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Crescem as relações Turquia-Palestina

Palestinos seguram retratos do presidente turco Recep Tayyip Erdogan durante manifestação em apoio à Turquia, em Gaza, 24 de junho de 2018 [Ashraf Amra/Apaimages]

Um fato recente é o crescimento das relações entre Turquia e Palestina, política e economicamente, com Ancara dialogando tanto com o Fatah, quanto com o Hamas. Essa é uma indicação da capacidade da Turquia de fortalecer suas relações com os dois polos da arena política palestina, atualmente quase absolutamente dissociados.

O Ministério das Relações Exteriores turco anunciou que entregou US$ 3,5 milhões para a Autoridade Palestina como parte de uma doação de US$ 10 milhões, destinada desde setembro de 2017 a programas de desenvolvimento econômico. No início deste mês, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, reuniu-se com o primeiro-ministro da Autoridade Palestina, Mohammad Shtayyeh, em Ancara, para discutir questões na arena palestina. O primeiro-ministro palestino informou seus anfitriões sobre a difícil situação financeira enfrentada pela Autoridade devido às sanções dos Estados Unidos e de Israel.

De acordo com a mídia palestina, Shtayyeh se reuniu com autoridades do Hamas que vivem na Turquia para discutir o “acordo do século” e tentar chegar a um consenso sobre o assunto. Há algumas semanas, o vice-presidente do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AK) da Turquia, Numan Kurtulmus, se reuniu com o ex-chefe do escritório político do Hamas, Khaled Meshaal, em Istambul, e enfatizou o apoio permanente de seu país à questão palestina. Meshaal expressou seu orgulho pelo apoio contínuo da Turquia. Um mês antes, a segunda conferência turco-palestina foi lançada com a presença de representantes de ambos os lados e mais de 300 palestinos de toda a Turquia. Os turcos reiteraram que seu país continuará sendo um defensor da causa palestina e um anfitrião para o povo palestino.

A presença dos palestinos na Turquia nas últimas semanas indica que o status de Ancara está crescendo em importância, devido à limitação de suas alternativas regionais. Os estados árabes ou se tornaram mais ligados ao projeto liderado pelos EUA, ou estão preocupados com questões domésticas. De qualquer forma, não dão mais à causa palestina a atenção que merece. Assim, a Turquia se mostra uma opção melhor, dada a sua aceitação dos palestinos, falando em seu nome e adotando suas posições.

Nos últimos anos, podemos observar uma migração política e econômica da Palestina para a Turquia. Em setembro do ano passado, os governos de Ancara e Ramallah assinaram um acordo de investimento mútuo para incentivar os investidores turcos a considerar a Palestina como centro de negócios, manter os investimentos palestinos na Turquia, e proteger investimentos econômicos e comerciais mútuos, reforçando essas relações e proporcionando um ambiente positivo para investidores de ambos os países.

O Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan (à direita) e o Presidente da Palestina, Mahmoud Abbas
(à esquerda), realizam coletiva de imprensa conjunta em Ancara, na Turquia, 28 de agosto de 2017
[Mehmet Ali Özcan/Agência Anadolu]

Além da doação de US$ 10 milhões, existem acordos de cooperação entre seus respectivos ministérios públicos, agências internacionais e de desenvolvimento, ministérios de educação e cultura e os setores postal e de serviços. A Turquia já é um importante parceiro comercial e econômico da Palestina, e sua ajuda humanitária varia entre US$ 10 e US $20 milhões por ano, com comércio anual entre os países no valor de US$ 400 milhões.

Não é segredo que as relações econômicas turco-palestinas são mais políticas em essência do que financeiras, e o benefício na Palestina pode ser limitado pelo controle de Israel sobre as travessias de fronteira e circulação de mercadorias. Israel também é parceiro econômico dos palestinos, com US$ 800 milhões a US$ 900 milhões em exportações palestinas direcionadas a compradores israelenses, apesar da isenção tributária de produtos palestinos exportados para a Turquia reduzir seus preços.

Vale a pena mencionar que a Turquia prefere manter suas ligações oficiais com a Autoridade Palestina, enquanto seus negócios na Faixa de Gaza são limitados a ONGs e instituições de caridade. O Hamas não parece se beneficiar da ajuda financeira da Turquia a Gaza porque esta é concedida diretamente aos pobres e necessitados. Os turcos não querem ser acusados por Estados Unidos ou Israel de apoiar o “terrorismo”.

