Portuguese / English

Middle East Near You

Oscar 2024: Jonathan Glazer e a necessidade de boicotar os EUA por Gaza

Jonathan Glazer em seu discurso na premiação do Oscar condena ‘desumanização’ de Gaza [Captura de vídeo]

Jonathan Glazer tremia ao denunciar a instrumentalização de sua identidade judaica em nome do morticínio em massa do povo palestino.

Alguns ou todos os seguintes fatores devem ter passado0 por sua cabeça na ocasião: o Oscar tem milhões de espectadores em todo o mundo; cada artista que falou contra a guerra em curso na Faixa de Gaza atraiu um brutal escrutínio ou sofreu consequências profissionais; a cerimônia se dá nos Estados Unidos, participante ativo do massacre e ambiente hostil a todos que queiram denunciar as ações de Israel.

Além disso: esteve sozinho. Sozinho entre os vencedores daquele é considerado o maior prêmio do cinema, no domingo, 10 de março, ao declarar mesmo a mais tímida forma de solidariedade a Gaza, à medida que os mortos se acumulam. Esteve sozinho em sua denúncia, apesar de Len Blavatnik e James Wilson estarem a seu lado no palco, ambos produtores de seu filme Zona de Interesse, que evoca com uma crueza apavorante a vida idílica de Rudolf Hoss, chefe do campo de concentração nazista de Auschwitz, junto a sua família.

Blavatnik, bilionário anglo-americano que cresceu na Rússia e fez sua fortuna após o colapso da União Soviética, é, segundo relatos, próximo ao premiê israelense, Benjamin Netanyahu, e um doador de longa data a causas sionistas. É ainda doador das universidades de Oxford e Harvard, de modo que jamais foi consultado por Glazer sobre seu discurso.

A qualquer um com mínima noção dos eventos em curso, as manchetes do Oscar contra a crise persistente podem ser chocantes. Como é que tamanho desfile no tapete vermelho, uma festa de glamour e estrelado, esteja acontecendo?

LEIA: Poeta feminista palestina morre aos 32 anos durante bombardeio em Gaza

Tudo isso contribuiu a um sentimento pervasivo de que a premiação parecia especialmente fora de tom em sua presente edição, dado o modo como ainda promove o imperialismo cultural dos Estados Unidos. O império americano, no entanto, desmorona a olhos nus — em vários vídeos, seus numerosos mercadores da guerra são refutados com veemência ao participar de festivais e palestras nas universidades. Os manifestantes desmontam esforços de propaganda e discursos de dois pesos e duas medidas promovidos por seus líderes. Entretanto, ali no Oscar, como nos últimos dias de Roma, a hegemonia americana reforçou as aparências.

Soft power dos EUA

Hollywood e o Oscar são intimamente ligadas ao imperialismo americano. Não são apenas uma faceta, mas um meio de promovê-lo seja ativa ou passivamente. Como forma de soft power, a indústria de entretenimento dos Estados Unidos ajuda a convencer o público ocidental de que todos somos, de alguma maneira, “americanos”.

Somos encorajados a acreditar que seu sonho é nosso sonho, suas guerras são nossas guerras, seu presidente governa a todos nós. Ano após ano, o Oscar promove alegremente essa mentira, que todos sabem ser nada mais que uma mentira, de que os melhores filmes do ano são todos, por acaso, estadunidenses — e que a mais alta honraria a um cineasta de “língua estrangeira”, como Bong Joon-ho e Justine Triet, seria vencer sua estatura, não importa que tenham a Palma de Ouro ou outros troféus muito mais distintos em termos de cinema.

A hegemonia do cinema americano é hoje aparentemente aceita por todos. Para muitos críticos e trabalhadores da indústria, cinema é essencialmente o cinema americano. Neste sentido, um punhado de críticos e realizadores americanos escolheu, no ano passado, um “novo cânon” de cinema negra que compreendia apenas um outro filme não-americano. Quando Richard Brody, crítico do New Yorker selecionou “as melhores performances do século até então”, em 2021, por enorme coincidência, 25 dos 30 citados eram de filmes americanos. A lista de “performances do ano” da revista Time costuma separar 70% e 90% de seus rankings a atores dos Estados Unidos.

Bong Joon-ho fez piada com essa tendência em 2021, diante de seus colegas no Globo de Ouro, ao declarar: “Uma vez que você supera a barreira de poucos centímetros das legendas, poderá conhecer muito mais filmes extraordinários”. É claro — e tenho certeza que Bong Joon-ho sabe disso — o problema não é necessariamente que crianças e adultos não sabem ler, mas sim que muitos não têm interesse em culturas distintas e que programadores, distribuidores e festivais são dependentes da tração financeira da indústria americana.

