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Khalida Jarrar e o drama das mães palestinas

Khalida Jarrar, ex-parlamentar do Conselho Legislativo Palestino e membro da Frente Popular para a Libertação da Palestina, conversa com a imprensa em meio a apoiadores, ao ser libertada da prisão, após vinte meses, em sua casa em Nablus, Cisjordânia ocupada, 28 de fevereiro de 2019 [Issam Rimawi/Agência Anadolu]
Khalida Jarrar, ex-parlamentar do Conselho Legislativo Palestino e membro da Frente Popular para a Libertação da Palestina, conversa com a imprensa em meio a apoiadores, ao ser libertada da prisão, após vinte meses, em sua casa em Nablus, Cisjordânia ocupada, 28 de fevereiro de 2019 [Issam Rimawi/Agência Anadolu]

Uma mãe deve ter o direito básico de se despedir de sua filha. Mas, em meio à desumana ocupação sionista, até isso lhe é negado. É o que acontece neste momento com a presa política palestina Khalida Jarrar – uma das 40 mulheres nos cárceres israelenses atualmente, pelo simples fato de resistirem à colonização de suas terras.

Khalida Jarrah teve apelação negada para comparecer ao funeral de sua filha Suha, 30 anos, que faleceu no último domingo, dia 11 de julho. Faltam apenas dois meses para o término da “sentença” dessa mãe palestina, determinada em dois anos pelo ilegítimo julgamento da Corte militar, o que explicita ainda mais a crueldade.

A ocupação rouba até o direito ao luto, em meio a uma dor inimaginável. Esta é refletida em carta escrita por Khalida Jarrah em sua cela em Damon, na Palestina Ocupada, publicada nas redes sociais por sua outra filha, Yafa, e reproduzida pela Samidoun – Rede de Solidariedade aos Prisioneiros Palestinos nesta terça-feira, dia 13:

“Sinto muita dor, minha filha, só porque sinto sua falta. Sinto muita dor, minha filha, só porque sinto sua falta. Do fundo da minha agonia, estendi a mão e abracei o céu de nossa terra natal através da janela da minha cela na prisão de Damon, Haifa. Não se preocupe, minha filha. Eu me mantenho firme, apesar das algemas e do carcereiro. Eu sou uma mãe em sofrimento, por desejar vê-la pela última vez. Isso não acontece, exceto na Palestina. Tudo o que eu queria era dar um último adeus à minha filha, com um beijo em sua testa e dizer-lhe que a amo tanto quanto amo a Palestina. Minha filha, perdoe-me por não ter comparecido à festa de sua vida, por não ter estado ao seu lado neste momento doloroso e final. Meu coração atingiu as alturas do céu saudoso para te ver, acariciar e dar um beijo em sua testa através da pequena janela da minha cela de prisão. Suha, minha joia. Eles me privaram de lhe dar um último beijo de adeus, então eu me despeço de você com uma flor. Sua ausência é terrivelmente dolorosa, terrivelmente dolorosa. Mas eu permaneço firme e forte, como as montanhas da amada Palestina.”

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Uma campanha promovida pela Samidoun pede à solidariedade internacional que denuncie e exija sua libertação imediata e incondicional. A Al-Haq enviou dezenas de cartas a governos e ao Comitê Internacional da Cruz Vermelha pedindo que intervenham nessa direção.

Desde a gestação

O drama de Khalida não é único. Numa situação em que todos os direitos humanos fundamentais são violados, mães palestinas dependem de permissão da ocupação para se despedir de seus filhos, abraçá-los, reunir a família, fazer o pré-natal, dar à luz numa maternidade. O medo quanto ao futuro de suas crianças é potencializado. A ocupação, como escreveu o poeta Mourid Barghouti em “Eu vi Ramallah”, roubou-lhes até o amanhã.

Para as mães palestinas, ter um filho é resistência à contínua Nakba – catástrofe com a criação do Estado de Israel mediante limpeza étnica planejada em 15 de maio de 1948.

Uma das práticas desumanas por parte da ocupação sionista é barrar a passagem de mulheres grávidas em check points, obrigando-as a terem seus filhos nesses postos de controle. A Organização das Nações Unidas (ONU) reportou que 61 mulheres deram à luz nessa situação entre setembro de 2000 e dezembro de 2004 – e 36 de seus bebês morreram como consequência. Em 2007, foram 69 gestantes, o que revela que a restrição se mantém e é cotidiana. Algumas chegam a ser espancadas pelas forças de ocupação e há relatos de pais que tiveram que usar uma pedra para cortar o cordão umbilical do recém-nascido, na tentativa de salvar sua vida.

Esta é a realidade também das mulheres palestinas em Gaza, agravada pelo cerco desumano imposto por Israel há 14 anos. Metade delas não consegue sequer fazer o pré-natal em função disso.

Na contínua Nakba, os sionistas ecoam as palavras de sua dirigente Golda Meir, uma das arquitetas da limpeza étnica de 1948 e primeira-ministra de Israel entre 1969 e 1974. Um refugiado lembra frase que ela pronunciou e expressa a atrocidade do projeto colonial: “Quando vejo uma mulher árabe grávida, tenho dor de cabeça.” Elas são assassinadas, impedidas de ter seus filhos e vê-los crescer como parte da limpeza étnica.

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Uma camiseta usada por militares sionistas durante o massacre de 2008-2009 em Gaza refletiu essa intenção: à imagem de uma mulher grávida muçulmana como alvo, as palavras “um tiro, dois mortos”. As gestantes palestinas eram alvejadas por franco-atiradores – o que continua a ocorrer sob ocupação.

Camisetas de soldados israelens mostram grávida, mãe e criança como alvos [If America knew]

Camisetas de soldados israelens mostram grávida, mãe e criança como alvos [If America knew]

As mães palestinas expressam, contudo, a resiliência e resistência heroica e histórica de seu povo. Não são diferentes de outras mães mundo afora – como a visão orientalista gosta de pintar. Querem viver com dignidade e o melhor para seus filhos, choram sua perda, sua prisão, seu sofrimento. Não obstante, diante da elevação da consciência ante o apartheid, racismo institucionalizado, colonização, limpeza étnica, entendem que para proteger seus filhos não há outro caminho senão o coletivo. O de fortalecer a resistência rumo à libertação nacional, do rio ao mar.

A carta de Khalida Jarrar em meio a dor lancinante resume essa percepção e sentimento: “permaneço firme e forte, como as montanhas da amada Palestina”. Que a solidariedade internacional seja o sol a abraçar esse cume.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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