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As comunidades árabes no Brasil entre o passado e o futuro

Mesquita Brasil, fundada em 1950 [Sociedade Beneficiente Muçulmana]
Mesquita Brasil, fundada em 1950 [Sociedade Beneficiente Muçulmana]

Em sendo um país do Novo Mundo, o Brasil é um país de imigrantes por excelência, sendo a miscigenação racial, étnica e religiosa uma de suas características marcantes. Mesmo sob o pano de fundo das injustiças e desigualdades históricas das quais são vítimas os menos favorecidos, podemos considerar o Brasil um país acolhedor e tolerante para com imigrantes e minorias. É verdade que o Brasil pode experimentar períodos em que são exaltadas e difundidas idéias xenófobas, de ódio racial e de intolerância religiosa, como o período que vivemos nos dias de hoje, no governo Bolsonaro, mas os traços gerais da nação brasileira e alma do povo brasileiro são de tolerância, cordialidade e respeito mútuo entre religiões, etnias e raças.

Pode ser subjetivo avaliar países quanto ao grau de receptividade a estrangeiros e de tolerância para com minorias. Avaliações deste tipo podem ser eivadas de vieses ideológicos e de método, o que compromete os seus resultados e lança dúvidas sobre a sua validade. Mas o fato de que a imagem do Brasil na comunidade internacional seja a de um país cordial, receptivo, tolerante, diplomático, mediador de conflitos e promovedor da paz, este fato é amplamente reconhecido e aceito, principalmente quando comparado com o continente europeu e o império estadosunidense. Tanto Europa quanto Estados Unidos são lugares em que preconceitos contra imigrantes podem tomar forma de lei e serem políticas latentes e patentes de estado. Até nas longínquas Austrália e Nova Zelândia, temos evidências e fatos trágicos que provam a hostilidade a imigrantes árabes e muçulmanos e seus descendentes, tendo o recente massacre nas mesquitas na Nova Zelândia um exemplo de extrema tragicidade.

No Brasil, árabes e muçulmanos não foram somente bem recebidos e acolhidos, mas tiveram a chance de incorporar-se ao tecido social brasileiro, com todos os direitos e deveres de um cidadão brasileiro comum. É verdade que a constituição brasileira tem um peso importante nisso, mas mais importante do que a constituição não-escrita é o conjunto de valores, normas e conceitos que formam e moldam a alma do povo brasileiro. É uma das almas mais tolerantes com o diferente, o estrangeiro e estranho. Isto não quer dizer que não tenhamos os mais variados preconceitos no Brasil, mas significa que o ambiente da sociedade brasileira é muito mais propício e favorável, a imigrantes e comunidades de minorais, quando comparado com ambientes de outras sociedades receptoras de imigrantes. Não é à toa que os árabes e descendentes conseguiram chegar aos postos mais altos de poder e glória no Brasil, nos campos da política, literatura, ciência, medicina, nas carreiras jurídicas, e tantos outros.

Um olhar para o passado das comunidades árabes

Em reconhecimento ao papel que os imigrantes árabes e descendentes tiveram na construção do Brasil moderno, foi oficialmente instituído o dia 25 de março de todo ano como o dia da comunidade árabe no Brasil. A palavra comunidade foi usada no singular, como se a comunidade árabe no Brasil fosse um grupo homogêneo e coeso, tanto no tempo quanto no espaço. Embora valha a boa intenção para homenagear os árabes no Brasil, no entanto, esta nomenclatura incorreu em um pequeno grande equívoco. Ao usar a palavra “comunidade” no singular, pressupõe-se que os árabes no Brasil formam um grupo sólido e coeso quando, na verdade, os árabes no Brasil formam comunidades, no plural. E isso não é fruto dos dias de hoje, mas remonta aos primórdios da imigração ao Brasil e persiste até hoje, com todas as suas nuances.

