Portuguese / Spanish / English

Middle East Near You

Ibn Arabi: A genialidade do maior místico do Islã

Festival das luzes Mela Chiraghan, feriado de três dias em homenagem ao nascimento do santo sufi Hazrat Shah Hussain, em Laore, Paquistão, dia 28 de março de 2010 [Saad Sarfraz/Flickr]
Festival das luzes Mela Chiraghan, feriado de três dias em homenagem ao nascimento do santo sufi Hazrat Shah Hussain, em Laore, Paquistão, dia 28 de março de 2010 [Saad Sarfraz/Flickr]

Ao longo dos séculos, o Islã teve uma riqueza enorme nas suas escolas de jurisprudência, filosóficas, místicas, literárias e de pensamento em geral. O misticismo islâmico recebe o nome peculiar de “sufismo”. Várias hipóteses já foram aventadas para explicar a origem da palavra “sufismo”. Desde a palavra grega “sofia”, que significa sabedoria, até a palavra árabe “suf”, que significa “lã”, e a raiz “safaa”, palavra árabe que significa pureza. Todas estas palavras já foram consideradas como possíveis origens para a palavra “sufismo”, mas a hipótese mais aceita e considerada mais provável é a de que o termo “sufismo” deriva da palavra árabe “suf”, lã, devido às vestimentas simples de lã usadas pelos místicos, um reflexo do modo de vida simples, frugal e sóbrio adotado por estes religiosos.

O sufismo trouxe uma interpretação mais espiritualizada e menos literal dos textos sagrados islâmicos, a saber o “Nobre Alcorão” e a “Sunna”, nome árabe da tradição profética. Houve, e ainda há, polêmicas envolvendo o sufismo entre os teólogos islâmicos. As escolas teológicas mais literais, como os “salafis” e “wahabis” chegam a considerar os sufis como infiéis e apóstatas. A influência do sufismo ultrapassa os limites do mundo islâmico, e tem um alcance global holístico. O misticismo islâmico tem influenciado outras tantas tradições religiosas não-islâmicas e outras culturas. A sua influência faz-se sentir, há séculos, no mundo todo, não somente na teologia, mas, sobretudo, na literatura, poesia e filosofia. Entre os nomes de maior expressão do sufismo islâmico, destacamos Ibn Arabi, que recebeu a alcunha de “Al-sheikh al-akbar”, ou “o maior dos sábios”, alcunha esta que revela a tão eminente e distinta posição ocupada por este grande vulto do pensamento islâmico e universal.

LEIA: Um pouco da literatura árabe nas Américas

Da Ibéria a Damasco

Ibn Arabi nasceu na cidade de Murcia, no litoral oriental da atual Espanha, no ano de 1164 da era cristã. Filho de um importante teólogo islâmico de sua cidade natal na Península Ibérica, o “maior dos sábios” descende da tribo árabe de Tai, que tem Hatem Al-Taii como um dos seus personagens mais famosos na Arábia pré-islâmica. Hatem ficou eternizado pelas suas nobres virtudes e cavalheirismo, com destaque para a sua marcante generosidade. Já na infância e adolescência Muhiedine (uma das muitas alcunhas de Ibn Arabi, que quer dizer o “aquele que deu vida à religião”) dava sinais de sua genuína genialidade, que o tornou talvez o maior místico de toda a História do Islã e, não seria talvez exagero dizer, de toda a história universal. Ibn Arabi significa, literalmente, “o filho de Arabi”. Arabi é o nome do bisavô de Muhiedine. O primeiro nome de Muhiedine é o mesmo nome do profeta do Islã, Mohamad, que as bênçãos e a paz de Deus estejam sobre ele. O pai de Ibn Arabi chama-se Ali. Mas o nome pelo qual ficou eternizado o grande místico é o nome de seu bisavô paterno.

O mar repleto, o mar das verdades, o imam dos eruditos, o sultão dos sábios, o enxofre vermelho, todos são epítetos pelos quais é conhecido Ibn Arabi na tradição clássica árabe e islâmica. O mar, na língua árabe, é usado para denotar grande erudição e vastos conhecimentos. Pelos seus epítetos, podemos inferir que o grande místico era detentor de uma vastíssima erudição. Além de sumidade como mestre sufi, Ibn Arabi era eximio filósofo, pensador e poeta. A sua obra espanta pela sua imensidão, fazendo jus ao epíteto de “mar repleto”. São cerca de oitocentos títulos que muito enriqueceram as culturas islâmica, árabe e universal. No entanto, o que sobrou de tão extensa obra foram apenas cem títulos. Para o leitor contemporâneo ter ideia do que foi a obra de Ibn Arabi, basta dizer que uma de suas obras “Os triunfos mecanos” (mecano é adjetivo de Meca), ou, em árabe “Al-Futuhat Al-Makiya”, tem cerca de dez mil páginas, reunidos em nove volumes! Se uma de suas oitocentas obras tem essa extensão enciclopédica, podemos imaginar o que é Ibn Arabi para o pensamento islâmico e universal.

