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Turquia pode ajudar a estabilizar o Afeganistão, diz especialista

O Presidente turco Recep Tayyip Erdogan (D) encontra-se com o Presidente do Conselho Supremo para a Reconciliação Nacional do Afeganistão Abdullah Abdullah (E) em Antalya, Turquia, em 18 de junho de 2021 [Presidência TUR / Murat Cetinmuhurdar / Agência Anadolu]

O pesquisador e conselheiro argelino do Alto Conselho de Paz do Afeganistão (HPC) Abdullah Anas confirmou que a proposta da Turquia de que suas forças permaneçam no aeroporto internacional de Cabul após a partida das forças da OTAN em setembro é uma medida sensata que contribuiria para alcançar a estabilidade e a paz no Afeganistão após quatro décadas de guerra.

Anas, genro do líder espiritual dos Mujahidin árabes no Afeganistão, o Sheikh Abdallah Youssouf Azzam, enfatizou que o envolvimento do Paquistão e da Hungria com a Turquia na fase pós-OTAN também contribuiria para alcançar o equilíbrio regional e internacional necessário, o que significa que este passo garantiria a segurança e a estabilidade no Afeganistão e na região em geral.

O pesquisador acredita que um conjunto de indicadores regionais e internacionais ajudaria a apoiar um papel turco eficaz que poderia trazer esperança aos afegãos. Ele contou a sua perspectiva para o Arabi21.

Na sua opinião, quais são os motivos e objetivos da Turquia em sua iniciativa de substituir as forças da OTAN e proteger o aeroporto de Cabul?

A Turquia, o governo e o povo, não são considerados estranhos à questão afegã. Na verdade, os laços entre Ancara e Cabul têm mais de oito décadas e existem acordos entre os dois países desde a época de Kemal Ataturk, sem esquecer muitos exemplos de cooperação que ainda estão em curso até hoje. Quando os diplomatas afegãos e turcos viajam em companhias aéreas turcas ou afegãs, eles recebem um desconto de 50% sobre o preço do bilhete em uma convenção de 75 anos que ainda está em vigor.

Como combatente veterano da guerra do Afeganistão contra a União Soviética, lembro-me do trabalho humanitário, educacional e caritativo que a Turquia fazia no Afeganistão, e lembro-me até que vários soldados turcos foram martirizados no norte do Afeganistão nos anos 80.

A Turquia deixou um impacto positivo na memória do povo afegão, como foi o caso das batidas realizadas pelas forças armadas estrangeiras e do aspecto militar e operacional combativo que prevalecia naquela época.

Após os ataques de 11 de setembro, a Turquia apenas interveio aconselhando e treinando a polícia e os oficiais do exército, além de fornecer alguns serviços administrativos. Portanto, a imagem das forças turcas na memória coletiva do povo afegão é desprovida de conflito ou de confronto.

Na minha opinião, estas sobreposições são complementares ao fato de que os partidos afegãos no governo e o Talibã não têm rivalidade ou má experiência com a Turquia no passado. Há até mesmo vários líderes talibãs que costumavam viver na Turquia.

Penso que essas interferências fizeram a Turquia perceber que ela pode desempenhar um papel fundamental na questão afegã, mesmo além da tarefa de proteger o aeroporto de Cabul.

Embora o governo afegão tenha acolhido favoravelmente a oferta turca, o Talibã parece tê-la rejeitado. A Turquia pode entrar em confronto armado com o Talibã, ou Ancara vai empregar outra abordagem?

É claro que a declaração do Talibã, na qual o movimento expressou sua rejeição à decisão da Turquia de manter suas tropas no Afeganistão após a partida das forças da OTAN em 11 de setembro, pode ser entendida em termos da adesão do Talibã ao princípio de completa soberania sobre seu solo nacional. Imagino que o Talibã não tenha dito nada que enfurecesse alguém a esse respeito, dado o fato de que o povo afegão em geral, sejam membros do Talibã ou civis, são sensíveis à presença de tropas estrangeiras em seu território. O Talibã não pode ser diferente de qualquer outro povo ou governo, pois eles preferem ter plena soberania sobre seu território, aeroportos, diplomacia e economia. Não é surpreendente que os líderes do Talibã tenham declarado sua recusa em permitir que as forças turcas protejam o aeroporto de Cabul ou qualquer outro aeroporto no Afeganistão.

Entretanto, se considerarmos a situação do Afeganistão nas últimas quatro décadas, veríamos que a presença de tropas estrangeiras no país não ocorreu com o consentimento do povo afegão.

