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Os retrocessos no mundo afetam o povo palestino

Entrevista com a dirigente do PT e fundadora da Frente Gaúcha de Solidariedade ao Povo Palestino, Misiara Oliveira
Misiara Oliveira é feminista, ativista de Direitos Humanos e petista desde a adolescência
Misiara Oliveira é feminista, ativista de Direitos Humanos e petista desde a adolescência.

Misiara Oliveira é feminista, ativista de Direitos Humanos e petista desde a adolescência. Foi vereadora por dois mandatos pelo PT em Santa Maria, no RS e Secretária de Município de Direitos Humanos. Também integrou a equipe do Ministério da Educação durante as gestões dos Ministros Fernando Haddad e Aloizio Mercadante junto à Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização Diversidade e Inclusão, e o governo de Tarso Genro no RS e no período de 2016 a 2018, integrando a Operativa da Frente Brasil Popular do RS.

Atualmente na Executiva Nacional do PT, Misiara ocupou vários espaços de direção municipal e estadual no partido, tendo sido Secretária Estadual de Formação Política e Secretária Estadual de Mulheres do PT no período de 2017 a 2019..

Nesta entrevista ao Monitor do Oriente Médio, Misiara fala de sua ligação com a causa palestina e das estratégias de enfrentamento do PT aos movimentos de criminalização do partido, da política e da democracia. Entre as preocupações atuais com a causa Palestina, estão as pressões dos EUA sobre seus aliados, entre eles o Brasil de Jair Bolsonaro.

Hoje no Brasil existe uma disputa muito grande de narrativas que criminalizam a política, e, em especialmente o Partido dos Trabalhadores. Como o PT enfrenta essas narrativas?

Estamos vivendo um momento de retrocessos onde o pensamento conservador na sociedade brasileira tem se fortalecido, principalmente no processo do Golpe de 2016 e no pós golpe. Nosso partido se construiu a partir das lutas do povo brasileiro, e é nesta relação com os diferentes movimentos sociais e populares, no diálogo com o campo de esquerda e com nossos aliados nas lutas que temos construído um enfrentamento não só da criminalização da política e do PT, mas a todo processo de ataques à democracia brasileira e aos direitos do povo brasileiro.

Internamente temos investido na formação política da nossa militância e ampliado a presença do nosso partido de forma organizada nos territórios e nos diferentes segmentos sociais. Temos construído uma mudança importante na área da comunicação, ampliando a utilização de diferentes ferramentas, visando ampliar nossa presença e o diálogo com parcelas mais amplas da sociedade. Nossas ações nesta área têm considerando os avanços tecnológicos e os desafios representados pelas redes sociais, em especial, a necessidade de enfrentamento das fake news, fenômeno que se incorporou como um instrumento da disputa política no Brasil.

Nesse contexto, consideramos muito importantes as iniciativas que culminaram na formação das Frentes Brasil Popular e Povo sem Medo, que ancoraram a resistência aos retrocessos vividos no último período no nosso país. Além das Frentes, outras organizações comprometidas com o campo progressista, criadas no contexto do Golpe de 2016, como as associações e coletivos de juristas, de trabalhadores da cultura, da educação, bem como os Comitês Lula Livre ao lado da chamada mídia alternativa ou mídia de esquerda tem desempenhado papéis importantes na denúncia e na desconstituição destas narrativas.

Especialmente com o uso das redes sociais, é comum a criminalização da causa palestina, uma luta que o PT defende. Você acredita que o partido deixa claro sua solidariedade com a causa palestina. Como?

O PT desde a sua fundação tem assumido a solidariedade e o apoio à luta pela autodeterminação do povo palestino, sempre defendendo seu direito a um Estado Nacional.

A maior expressão deste apoio se deu no período em que o PT esteve à frente do governo do Brasil, nas gestões de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Roussef, por meio da política desenvolvida no âmbito das relações internacionais, reconhecendo as Resoluções da ONU sobre o tema, com destaque ao reconhecimento do Estado Palestino e da Autoridade Nacional Palestina em 2010.

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Quais as principais preocupações do PT em relação à causa palestina hoje?

A onda conservadora e de retrocessos no mundo também afetou muito o povo palestino. A gestão de Donald Trump sem dúvida é um marco na desconstrução dos processos de diálogo para a paz, acelerando e fortalecendo o processo de ocupação.