Assim como todos os místicos de todas as culturas, civilizações e religiões, a vida e obra de Ibn Arabi confundem-se. É impossível falar da obra de Ibn Arabi sem levar em consideração a sua vida marcada pela busca incessante e incansável pela verdade e pelos deslocamentos entre os principais centros culturais e religiosos do mundo islâmico. Nascido no dia 26 de julho de 1164, em Murcia, na Espanha, Ibn Arabi passou os últimos dezessete anos de sua vida em Damasco, capital milenar da Síria, onde morreu no dia 16 de novembro de 1240. Entre Espanha e Síria, Ibn Arabi teve passagens por Marrocos, Arábia (principalmente no santuário sagrado da grande mesquita, onde fica a Caaba), Alepo, Mussol (no atual Iraque), Bagdá e Kunya (no sul da Turquia). Todos estes deslocamentos foram motivados pelo chamamento espiritual marcado pela busca autêntica e incessante pela verdade. É digno de admiração o fato de Ibn Arabi ter conseguido escrever uma obra tão extensa, profunda e robusta no meio de sua intensa vida marcada por viagens e deslocamentos constantes. Escreveu em 76 anos de vida, na língua árabe, em prosa e poesia, uma obra que ficou eternizada, permanecendo com sua influência até os dias de hoje.

Ibn Arabi viveu numa época do mundo islâmico caracterizada pelos conflitos políticos, militares, religiosos e filosóficos. Ele foi contemporâneo de dois grandes vultos do pensamento islâmico universal: Averróis ( conhecido em árabe como Ibn Rushd), o grande filósofo árabe da península ibérica, e Jalaludine Al-Rumi, grande poeta e mestre do sufismo. O mundo islâmico, naquela época (nos séculos XII e XIII), estava sob várias ameaças. Tinha as Cruzadas, com os reinos cruzados estabelecidos no Oriente Próximo. A Península Ibérica sofria com as guerras de reconquista. Do Extremo Oriente, vinha a ameaça dos mongóis. Estes acontecimentos foram os propulsores na produção de escolas de pensamento tão divergentes e oponentes quanto o salafismo e o sufismo.

LEIA: Reflexões sobre ser muçulmano no Ocidente

Um pensamento holístico

O pensamento de Ibn Arabi destaca-se, verticalmente, pela profundidade dos temas filosóficos e teológicos abordados. Horizontalmente, podemos destacar o holismo deste pensamento que lhe permitiu um alcance ultra-espacial e ultra-temporal. A influência de Ibn Arabi não se restringiu somente ao misticismo islâmico, mas conseguiu influenciar todas as demais correntes e escolas de pensamento vigentes no mundo islâmico, mesmo que seja somente para opor-se às propostas do “maior dos sábios”.

Um ponto alto e extremamente marcante de toda a obra de Ibn Arabi é a sua estadia em Meca, onde ficou por alguns anos. Foi na cidade sagrada de Meca que o “mar repleto” teve contato com uma bela jovem persa, de admirável erudição, chamada Nizam. Esta moça é a filha de um importante sábio persa que estava naquela época em Meca também. A irmã deste teólogo também era detentora de vasta erudição. Ibn Arabi teve profunda afeição e admiração por esta família persa de eruditos. Do seu amor místico por “Nizam”, nasceu “O intérprete das saudades” (Turjuman Al-Ashwaq) a sua obra poética mais difundida e conhecida, e que ficou eternizada para os dias de hoje. Esta obra, assim como toda a obra de Muhiedine, é caracterizada pelo simbolismo místico e pela linguagem sufi, que requer uma exegese toda especial. O próprio Ibn Arabi encarregou-se da tarefa de fazer esta exegese da belíssima obra de poesia. Nesta obra, Ibn Arabi declara seguir a religião do amor e demonstra, em verso, profundo respeito pelos outros credos, sejam eles monoteístas ou politeístas, e cita a Bíblia Sagrada no mesmo patamar do Nobre Alcorão.

Estudar a obra de Ibn Arabi requer dedicação quase que exclusiva, devido à sua vastidão e profundidade. É uma tarefa para aqueles estudiosos que dispõem de tempo e interesse em navegar nas águas profundas e vastas do pensamento akbariano (o adjetivo akbariano vem do termo “al-sheikh al-akbar, e virou epíteto de Ibn Arabi nas obras islâmicas e árabes clássicas). Ao estudar esta obra, nos dias de hoje, é preciso muito cuidado, pois ainda provoca acalorados debates, levando as correntes do salafismo a considerar Ibn Arabi como um infiel extraviado, que merece ser rejeitado e execrado. Isso causa perplexidade, uma vez que Ibn Arabi deixou claro inúmeras vezes que toda a sua obra foi inspirada pelo Nobre Alcorão.

Julgamos que citar algumas características da vida de Ibn Arabi pode revelar-nos um pouco mais do seu pensamento. O “sultão dos sábios místicos”, assim como todos os grandes sufis da história do Islam, adotava um estilo de vida caracterizado pelo desprezo ao dinheiro e aos bens materiais, associado a um profundo amor e compaixão em relação aos mais pobres, necessitados e fracos. Conta-se que, certa vez, durante a estadia de Ibn Arabi no sul da Turquia, o governante local doou ao maior místico do Islã um palácio. Muhiedine transitava em uma carroça movida por cavalo quando foi parado por um pedinte. De fato, Ibn Arabi estava sem dinheiro nenhum em mãos, naquele momento, para oferecer ao pedinte. A única coisa de valor que ele carregava no momento era a escritura do palácio doado pelo governante. Para não deixar o pedinte desapontado, Ibn Arabi não hesitou em transferir a escritura do palácio de seu nome para o nome do pedinte desconhecido!

LEIA: A Ibéria árabe

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

Categorias
ÁfricaArtigoEspanhaEuropa & RússiaIraqueMarrocosOpiniãoOriente MédioSíriaTurquia
Show Comments
Show Comments