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De Yarmouk para o ‘Título de Ouro’ em Cuba

Entrevista com Samah Ghassan Abu Khurj, refugiada palestina que saiu da Síria para conquistar o diploma de Medicina em Havana
Samah Abu Khury [Arquivo pessoal]

Cuba foi um dos únicos países latino-americanos que votaram contra a decisão de dividir a Palestina em 1947. Mais tarde, a ilha foi afetada pela pressão americana e entrou no rebanho de defender a ocupação israelense no estabelecimento de seu suposto estado, mas isso não durou muito. Depois que Fidel Castro assumiu o governo em 1959, a posição de defesa à Palestina voltou. De fato, se tornou um forte apoio ao povo palestino e sua liderança.

Em 1970, a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) foi convidada pela primeira vez a participar das festas da revolução cubana. Continuaram as manifestações de apoio cubano à Palestina, que se tornaram claras e evidentes após o estabelecimento do escritório permanente da OLP em Havana em 1974, e desde então, o governo cubano tem assegurado bolsas de estudos para estudantes palestinos em cursos de engenharia e medicina.

Nesta entrevista, conhecemos Samah Ghassan Abu Khurj, formada com mérito em Medicina na Universidade de Havana para Ciências Médicas. Samah saiu do campo de refugiados de Yarmouk na Síria e, mesmo com a barreira da linguagem, conquistou o Título de Ouro na graduação de medicina em Cuba, honraria concedida apenas aos alunos que tiveram excelência durante todo o curso.

Quem é Samah Ghassan Abu Khurj?

Sou Samah Ghassan Abu Khurj, palestina-síria, nascida em 1996. Meu avô migrou de Saffuriyya, distrito de Nazareth para a Síria e morou no campo de Yarmouk. Meu pai se casou com minha mãe, que é do campo de Ain al-Hilweh, no Líbano.

Recentemente me formei na Universidade de Ciências Médicas de Havana e obtive o título em Medicina Humana. Hoje sou médica, mas antes sou uma lutadora, porque superei muito sofrimento depois que minha família migrou, primeiro da Palestina para a Síria, e depois da Síria para Cuba.

Como foi a separação da sua família nesse novo refúgio, com parte de sua família se refugiando na América do Sul, parte na Europa e parte no Líbano? 

Quando os conflitos começaram no campo de Yarmouk em 2012, deixamos o campo, a partida foi igual a quando minha família saiu da Palestina, nos disseram que voltaríamos em dois dias, mas a situação piorou muito.

Fomos para o Líbano,  não tínhamos mais esperança de voltarmos para a Síria. Começamos a buscar soluções para a nossa família, já que também não havia futuro no Líbano. Meu pai decidiu ir para a Suécia, mas com uma família de sete pessoas, não conseguimos cobrir as despesas da viagem. Nesse ínterim, consegui uma bolsa de estudos de Cuba na Faculdade de Medicina da Universidade de Havana, então fui estudar.

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Mesmo em meio a tantos conflitos, você conseguiu ter sucesso nos exames finais do ensino médio?

Saí do acampamento e não levei meus livros comigo, porque nos disseram que voltaríamos em dois dias,  deixei na minha casa, que foi destruída posteriormente. No dia 18 de dezembro de 2012 saímos do acampamento para o Líbano, e no dia 19 de abril seguinte eu precisaria fazer o exame para o diploma de conclusão do Ensino Médio na Síria. Então, decidi estudar por conta nesse tempo, na tentativa de preencher a lacuna e não perder tempo. Contatei um dos meus professores, e ele felizmente me enviou livros da Síria para o Líbano. Eu me planejei e programei para estudar remotamente dia e noite; as condições eram muito difíceis, morávamos em uma casa com mais outras três grandes famílias.  Às vezes tínhamos eletricidade, mas na maioria do tempo esse não era o caso, então usava as luzes da rua e velas à noite, e às vezes a lanterna do celular, quando disponível.

