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Israel usa os curdos como subterfúgio, Turquia – ainda assim – normaliza relações

Primeiro-Ministro de Israel Yair Lapid encontra-se com Ministro de Relações Exteriores da Turquia Mevlut Cavusoglu durante coletiva de imprensa em Ancara, 23 de junho de 2022

Em meados de julho, veio a público relatos de que Israel pediu aos Estados Unidos que impedissem uma nova operação militar da Turquia no norte da Síria. Tamanha ingerência serviu de recordação de que o papel de Tel Aviv na guerra civil em curso no estado árabe não se restringe apenas a conduzir ataques esporádicos via drones militares contra alvos do regime e de aliados iranianos, para além das fronteiras. A medida demonstrou que Israel – como Irã, Rússia e Turquia – tem interesses próprios no país ao norte. Na tentativa de asseverar bases militares, Israel parece conferir apoio – ou mesmo proteger – grupos armados predominantemente curdos cujo objetivo é estabelecer um estado independente na região.

O lobby israelense sobre Washington para impedir a ofensiva turca, sob pretexto de conter a influência regional de seu principal rival, pode parecer estranha. Teerã não se opõe abertamente às milícias curdas na Síria ou mesmo apoia diretamente os planos militares de Ancara. Ao contrário, alguns grupos paramilitares iranianos mantêm presença nas áreas setentrionais da Síria, onde tropas do regime parecem avançar sob um novo acordo com o lado curdo para impedir as operações turcas.

Mesmo nos bastidores, no entanto, Israel projetou certo apoio a alguns grupos curdos ao longo dos anos. Em maior parte, o apoio se resume ao caráter simbólico, ao emprestar – esporadicamente – certa simpatia à criação de um estado curdo na região. Alguns rumores sugerem apoio material e militar e mesmo treinamento de tropas curdas por agentes de Israel.

Não obstante, o apoio político de Tel Aviv a um Curdistão independente é evidente. Em 2017, o então premiê israelense Benjamin Netanyahu expressou apoio a separatistas no Curdistão iraquiano, durante o controverso referendo então realizado.

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Generais israelenses já alegaram antes não considerar o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) como organização terrorista – muito embora seja assim designado por Estados Unidos, Turquia e União Europeia. A imprensa sionista também já sugeriu também que as forças da ocupação enviassem armas às organizações curdas. Um artigo publicado no jornal The Jerusalem Post – de autoria de uma conhecida jornalista local – afirmou: “Um Curdistão independente seria um segundo Israel no Oriente Médio”. Seu texto reivindicou que Tel Aviv “fornecesse aos curdos armamentos pesados, necessários para que lutem por sua independência”. Em seguida, indicou a criação de uma “aliança entre França, Curdistão, Golfo e Israel para interromper os avanços de Teerã”, incluindo o arrefecimento do apoio árabe à resistência palestina, de modo a “persuadir sauditas e outros líderes a conferir apoio aos curdos para impedir a agressão iraniana [sic] no Oriente Médio”.

Em 2019, o ativismo pró-curdo em Israel ganhou novo impulso quando a Turquia lançou sua terceira ofensiva militar no norte da Síria – denominada Operação Fonte de Paz –, com objetivo de esvaziar as áreas de fronteira de grupos paramilitares e supostas ameaças à segurança nacional. Na ocasião, Netanyahu condenou a campanha como “limpeza étnica” e abonou apoio armado aos grupos curdos. “Israel está pronto para estender assistência humanitária ao corajoso povo do Curdistão”, tuitou Netanyahu.

Tzipi Hotovely, então vice-chanceler de Israel, alegou publicamente que as Unidades de Proteção Popular (YPG) – braço armado do PKK – acolheram a oferta de Netanyahu. “O provável colapso da gestão curda no norte da Síria é um cenário negativo e perigoso no que concerne Israel”, escreveu Hotovely. “Está claro que este evento culminaria em uma onda de repercussões negativas na região, conforme as diretrizes de Teerã”.

Com tamanha simpatia israelense por um estado curdo independente no Oriente Médio – que exigiria concessões territoriais substanciais do Iraque, Irã, Síria e sobretudo Turquia – é surpreendente que há tão pouca atenção e preocupação sobre a questão por parte do governo de Recep Tayyip Erdogan. Ao contrário, o regime turco buscou agressivamente reconciliação com Tel Aviv. Habitualmente, o governo em Ancara mostra pragmatismo e disposição para fazer sacrifícios táticos de curto prazo em nome de ganhos futuros. Não obstante, deve perceber muito em breve que a aproximação com Israel pode incorrer em custos deveras substanciais caso o estado sionista mantenha seu apoio às aspirações curdas. O impacto maior será certamente imposto à Turquia e suas apreensões de segurança nacional.

Apesar de seu suposto apoio, contudo, Israel não deve ser confundido com um aliado incondicional do povo curdo. Assim como seu mecenas e – como muitos suspeitam – seu vassalo, os Estados Unidos, o regime em Tel Aviv tem interesses nacionais e regionais bastante próprios. Isso pode – a certo ponto, futuramente – incorrer em consequências imprevisíveis capazes de resultar no abandono de políticas mais urgentes favoráveis ao povo curdo.

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Os grupos militantes curdos continuam como trunfo na manga de Tel Aviv, usado habitualmente como vantagem contra a Turquia e outros estados da região. Afinal, em décadas de relacionamento com os curdos – muito embora sutil –, Tel Aviv sempre considerou tais agentes políticos como escudo e subterfúgio a ser empregado contra os estados árabes e outros eventuais adversários na região, incluindo Turquia e Irã.

Ancara – quem sabe – enxerga a ameaça, conforme relatos de certa preocupação em torno do apoio israelense ao PKK, com intuito de neutralizar a influência turca sobre o movimento palestino Hamas. Sem aludir à questão qualitativa do separatismo curdo – se é correta ou moral –, tudo depende de que lado se crê ser o mais legítimo e de quais vantagens a Turquia pode cautelosamente obter junto de Israel. De qualquer modo, a aproximação pode assombrar ainda o regime em Ancara e suas aspirarações geopolíticas.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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