Assistimos no último período a Ocupação avançar, com o recuo de Israel dos acordos internacionais que favoreciam a criação dos dois Estados. Pela primeira vez, pelo menos oficialmente desde 1993, os EUA passaram a apoiar formalmente o recuo de Israel, se retirando de outros acordos, como o acordo nuclear com o Irã, e também apoiando avanços negativos sobre Jerusalém, os assentamentos, fronteiras, muro, bem como a questão da resolução 194 sobre o direito do retorno dos refugiados.

A pressão dos EUA durante a gestão Trump sobre outros países cujos regimes mais alinhados, tanto no Oriente Médio como fora dele, como é hoje o Brasil sob a Presidência de Jair Bolsonaro, para que se retirem da compreensão sob o marco do direito internacional.

E por fim, a necessidade da unidade palestina, a reconciliação das forças expressa em um governo de unidade que possa pautar a comunidade internacional, a ONU e o novo presidente dos EUA, Joe Biden para a retomada dos processos interrompidos por Trump e Netanyahu.

E no Brasil?

No âmbito nacional temos assistido, desde a campanha de 2018, Jair Bolsonaro se posicionar por mudanças importantes na política externa brasileira, transformando, a partir de seu governo, o Estado brasileiro em um aliado de primeira hora dos EUA e de Israel, gerando um reposicionando, marcado pelo não reconhecimento da Palestina como Estado e contribuindo no processo de disputa de Jerusalém, rompendo com os tratados e resoluções da ONU sobre a cidade sagrada.

Durante este ano, o governo Bolsonaro votou no Conselho de Direitos Humanos da ONU contra o reconhecimento do direito internacional em territórios ocupados, que condena a violência. O Documento ainda pede que os responsáveis por crimes sejam levados à justiça e reconhece o papel do Tribunal Penal Internacional, um voto isolado do restante da América Latina, diga-se de passagem.

E em setembro de 2020, no discurso de abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas Bolsonaro citou como exemplo de avanços os Acordos entre Israel e Emirados Árabes e Israel e Bahrein, Plano de Paz e prosperidade de Donald Trump que visa enfraquecer a construção do Estado Nacional Palestino.

Existe uma campanha global, chamada pela sociedade civil palestina que é o BDS, esta campanha tem sido alvo de ataques sionistas no qual dizem que é antissemita, qual a sua posição sobre isso?

Eu considero o BDS um instrumento de luta importante, especialmente por optar pela via pacífica, estabelecendo uma disputa em um campo estratégico que é o campo econômico. Uma das experiências importantes de pressão política por meio de boicotes e sanções econômicas se deu contra o regime do Apartheid da África do Sul, o que contribuiu para o enfraquecimento do regime.

Qual a sua ligação com a luta do povo palestino?

O meu encontro com a causa palestina se deu na adolescência no período na primeira Intifada. Era militante secundarista e do núcleo local da Anistia Internacional. Tinha colegas de aula e amigos pertencentes à comunidade Palestina e muitos companheiros que atuavam no movimento estudantil secundarista e universitário atuavam em apoio à luta pela libertação da Palestina.

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No Rio Grande do Sul há uma importante comunidade palestina, existe alguma atividade no qual você atua relacionada aos palestinos?

Eu sou fundadora da Frente Gaúcha de Solidariedade ao Povo Palestino no RS, e dentre as ações tínhamos iniciativas voltadas à difusão do BDS no RS junto às Universidades, movimentos sociais e governos estadual e municipais.

Mantenho a relação com a Frente Gaúcha e com os companheiros da FEPAL, tendo participado da coordenação de algumas campanhas de solidariedade e da organização de eventos relacionados ao tema, além de acompanhar o calendário cultural e de lutas da comunidade.

Como você acredita que o PT pode contribuir para o fortalecimento da solidariedade à causa palestina?

Acredito que podemos contribuir a partir dos diferentes espaços onde atuamos, como nos poderes executivos, nos parlamentos e junto aos diferentes movimentos sociais, fazendo a defesa do direito à autodeterminação do povo palestino, a divulgação da sua cultura, contribuindo com as iniciativas voltadas ao fortalecimento econômico da Palestina, estimulando o turismo, bem como propor e compor missões de solidariedade ao lado dos movimentos sociais do Brasil e da Palestina. Além disso, considero importante inserirmos o tema em nossos processos formativos, em nossas publicações e nas nossas redes de comunicação.

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Expulsão dos Palestinos, O conceito de 'transferência' no pensamento político sionista (1882-1948)
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