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As primeiras comunidades árabes que instalaram-se no Brasil no final do século XIX e início do século XX eram em sua maioria cristãos provenientes de territórios do Levante, que na época estavam sob o domínio do Império turco-otomano e hoje compõem os estados do Líbano e da Síria. Estes cristãos árabes eram gente pobre do campo, mas tinha entre eles também membros das burguesias urbanas de cidades como Homs, na Síria. Esta cidade, que foi destruída no atual conflito sírio, deflagrado em março de 2011, deu nome a um dos clubes da comunidade sírio-libanesa em São Paulo, na gloriosa Av. Paulista, estamos falando do famoso Clube Homs. Estes árabes cristãos trouxeram à nova pátria, além da vontade de vencer na vida, os ideais de nacionalismo árabe, que permitiram florescer atividades culturais, como jornais, revistas e escolas árabes. É desta época, inclusive, a fundação do famoso Hospital Sírio-libanês, inaugurado em 1920, que tem a sua ata de fundação manuscrita em língua árabe, e teve a saudação de um poeta libanês da família Maluf. Os imigrantes cristãos levantinos ocuparam-se das diversas atividades econômicas, principalmente comércio e indústria, mas não deixaram de lado o interesse pela cultura árabe.

Já a presença de árabes muçulmanos no Brasil deu-se de uma forma mais maciça após a Segunda Guerra Mundial. Antes disso, havia presença islâmica árabe, mas era de pouca expressão e composta por indivíduos e pequenos grupos isolados. Os principais centros de presença muçulmana árabe no Brasil são os estados do Sudeste e Sul, principalmente São Paulo e Paraná. A primeira mesquita fundada no Brasil é a Mesquita Brasil, na Av. do Estado, São Paulo-SP. Esta mesquita foi construída e inaugurada na década de 1950, e constitui o marco inicial da organização da comunidade islâmica árabe. Assim como os seus conterrâneos cristãos, os muçulmanos árabes que vieram ao Brasil eram em sua maioria levantinos do Líbano e da Síria.

Um terceiro grupo de levantinos, os palestinos, teve a sua imigração ao Brasil aumentada após a catástrofe da Nakba palestina em 1948. Os palestinos afluentes ao Brasil são em sua maioria muçulmanos, com comunidades que marcam presença tanto no Norte (em Manaus-AM), quanto no extremo sul, no estado do Rio Grande do Sul. Assim, o grosso das comunidades árabes no Brasil é de levantinos, sírios e libaneses em sua esmagadora maioria, com os palestinos constituindo o terceiro grupo de imigrantes árabes em presença e importância.

Comunidades árabes diversas e não uma comunidade única

Embora sejam de uma diversidade cultural e religiosa, a até étnica, as comunidades árabes no Brasil são unidos pela língua árabe. Temos os levantinos como a coluna dorsal das comunidades árabes no Brasil, mas isso não significa que não haja comunidades oriundas dos cerca de 22 países árabes, que compõem a Liga Árabe, organização regional com idéia e função semelhante à União Européia, mas com desempenho em nada comparável à bem-sucedida união do norte. No Brasil, temos árabes provenientes do Egito, Iraque, Jordânia, Marrocos, Argélia, Tunísia e outros. Nas últimas décadas, a comunidade egípica vem ganhando importância. Mesmo com toda esta diversidade e mudanças ocorridas, o peso maior continua sendo dos levantinos, principalmente libaneses e sírios e, em segundo plano, palestinos.

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O curioso é que mesmo dentro da comunidade proveniente de um mesmo país, não podemos falar em uma comunidade única. Os imigrantes costumam trazer as suas divisões étnicas e religiosas à nova pátria, o Brasil no caso. Assim, sociedades, associações, clubes e hospitais refletem, muitas vezes as divisões internas do que supõe-se que seja uma comunidade única aos olhos de uma observador externo. Se tomarmos a comunidade libanesa no Brasil como exemplo, teremos um exemplo bem claro disso. Comunidades de libaneses cristãos não costumam misturar-se com comunidades de libaneses muçulmanos. É óbvio que esta não é uma regra inviolável. Mas em geral o povo líbano-brasileiro da mesquista não costuma conviver com o povo líbano-brasileiro da igreja. Até mesmo entre muçulmanos temos divisões. Assim os sunitas da comunidade libanesa não costumam conviver com os seus conterrâneos xiitas. É sabido que sunitas e xiitas são muçulmanos; entretanto, as diferenças entre ambos criam uma considerável segregação.

Por outro lado, as casa de adoração em solo brasileiro podem servir para unir árabes de países diferentes. Como exemplo temos as mesquitas. Estas casas de adoração reúnem muçulmanos de países árabes e não-árabes e constituem excelentes espaços para a interação entre os irmãos de fé. Aqui, a mesquita torna-se um espaço de união ao invés de segregação. Sunitas árabes asiáticos convivem com sunitas árabes africanos, e ambos os grupos convivem com sunitas não-árabes. Este é um fenômeno interessante, no qual a irmandade na fé cria laços, na nova pátria, que ultrapassam os laços nacionais e linguísticos.