Uma semana antes dos exames, fui para a Síria, na casa de um parente. Este foi um dos momentos mais difíceis para a Síria.

A minha surpresa foi, que apesar das circunstâncias, fui muito bem nesse exame, o que coincidiu com a minha ambição de ser médica. Foi realmente um milagre que eu não poderia ter imaginado

Como foi logo que você chegou em Havana, no início da faculdade de medicina?

O começo foi muito difícil. Há uma diferença cultural muito grande em Cuba. Os costumes e a cultura diferem muito da nossa sociedade árabe. Além disso, o país sofre um bloqueio econômico e político há décadas, o que torna ainda mais difícil viver.

E eu não tinha conhecimento nenhum na língua de Cuba, o espanhol. E o currículo do curso de medicina é complexo, era uma grande dificuldade traduzir sempre para o árabe e depois para o espanhol e vice-versa. E o primeiro ano do curso, o preparatório, é um dos anos mais difíceis em medicina.

Como você superou o obstáculo da linguagem?

O sofrimento não era só a língua espanhola, mas principalmente o dialeto cubano da língua espanhola. O idioma que circulava nas ruas era bem diferente do que aprendíamos no centro de línguas da universidade.

Teve uma vez, no meu primeiro ano, que eu tentei perguntar sobre um termo médico, mas traduzi errado do árabe para o espanhol. Eu, no lugar de usar o termo, acabei pedindo erroneamente por silêncio. Então, a professora ficou em silêncio e disse aos alunos que havia muito barulho, para eles escutarem. Eu repetia e repetia o que tentava dizer, e todos apenas ficavam em silêncio. Até que eu entendi que algo estava errado, que eu tinha errado na tradução, então pedi desculpas a todos.

Você obteve o Título de Ouro em Medicina. O que significa? 

Em todos os anos, desde o preparatório, eu fui uma das cinco melhores notas do curso de medicina e de língua espanhola. O Título de Ouro (Certificado de Ouro) é uma medalha governamental de alto escalão concedida a estudantes de medicina que se destacaram nos estudos e obtiveram altas notas, com um total de aproveitamento de 95% ou mais. Para obtê-lo, o aluno precisa ter publicações em revistas médicas científicas e auxiliar em alguma disciplina. Eu era auxiliar de cirurgia geral, então participei de operações com professores desde o segundo ano.

Também participei da Associação de Estudantes da Escuela latinoamericana de medicina “ELAM”. Tudo isso me ajudou a obter o Título de Ouro em medicina, mas a base para obtê-lo continua sendo a média geral. Desde o primeiro ano, eu foquei no título de ouro como objetivo, porque passei por circunstâncias muito difíceis, por isso queria superar as dificuldades da vida e da imigração por meio dos meus estudos.

A diferença de cultura, idioma e costumes afetou a sua personalidade? Foi isso que fez você se destacar?

Certamente que sim, especialmente depois que deixei a Síria, aos 17 anos; e eu também mudei muito depois da minha experiência em Cuba. Agora, desejo completar a especialização em cirurgia geral na Europa.

Minha família sofre com os deslocamentos forçados e o refúgio desde 1948. Infelizmente, eu sou a terceira geração forçada a vivenciar o refúgio, o mesmo vivido pelos meus avós e pais. Isso me impulsionou a ser uma mulher forte diante dos desafios, talvez tenham sido essas duras condições que me ajudaram a superar e fortalecer. Mesmo com todas as mudanças geográficas, meus princípios sempre permaneceram os mesmos.

A quem você dedica a sua conquista?

Ao Senhor dos mundos, em primeiro e último lugar, e depois à minha família, minha mãe e meu pai, e à Palestina e Síria, na esperança de que veremos condições melhores, e a Cuba, que agora é meu terceiro país.

Dedico minha conquista a quem se vê em condições de desespero, frustração e busca forças ao seu redor. Digo a eles que há esperança, que tenham persistência e tentem alcançar o que querem. O importante é não parar de perseguir seus sonhos.

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