No entanto, a crescente proximidade da Turquia com a AP, mantendo as relações com o Hamas, confirma que Ancara não almeja perder nenhum partido na arena política palestina, mesmo que isso atrapalhe ambos os lados, cada qual desejando manter a exclusividade nesse apoio. É significativo que o Fatah, liderado pelo presidente Mahmoud Abbas, tenha realizado sua conferência anual de 2018 em Istambul, com participação dos membros do movimento residentes na Turquia. Esta foi talvez a primeira vez que o Fatah realizou uma conferência na Turquia, que indica o desenvolvimento de seu relacionamento com o governo turco, além de maior coordenação entre as nações, embora a Turquia também abrigue dezenas de membros do Hamas.

A Turquia, é claro, se comporta como um Estado, não como um partido político. Está interessada em ter linhas de comunicação abertas com todos os setores políticos palestinos, especialmente o Hamas e o Fatah, e busca não favorecer um em detrimento do outro. Esta política visa servir a causa palestina em geral e procura reparar a ruptura entre os partidos rivais e trazer a reconciliação nacional.

A relação do Fatah com a Turquia se fortaleceu desde o estabelecimento de um acordo entre o Hamas e o ex-oficial da Fatah, Mohammed Dahlan, em junho de 2017. A aliança não foi bem recebida em Ancara, pois o estado turco acusa Dahlan de envolvimento na tentativa de golpe contra Erdogan, em 2016.

Mohammed Dahlan, ex-oficial de alto escalão da Fatah,
em 16 de setembro de 2015 [STR/AFP/Getty Images]

É verdade que a Turquia considera a Autoridade Palestina liderada pela Fatah como a legítima representante do povo palestino dentro da comunidade internacional. No entanto, suas relações com o Hamas são fortes, especialmente a relação especial entre o presidente Erdogan e Khaled Meshaal. Vale a pena notar que o reconhecimento de Jerusalém como a capital de Israel pelos EUA trouxe a Turquia para mais perto de todos os palestinos, incluindo a Autoridade e o Hamas.

A popularidade de Erdogan na Palestina cresceu quando ele deixou o palco no Fórum de Davos em 2009, após uma discussão com o então presidente israelense, Shimon Peres. Erdogan também decidiu sediar uma cúpula muçulmana de emergência em Istambul, em dezembro de 2017, na qual Mahmoud Abbas teve espaço para realizar um discurso, logo após o anúncio da decisão de Washington sobre Jerusalém.

Segundo o Hamas, a política da Turquia em relação aos palestinos é um modelo positivo para lidar com todos os agentes políticos em benefício da causa palestina. O movimento disse que as portas da Turquia estão abertas a todas as facções palestinas porque sua visão é mais ampla e abrangente do que um relacionamento com apenas uma das partes, excluindo as demais. Assim, o Hamas não é sensível sobre as ligações da Fatah com a Turquia; de fato, as acolhe.

Enquanto isso, os círculos de segurança israelenses acusam a Turquia de abrigar dezenas de membros do Hamas e seus quadros, e alegam que suas atividades incluem o recrutamento de células armadas do exterior para trabalhar dentro da Cisjordânia com a ajuda do movimento em Gaza e de prisioneiros libertados, exilados na Turquia.

Por meio de seus projetos na Faixa de Gaza, em particular, a Turquia busca aumentar sua influência política na arena palestina. Implementa projetos econômicos para que Gaza esteja em um estágio de desenvolvimento no qual o Hamas possa ser mais flexível em suas posições políticas. Tais projetos em toda a Palestina proporcionam à Turquia a oportunidade de se tornar um importante agente a favor de sua causa. Enquanto o Egito se recusa a manter um ponto de apoio na Faixa de Gaza, qualquer um que estiver andando pelas ruas de Gaza verá fotos de Erdogan à mostra, assim como as muitas lojas com o seu nome. Registros oficiais mostram que muitos bebês palestinos receberam o nome do presidente turco.

À medida que o Partido da Justiça e Desenvolvimento na Turquia é próximo da ideologia da Irmandade Muçulmana, e o Hamas é um desdobramento do movimento islâmico, Ancara lida com a Autoridade como o governo oficial da Palestina. Pode até mesmo haver química entre Abbas e Erdogan semelhante àquela entre Erdogan e Meshaal.

Assim, independentemente de sua orientação organizacional e política, os palestinos acreditam que seu interesse está em permanecer próximos da Turquia, como potência regional bastante influente na política internacional. A Palestina constantemente recebe autoridades turcas e delegações populares, e os palestinos entendem que a Turquia tem relações equilibradas com o Fatah e o Hamas.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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