Um fato extremamente curioso e, talvez, altamente paradoxal, é a presença de judeus árabes no Brasil. Este fato pode causar surpresa para muitos dos caros leitores, que podem achar que quem escreve estas linhas está proferindo disparates. Mas, nada disso, estimado leitor, e permita-me aqui usar um clichê, sob o risco de ser olhado de soslaio e julgado de apelar para lugares-comuns, contra fatos não há argumentos, caro leitor. O exemplo que irei citar aqui causará surpresa a muitos. Os fundadores e donos do Banco Safra, conhecido como o banco das elites, são libaneses judeus! Portanto, árabes judeus! É que antes da criação do estado de Israel, as capitais de vários países árabes tinham comunidades minoritárias de judeus. Com a Nakba, os judeus deixaram a maioria dos países árabes. O Marrocos talvez seja hoje o único país árabe com comunidade judaica remanescente. A família Safra, assim como todos os judeus libaneses, acabaram saindo do Líbano para sempre.

Comparação entre passado e presente

Ao compararmos a realidade de hoje das comunidades árabes no Brasil com a sua realidade nos primórdios e meados do século XX, o que podemos dizer que mudou? De fato, as mudanças foram muitas. Embora os trabalhos acadêmicos brasileiros nesta área sejam quase inexistentes, podemos, com base no relato de imigrantes veteranos, muitos já falecidos, e com base nas nossas observações pessoais e em informações lidas em fontes árabes, podemos dizer que as comunidades árabes tiveram mudanças que são o reflexo de três fatores: 1) as interações destas comunidades com a sociedade brasileira; 2) as mudanças ocorridas nos países de origem nas últimas décadas; 3) as mudanças ocorridas no mundo como um todo.

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As comunidades árabes no Brasil dos primórdios e meados do século XX tinham forte ligação com o nacionalismo árabe e com as idéias de pan-arabismo que estavam em voga naquela época, e que atingiram o seu auge com o líder egípcio Gamal Abdul Nasser. Com a humilhante derrota árabe em junho de 1967, na Guerra dos Seis Dias, contra Israel, e depois com a morte de Nasser em Setembro de 1970, o nacionalismo árabe e o pan-arabismo entraram em declínio. Isso teve o seu reflexo nas comunidades árabes no Brasil também. Assim, durante boa parte do século XX, tanto cristãos quantos muçulmanos das comunidades árabes cultivavam o uso e o estudo da língua árabe em solo brasileiro. Livros, periódicos, e emissoras de rádio árabes eram instrumentos culturais presentes na vida de imigrantes árabes e seus descendentes.

Com o declínio do nacionalismo árabe e o duro golpe no pan-arabismo, as comunidades árabes no Brasil passaram a, cada vez mais, abandonar o uso e cultivo da língua árabe. Nesta fase, o que teve imensa serventia para a presença da língua árabe foi a religião islâmica. As mesquitas brasileiras tornaram-se o espaço por excelência para o cultivo e ensino da língua árabe. Embora haja escolas de língua árabe nas cidades onde há comunidades árabes com presença mais maciça, como em São Paulo-SP e Foz de Iguaçu -PR, estas escolas são incapazes de atender a todos os membros das comunidades árabes. Faltam institutos de ensino superior islâmicos e árabes em solo brasileiro. Não temos nenhuma universidade árabe ou islâmica no Brasil.

Perspectivas para o futuro

Hoje vivemos a era da internet, com a forte presença das redes sociais na vida das pessoas de todo o mundo. Neste sentido, as comunidades árabes no Brasil podem em tempo real entrar em contato com as suas pátrias de origem. Isso está facilitando o intercâmbio entre o mundo árabe e sua filial brasileira. A influência dos fatos ocorridos tende a ter uma influência mais imediata. Assim sendo, a eclosão e os desdobramentos da Primavera Árabe foram acompanhados em tempo real pelos árabes e descendentes no Brasil. Houve o afluxo de refugiados árabes, principalmente os oriundos da Síria, assolada pela guerra civil e regional há cerca de dez anos. A relação das comunidades árabes no Brasil está se moldando de um jeito completamente novo com o advento da internet e com as transformações geopolíticas, sociais e econômicas ocorridas no mundo desde o início do presente século da era cristã. O futuro não será em nada semelhante ao passado.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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