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Rogério Ferrari, um amigo da Palestina, presente!

Suas fotos traziam o olhar antropológico, numa combinação com sua formação acadêmica, mas iam além. Traziam a assinatura, a identidade de alguém que se recusava a banalizar seu olhar

A triste notícia de sua morte no dia de ontem, 19 de julho, chegou arrasando corações solidários e resistentes. Deixou-nos cedo demais, aos 56 anos, repentinamente demais.Rogério Ferrari era um amigo da Palestina, simples e generoso, mas também dos indígenas, dos ciganos e de tantos outros povos oprimidos que suas lentes registraram em viagens pelo mundo.

Suas fotos traziam o olhar antropológico, numa combinação com sua formação acadêmica, mas iam além. Traziam a assinatura, a identidade de alguém que se recusava a banalizar seu olhar – como afirmou em uma entrevista publicada no site Avoador:

“A banalização do olhar, a indiferença que significa ver e não olhar, ou seja, o olho é o músculo que a gente mais utiliza. Mas ele está atrofiado na medida em que a gente se depara com a realidade, se relaciona com as pessoas e com as coisas e perde de vista a atenção do próprio olhar, inclusive, de estar falando e se olhando, de estar passando pelas coisas, se relacionando com as coisas, vendo, mas não olhando. Essa suposta dicotomia é para sugerir uma dimensão da falta de atenção. Quer dizer, ver a gente vê, mas o fato de olhar é para dizer que a atenção se põe ali. No caso da fotografia, é no sentido de pensar a fotografia, é como uma junção dessas coisas: eu vejo, eu olho, eu fotografo, eu reitero, eu comunico. Eu vou de encontro ao que é essa coisa estranha de que é ver e não olhar, como expressão da desatenção e de um condicionamento que turva o olhar.”

Aqueles que fotografava não eram simples objetos de estudo. Seu trabalho era a expressão de sua solidariedade e generosidade, como se vê em “Palestina, a eloquência do sangue”, livro publicado em setembro de 2004. Os registros foram feitos entre janeiro e março de 2002, durante a Segunda Intifada (2000-2005), em campos de refugiados na Cisjordânia e na faixa de Gaza. São acompanhados de breves depoimentos de palestinos e poemas. Não precisaria mais: as imagens são intensas, vivas, eternizando a resistência heroica palestina, que não se dobra. “Minha câmera era minha pedra”, dizia Ferrari, integrando-se ao processo.

Ele contava que quando estava de saída, na fronteira ocupada, militares sionistas lhe intimidaram, levaram a uma salinha de interrogatório e, ameaçadores, lhe apontaram um fuzil. O motivo: carregava em sua bagagem bandeira de um partido palestino que ganhou e levava de lembrança. Recusara-se a deixar para trás o presente, embora não tivesse nada a ver com tal partido.

O impacto da resistência à brutal ocupação lhe conferia a certeza: “Tão grande quanto a história da Palestina será a vitória palestina”, escreveu em dedicatória a sua obra no ano de 2005.

De lá para cá, engajou-se na solidariedade internacional efetiva de forma definitiva. Ajudou a fundar o Comitê de Solidariedade ao Povo Palestino da Bahia, contatou palestinos em Salvador para fortalecer a ação e atuou intensamente na campanha de boicote cultural que pedia em 2019 a Milton Nascimento não se apresentar em Israel. Não deu, o que foi uma enorme decepção não só para ele. A luta continuava, sabia o companheiro. Seguiu cedendo generosamente suas fotos para exposições e participando de debates e conversas. Era uma figura agradável, um amigo dos palestinos e de outros povos oprimidos.

Dedicara-se ainda a aproximar as lutas. Assim registrou em imagens a periferia de Salvador, combinando com a Palestina sob ocupação, fruto de sua exposição “Nosoutros”, que reuniu 23 fotografias em preto e branco e pôde ser vista em São Paulo no ano de 2015.

O último encontro com os amigos palestinos e brasileiros solidários nessa cidade se deu em 2019, quando participou de um debate no espaço cultural Al Janiah sobre Palestina, aproveitando a viagem para lançar sua exposição e livro “Parentes – Povos Indígenas na Bahia”. Foi nosso abraço derradeiro, embora nem de longe passasse pela nossa cabeça que seria.

Um encontro alegre, amigo, fraternal. Na dedicatória do livro guardado na estante, as palavras que mais uma vez aproximam: “Querida companheira e amiga, o parentesco dos caminhos, das lutas e dos abraços.”

Obrigada, Rogério Ferrari, por esse parentesco. Você, que recusava a arte pela arte, segue vivo, em cada imagem que eterniza seus olhares. Rogério Ferrari, presente! Até a Palestina livre, do rio ao mar! Até o socialismo!

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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