Além do soft power que representa, o Oscar serve ainda de cereja do bolo ao apresentar entre sua seleção obras que agem, às vezes com pouquíssima sutileza, como veículos de propaganda ao militarismo dos Estados Unidos. Como notou o jornalista e roteirista David Sirota em 2011, o exército americano sempre trabalhou com Hollywood, indo até mesmo ao primeiro vencedor do Oscar, Wings (Asas) de 1927, que ajudou a produzir.

Desde a escrita deste artigo, o envolvimento do Pentágono no setor de cinema apenas cresceu, com presença multibilionária nos filmes de super-herói da Marvel, que promovem, de maneira geral, uma imagem positiva e historicamente imprecisa do exército americano, em troca de seus recursos.

Cada ramo do exército tem seu próprio escritório de comunicação em Los Angeles. A Marinha, por exemplo, cooperou com a realização de Top Gun 2, em troca de deter o direito de “aprovar alguns pontos de discurso”, em uma admissão quase desnuda de propaganda militar.

LEIA: Estrela de Hollywood diz que conceito de Israel é ‘antiquado’ e se alimenta de mentiras

A cultura do cinema americano, logo, é profundamente afetada pelo imperialismo americano e isso sem sequer mencionar a questão mais ampla de como suas produções promovem tópicos e discursos de supremacismo branco. Os ataques a Gaza provam este ponto, ao refletir um retrato desumanizado de vítimas não-brancas, sob disparos de bombas fabricadas nos Estados Unidos, ao privá-las de rosto ou identidade.

Tudo isso fez do Oscar deste ano, em particular, uma imagem quase insuportável, ainda além da corriqueira empáfia das celebridades. Alguns atores vestiram um broche vermelho em apoio ao grupo Artists4Ceasefire; Swann Arlaud e Milo Machado-Graner, de Anatomia de uma queda, de Justine Triet, foram menos ambíguos, ao prender uma bandeira palestina em suas lapelas.

Milo Machado-Graner e Swann Arlaud, atores de Anatomia de uma queda, durante a 96ª cerimônia do Oscar, em Los Angeles, 10 de março de 2024 [Mike Coppola/Getty Images]

Mark Ruffalo e Ramy Youssef, de Pobres Criaturas, de Yorgos Lanthimos, expressaram seu apoio a Gaza no tapete vermelho. Fora isso, silêncio — salvo o corajoso enfrentamento de Glazer, sob um previsível coro predatório de anciões da indústria que insistem em associar sua identidade judaica com a supremacia sionista. Não admira que Glazer tremia.

Boicote a Hollywood

Como então podemos desinvestir do Oscar? A guerra em Gaza renovou a atenção ao movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), como forma de reagir às atrocidades conduzidas por Israel, Estados Unidos e outros Estados cúmplices. Mas como seria se abandonássemos o costume de consumir essa indústria multibilionária estadunidense?

Um boicote ao festival Eurovision já ganha tração após aprovar a performance de um artista de Israel que decidiu referenciar em sua obra os ataques do grupo Hamas em 7 de outubro. Ações similares contra o Oscar poderiam ser um excelente começo para responder ao supremacismo cultural dos Estados Unidos.

LEIA: União Europeia de Radiodifusão rejeita a segunda participação de Israel no Eurovision

Desinvestir do cinema norte-americano seria uma empreitada árdua, devido ao tanto que este está enraizado em nossa psiquê coletiva, além — é claro — de seu alcance financeiro. Como um jornalista freelance, sei muito bem que há dinheiro em discutir e produzir resenhas do cinema estadunidense e em entrevistas suas celebridades.

No Festival de Cinema de Cannes, no último ano, não pude escrever sobre alguns dos filmes de que mais gostei, como a obra vietnamita A árvore das mariposas douradas (Thien An Pham) e o georgiano Blackbird Blackbird Blackberry (Elene Naveriani) — à medida que seus cliques jamais pagariam meu aluguel.

Eu mesmo sou um cinéfilo e um zumbi desse mundo ocidental, profundamente envolvido pela cultura americana — tanto boa, como má. Compreendo bem a dificuldade de abandoner nossa relação com o cinema estadunidense.

A queda do império americano e do mito do Ocidente como única força democrática voltada ao bem universal deverá trazer consigo uma mudança tectônica nas indústrias da arte, ao permitir que histórias radicalmente distintas sejam contadas pelas mais diversas culturas, em vez dessa “diversidade” forjada do mundo dos blockbusters.

Até lá, aqueles de nós cujos olhos se abriram nos meses recentes, diante das maquinações mais perversas e desesperadas dos Estados Unidos e de seus aliados, podem começar a expandir sua jornada pessoal para além das fronteiras.

Publicado originalmente em inglês pela rede Middle East Eye em 18 de março de 2024.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

Categorias
ArtigoÁsia & AméricasEstados UnidosIsraelOpiniãoOriente MédioPalestina
Show Comments
Palestina: quatro mil anos de história
Show Comments