o cerco foi a melhor maneira de pressionar o Catar a renunciar sua soberania e independência. Também imaginaram ser a melhor forma de pressionar o país sitiado a aceitar suas condições que iriam então, em grande parte, subordiná-lo à condição de dependente. Pensaram que tais objetivos eram tangíveis e que Doha não resistiria muito.

Dois anos se passaram. O que aconteceu durante este tempo? O Catar expandiu seus laços diplomáticos, aumentou sua influência política e adquiriu maior respeito internacional. Sobretudo, o Catar tornou-se economicamente viável após implementar diversos projetos protelados como favor a seus vizinhos e irmãos. Por outro lado, a Arábia Saudita e os EAU, líderes do cerco, atualmente sofrem uma crise de crescimento exponencial diário. É razoável afirmar que os três encontros chamados pelo Rei Salman em Meca durante o Ramadã não conseguiram atingir mesmo o mínimo êxito esperado.

Podemos dizer hoje que o Catar conquistou sua segunda independência e está mais próximo de se tornar uma força de influência no Oriente Médio devido à sua astúcia e sua liderança, as quais adotaram um caminho diplomático diferente, com base na transparência, na flexibilidade e no apreço mútuo àqueles que respeitam seus mapas e acordos.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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