Portuguese / Spanish / English

Middle East Near You

Eleições no Peru: ventos de mudança contra a continuidade do Fujimorismo

Área de votação do primeiro turno das eleições gerais no Peru, instalado no campo esportivo "Bombonera Carmelina Walter Oyarce”, no distrito de Carmen de la Legua Reynoso, em Callao, em 11 de abril de 2021 [Johnattan Rupire]

Nas eleições mais pleiteadas e surpreendentes da última década no Peru, os cidadãos foram às urnas no último domingo, 6 de junho, esperando pôr um fim à incerteza e aos sobressaltos de um período de cinco anos caracterizado por diferentes terremotos políticos na nação andina, desde a queda do presidente Pedro Pablo Kuczynski, a dissolução do Congresso da República e a subsequente demissão do ex-presidente interino Martin Vizcarra. Ainda que os resultados não tenham sido promulgados, matematicamente, a apuração dá a vitória a Pedro Castillo.

No início da corrida eleitoral atual, ninguém imaginava que um professor camponês de Cajamarca, José Pedro Castillo Terrones, candidato do partido Peru Livre, iria para o segundo turno das eleições para competir com a líder da Força Popular, Keiko Sofia Fujimori, herdeira política e filha de um dos presidentes mais populares, mas também mais questionados do século XX, Alberto Fujimori, atualmente cumprindo uma pena de 25 anos de prisão por violações dos direitos humanos e corrupção, entre outras acusações.

Os resultados do primeiro turno foram recebidos com surpresa, medo e consternação pela maioria dos peruanos que esperavam poder escolher entre o que consideram a direita e a esquerda moderada, mas em vez disso foram obrigados a escolher entre o professor provincial e líder sindical cuja capacidade de dirigir o país é questionada, e Fujimori, que para muitos representa o lado obscuro do Fujimorismo: ela foi presa três vezes sob acusações de lavagem de dinheiro, obstrução da justiça e falsa declaração em processos administrativos, entre outras coisas.

Candidata da direita, Keiko Fujimori, e candidato da esquerda, Pedro Castillo, nas eleições presidenciais do Peru [Fotos Divulgação: Montagem Resumen Latinoamerican]

No caso de Castillo, fortemente apoiado nas regiões conhecidas como selva e terras altas, incluindo Cusco, Arequipa e a maior parte da Amazônia, seus detratores falam de suas origens, de sua maneira simples de se expressar e lhe atribuem um vínculo com o grupo terrorista Sendero Luminoso, que o candidato negou categoricamente em seus discursos de campanha. De fato, dados biográficos de várias fontes destacam que Castillo foi um membro ativo dos “ronderos”, civis das áreas rurais que fornecem segurança armada aos cidadãos contra o crime e, segundo ele, também enfrentaram membros do Sendero Luminoso em seu tempo.

LEIA: Dois projetos antípodas se enfrentam no Peru

Considerado um país altamente conservador pelos próprios peruanos, Castillo, que se define como “progressista e não-marxista”, foi a surpresa destas eleições. Sua popularidade cresceu como fogo selvagem devido ao cansaço dos cidadãos com a corrupção representada pelos partidos governantes atuais, predominantemente de direita, e a esperança de mudanças reais. Talvez estas razões motivaram seus eleitores a fixar sua atenção no professor de Cajamarca, que, acompanhado por um lápis, está apostando na “revolução educacional”, na nacionalização da mineração e da água, no extrativismo responsável e sustentável e na tecnificação agrícola, para enumerar alguns dos pontos fortes de seu plano governamental.

Não foi fácil para Fujimori, que concorreu à presidência pela terceira vez, acompanhar o candidato de 51 anos em termos de preferência eleitoral, apesar de contar com o apoio da imprensa metropolitana e ter uma campanha de propaganda, especialmente nas principais cidades, que excede em muito o orçamento de seu oponente do Peru Livre.

A tática de Fujimori para desgastar a imagem e invalidar a proposta de Castillo diante do eleitorado foi o discurso de combate ao “comunismo”. Até o ex-candidato presidencial Rafael López Aliaga, do partido Renovação Popular, chegou a entoar “Morte ao comunismo, morte a Castillo”, de acordo com relatos da imprensa local. Esta atribuição ao Castillo não passou despercebida pelos eleitores: muitos deles foram influenciados por esta possibilidade e optaram pela Fujimori ou por anular seu voto.

Pedro Castillo já é considerado vencedor, apesar do resultado ainda não ter sido anunciado oficialmente, ele recebeu 50,20 por cento dos votos contra 49,79 para Fujimori, após a apuração de 99,9 por cento das urnas, nesta quinta-feira (10), segundo o Escritório Nacional de Processos Eleitorais do Peru, ONPE. A presidência de Castillo vem em condições não muito favoráveis, já que ele terá um congresso que se opõe amplamente a ele.

Sua vitória, por outro lado, permite avançar um processo judicial pendente contra Keiko Fujimori, que pode levá-la a prisão. Nesta quinta-feira, um promotor anticorrupção pediu a prisão preventiva da candidata de direita, o que aumentou ainda mais a tensão no Peru sobre a definição da eleição presidencial.

LEIA: Peru e uma nova alternativa

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

Categorias
América LatinaArtigoOpiniãoPeru
Show Comments
Show Comments