Portanto, a declaração do Talibã deve ser retratada neste contexto… Não creio que o Afeganistão possa ser libertado da influência estrangeira da noite para o dia, seja de países vizinhos ou de outras partes. Com base nesta equação, embora a declaração feita pelo Talibã seja aceitável, ela requer tempo, compreensão e gestão no terreno, especialmente quando se compara a Turquia com outros países vizinhos.

Penso que a maioria dos afegãos que encontro prefere a Turquia por várias razões. Eles dizem que a Turquia não tem uma agenda sectária no Afeganistão, considerando que a grande maioria do povo afegão adere ao Islã e à escola Hanafi, o que é o mesmo para a Turquia. Eles também dizem que a Turquia não ameaça o Islã no Afeganistão porque Ancara não tem missionários que chamariam o povo para se converter a outra religião ou seita.

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Em nível étnico, eles dizem que preferem a Turquia em detrimento de outros países porque os turcos se asseguram de manter a mesma distância de todos os grupos étnicos, e não têm nenhum confronto, rivalidade ou problemas passados com os pashtuns, tajiques, usbeques, turcomenos ou outras etnias.

O Catar desempenhou um papel fundamental na assinatura do acordo com a administração americana em fevereiro de 2020 em Doha, e a Turquia é considerada um país aliado ao Catar, portanto, não deve despertar nenhuma sensibilidade.

Quais são as razões e objetivos da proposta de Erdogan para uma parceria entre o Paquistão e a Hungria na iniciativa turca?

Eu não sei as razões exatas para envolver a Hungria nesta iniciativa, pode ser por razões que a Turquia saiba. Entretanto, acredito que a cooperação com o Paquistão para ajudar a estabilizar o Afeganistão é um passo pertinente, pois todos podem concordar sobre o profundo envolvimento do Paquistão no Afeganistão, além de ser um parceiro ativo nos assuntos afegãos desde que os soviéticos entraram no Afeganistão, em 1979. O Paquistão abrigou milhões de imigrantes e recebeu vários escritórios de Mujahideen afegãos em Peshawar e outras cidades paquistanesas, e continuou a ser um aliado do Talibã. Alguns consideram o Paquistão como tendo desempenhado um papel importante na criação do movimento Talibã em 1993.

Portanto, a resolução da Turquia sobre a presença do Paquistão para garantir o sucesso da estabilidade no Afeganistão é uma leitura correta da situação.

E quanto à postura árabe em geral, e da Arábia Saudita em particular, com relação ao envolvimento turco no processo afegão? Como você vê isso?

Creio que o estado de calma que foi restaurado na região do Golfo após o fim do cerco imposto ao Catar levou à redução da tensão e da animosidade que prevalecia entre os Estados do Golfo, especialmente entre a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, por um lado, e o Catar, por outro.

Se levarmos em conta os sinais positivos que surgiram recentemente indicando o retorno do fluxo de relações entre esses países. Imagino que esse avanço pode se refletir positivamente na intervenção da Turquia, como aliada do Catar; acrescentando a isso a posição saudita, como Makkah sediou uma conferência de estudiosos paquistaneses e afegãos há alguns dias, que foi concluída com a emissão de uma declaração pedindo aos afegãos que se unissem. Assim, a iniciativa adotada pela Arábia Saudita não contradiz o que a Turquia quer no Afeganistão.

A Turquia tem maior vantagem, em comparação com outros países que podem oferecer mediação no Afeganistão e ajudar a estabilizar o país, quando comparada com o Paquistão e o Irã. Os americanos e o Ocidente não desconfiam da Turquia, ao contrário do Paquistão. Há muitos partidos ocidentais que questionam o papel do Paquistão e o acusam com o argumento de que ele abrigou vários líderes da Al-Qaeda e até mesmo o chefe da Al-Qaeda morreu em algum lugar no Paquistão.

O Irã também é um suspeito aos olhos da comunidade internacional por causa de seu projeto nuclear.

O Afeganistão precisa de ajuda internacional?

Naturalmente, estamos falando de um país que viveu quatro décadas de guerra, durante as quais sua infra-estrutura foi quase completamente destruída. Este país não tem nenhuma fonte de renda nacional, o que necessita da ajuda da comunidade internacional. Este é um dos principais pontos que os americanos discutiram com o Talibã. Eles falaram sobre a saída dos soldados da OTAN do Afeganistão, mas não perguntaram se o Ocidente deveria acabar com todos os laços com as instituições estatais afegãs, porque o Talibã percebeu a necessidade de apoio internacional do país, para que as instituições soberanas permanecessem em funcionamento.

Esta entrevista foi publicada originalmente no Árabi21, em língua árabe, no dia 23 de junho de 2021

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