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Palestinos são expulsos de ônibus em Tel Aviv após colonos segregarem não-judeus

Colonos israelenses em Jerusalém ocupada, 5 de maio de 2022 [Mostafa Alkharouf/Agência Anadolu]
Colonos israelenses em Jerusalém ocupada, 5 de maio de 2022 [Mostafa Alkharouf/Agência Anadolu]

Dezenas de palestinos foram expulsos de um ônibus em Tel Aviv, após três passageiros judeus embarcarem e rechaçarem a presença de não-judeus. O caso ocorreu na última quinta-feira, 4 de agosto de 2022, em um ônibus da linha pública 288, e expõe novamente práticas racistas e análogas ao apartheid, perpetradas pelo estado israelense e seus cidadãos.

O ônibus partiu da capital israelense para um assentamento exclusivamente judaico na Cisjordânia ocupada. Todos os assentamentos são ilegais sob a lei internacional.

Segundo testemunhas, cinquenta trabalhadores palestinos foram expulsos do veículo após uma parada no distrito de Bnei Brak, no território considerado Israel – ocupado durante a Nakba, em 1948, mediante limpeza étnica. Na ocasião, três colonos judeus embarcaram; contudo, exigiram que o motorista expulsasse os passageiros não-judeus antes de seguir viagem.

“Após alguns ônibus passarem sem parar, porque a linha 288 é exclusiva a judeus, um veículo que estava vazio parou para nós e podemos entrar”, afirmou um dos passageiros expulsos ao jornal Haaretz. “Então, três judeus embarcaram em Bnei Brak e exigiram que todos os árabes fossem expulsos”.

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O motorista parou o veículo sob uma ponte e telefonou a seus superiores. Após a chamada, confirmou a retirada dos passageiros palestinos. “O motorista disse apenas ‘vão embora, se virem’”, reportou a fonte.

A empresa responsável negou qualquer política discriminatória, ao repassar a culpa ao motorista do ônibus. “Aparentemente, um novo motorista caiu vítima da manipulação lamentável de um passageiro que imitou um funcionário do Ministério do Transporte”.

Sob a lei israelense, operadoras de transporte não podem segregar serviços. Porém, diversas leis adotadas pelo estado da ocupação sionista são denunciadas por organizações de direitos humanos como crimes de apartheid.

Parlamentares israelenses chegaram perto de deferir uma lei para segregar judeus e não-judeus no transporte público, mas voltaram atrás de última hora devido à iminente repercussão global, dado o histórico de ônibus segregados para negros e brancos nos Estados Unidos.

Em 2015, sob pressão de colonos extremistas, o Ministério da Defesa de Israel apresentou um projeto de lei para separar passageiros conforme raça. A proposta deflagrou indignação entre ativistas internacionais e trabalhadores palestinos.

“Quando algo parece apartheid e cheira como apartheid, certamente é apartheid”, observou Yariv Oppenheimer, membro da ong israelense Peace Now, um dos principais grupos locais a denunciar as políticas racistas de Tel Aviv.

Sob receios de relações públicas, o projeto de lei foi enfim obstruído pelo então premiê israelense Benjamin Netanyahu.

Analistas apontam que Israel raramente emprega práticas explícitas de apartheid, diretamente análogas ao regime supremacista na África do Sul e às leis de Jim Crow adotadas pelos Estados Unidos em meados do século XX. Dentre tais medidas, banheiros exclusivos a usuários brancos e lugares obrigatórios a cidadãos negros no fundo do ônibus.

Israel, no entanto, possui linhas viárias, estradas e políticas habitacionais exclusivas a colonos judeus, em detrimento dos palestinos nativos. Para além destas, a segregação racial costuma ocorrer a nível micro, embora cotidiana.

Não obstante, há uma persistente tendência para que Tel Aviv recorra a práticas de segregação a nível macro – incluindo discriminação nos transportes e restrições localizadas, como proibição de acesso a cidadãos árabes em praças municipais no território israelense.

De forma geral, a prática de apartheid é classificada em dois âmbitos: segregação institucional em instalações públicas e eventos sociais; e medidas que afetam oportunidades de emprego e habitação devido a raça ou etnia. Críticos apontam que Israel adota historicamente a segunda modalidade.

Nos anos recentes, grupos influentes como a Anistia Internacional, o Human Rights Watch e a ong israelense B’Tselem adotaram a nomenclatura de apartheid para se referir à ocupação de Israel na Palestina histórica. Ao mencionar estradas e assentamentos exclusivamente judaicos na Cisjordânia, especialistas apontam crime de apartheid – isto é, crime de lesa-humanidade.

Ativistas citam ainda a chamada Lei de Nacionalidade de Israel, que nega a não-judeus o direito a autodeterminação na região, além de dezenas de leis e práticas abusivas, como a injunção de um sistema legal com base em raça na Cisjordânia ocupada – cujo resultado é encarceramento dos nativos palestinos e impunidade a colonos ilegais.

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