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Sisi leva uma vida de luxo apesar das medidas de austeridade no Egito

Presidente do Egito Abdel Fattah el-Sisi em Budapeste, Hungria, 12 de outubro de 2021 [ATTILA KISBENEDEK/AFP via Getty Images]

Alguns dias atrás, o Presidente do Egito Abdel Fattah el-Sisi decretou subitamente a interrupção em um programa de vales alimentares, destinado aos recém-casados, ao descrever o subsídio como a razão por trás das décadas de estagnação no desenvolvimento nacional. Sua decisão foi precedida, quatro meses antes, por uma ordem para cortar os subsídios do pão; elevando, portanto, o preço do produto essencial para a população mais pobre do país.

O presidente pareceu — como de costume — bastante consternado com a dimensão do “fardo” carregado pelo estado e demandou da população carente — como de costume — que aguentasse as consequências da erradicação dos subsídios. Seu sacrifício foi comandado pelo presidente em nome do progresso nacional. Ainda assim, parece que os slogans de austeridade enunciados por Sisi dirigem-se apenas aos egípcios mais pobres. Para ele próprio, não significam nada, ao passo que continua a desfrutar dos recursos do contribuinte, ao adquirir novas aeronaves executivas e construir luxuosos palácios.

Cinco aviões presidenciais

Há alguns meses, Sisi comprou um gigantesco Boeing B747-8, um “jato jumbo”, estimado em US$418 milhões, com intuito de substituir sua então aeronave presidencial.

O novo transporte de Sisi permaneceu nos hangares da Boeing desde 2012, após a companhia alemã Lufthansa rejeitá-lo, dentre um acordo pelo qual receberia vinte aviões. As outras dezenove solicitações foram propriamente atendidas. Segundo o website especializado Flag Review, dois motivos levaram a Lufthansa a recusar o produto: primeiro, porque a Boeing utilizou a aeronave em testes de voos mais frequentes e intensos do que previamente acordado; segundo, foram descobertas alterações técnicas no equipamento.

No entanto, o Boeing B747-8 recebeu nova vida após ser incluído nos pedidos da empresa em fevereiro último. Em julho, os técnicos contratados começaram a operar os sistemas mecânicos. No mês seguinte, decolou do aeroporto da Boeing em Everett, no estado de Washington. Na pista, apareceu junto ao código SU-EGY, que indica filiação ao governo egípcio.

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Vista aérea das obras da Nova Capital Administrativa do Egito, megaprojeto do regime de Abdel Fattah el-Sisi, a cerca de 45 km a leste do Cairo [KHALED DESOUKI/AFP via Getty Images]

O valor da ostentosa aeronave de Sisi é pouco menos que o custo dos catorze jatos adquiridos ao longo dos trinta anos da ditadura de Hosni Mubarak. O custo somado de seus aviões equivalia a US$507 milhões, enquanto seu antecessor, Anwar Sadat, possuía apenas dois Boeings 707, que lhe foram doados por Zayed bin Sultan al Nahyan, governante dos Emirados Árabes Unidos. Sadat possuía também um helicóptero, que ganhou do Presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter. Por outro lado, Gamal Abdel Nasser preferia fretar um avião quando necessário e jamais comprou uma aeronave executiva durante seus longos anos de governo.

O avião B747-8 substituirá o Airbus A340-200 SU-GGG, que atende à presidência desde 1995. Trata-se da quinta aeronave adquirida por Sisi desde o golpe de estado que o levou ao poder. Em 2016, seu governo comprou quatro aviões de luxo Falcon-7X, produzidos pela corporação francesa Dassault, sob um acordo estimado em €300 milhões (US$354 milhões). Os jatos executivos Falcon possuem 23.2 metros de extensão, 2.34 metros de largura e 1.88 metros de altura, capazes de voar aproximadamente 11 mil quilômetros e transportar até oito passageiros, além da tripulação. São equipados ainda com diversos serviços e aparatos, como telefones por satélite, cafeteiras, microondas, assentos espaçosos e áreas para dormir.

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Os acordos foram firmados enquanto o Egito enfrentava uma grave crise econômica. Apenas três meses antes de fechar a compra, em novembro de 2016, o governo havia decidido liberalizar o câmbio de sua moeda, aumentar o preço dos derivados de petróleo e suspender subsídios sobre a eletricidade e outros bens essenciais à população.

Nessa conjuntura, em apenas sete anos no poder, Sisi comprou aeronaves equivalentes a US$774 milhões. Enquanto isso, reduziu os subsídios alimentares sob o pretexto de não haver dinheiro, ao reivindicar de seu povo que carregasse esse fardo. Ele próprio, não obstante, supostamente não poderia recorrer a aviões em bom estado utilizados por seus antecessores.

Três novos palácios presidenciais

Desde 2014, Sisi construiu ao menos três novos palácios presidenciais e mais dez casas de campo para uso executivo, somadas a trinta moradias históricas que o país já possuía.

O enorme complexo presidencial de Sisi, construído agora na chamada Nova Capital Administrativa, cobre 2.5 milhões de metros quadrados. A área equivale a cerca de 625 acres de terras agrárias. Quanto à residência do general, são estimados 50 mil metros quadrados, dez vezes o tamanho da Casa Branca. Sisi está construindo ainda outro palácio luxuoso no estilo estadunidense, na cidade de El Alamein, no litoral mediterrâneo, convertida em um balneário de verão para o seu governo, em detrimento da atmosfera árida do Cairo.

Sisi ergueu ainda um terceiro palácio no início de seu governo, no distrito militar de Hykestep. Trata-se de outro complexo ostentoso, com pista de pouso, jardins suntuosos e prédios administrativos. Ao seu redor, estão quatro luxuosas villas, com piscinas privativas supostamente dedicadas aos principais assessores militares do presidente. Sisi jamais negou a construção desses palácios. Em 14 de setembro de 2019, admitiu: “Sim, construímos os palácios e construiremos outros mais, mas não para mim. Trabalho para edificar um novo Egito”.

Como consequência, o Egito — este país maravilhoso mencionado por Sisi, quando criticado por gastar bilhões dos cofres públicos para sua família — tornou-se cada vez mais empobrecido, sem dinheiro suficiente sequer para fornecer assistência a seus próprios cidadãos.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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