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Derrubando Netanyahu

Manifestante israelense usa uma máscara do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e uma camiseta com 0 slogan em hebraico: "a cerimônia terminou", em 31 de maio de 2021, Tel Aviv [JACK GUEZ/AFP via Getty Images]

É importante salientar logo no início que aqueles que antes eram próximos ao primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu são as mesmas pessoas que agora querem se livrar dele: o ex-ministro do Interior, Gideon Sa’ar; Avigdor Lieberman, chefe de gabinete do primeiro-ministro durante os anos 90; Naftali Bennett, seu diretor de gabinete; e Ayalet Shaked, seu ministro da Justiça, assim como Ze’ev Elkin, chefe do governo de coalizão de Netanyahu.

Em pouco mais de dois anos, quatro eleições gerais falharam em formar um governo estável em Israel. O caos político vergonhoso e perigoso envolveu Tel Aviv. O denominador comum entre esquerda e direita em Israel é que eles não podem derrotar Netanyahu nas urnas, mas ele também não pode derrotá-los. Agora seus oponentes estão se unindo contra ele, com uma incomum “coalizão para a mudança”.

Os membros incluem a liderança da direita e da extrema direita fora do Likud; eles sabem como ele pensa e são habilidosos em seguir seus truques e jogos políticos. A demissão de Sa’ar do Likud enviou um aviso claro a Netanyahu, mas ele o subestimou. Elkin também ousou se libertar das correntes de Netanyahu após anos de lealdade absoluta a ele, e de humilhação repetida. Agora ele se move com Bennett e Shaked. O que levou os antigos leais de Netanyahu a esta etapa, e por que ele tem sido tão ingênuo?

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Estes são políticos habilidosos, instruídos por um mestre em tática que tem estado no topo da árvore política de Israel por décadas. Eles não podiam ter certeza de que venceriam, mas foram em frente de qualquer maneira, seguros de que o destino estava à vista.

O novo governo de coalizão é, é justo dizer, ainda um governo minoritário, e pode levar às reformas necessárias, mas provavelmente não vai tirar Israel do impasse político em que está preso há mais de dois anos. É provável que seja um caso de transição incapaz de implementar mudanças a longo prazo ou de nomear altos funcionários, por isso será ineficaz, apesar de obter – espera-se – um voto de confiança do Knesset. As divisões políticas em Israel ainda são profundas.

Escândalo de corrupção de Netanyahu – Charge [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

Com uma composição ideológica da esquerda para a direita, incluindo – excepcionalmente nos governos israelenses – cidadãos palestinos, ela será menos estável do que outros governos. Assim, é provável que as “questões difíceis” sejam deixadas de lado, pelo menos durante os dois primeiros anos, devido à indubitável falta de confiança entre as partes envolvidas. Formar parcerias dentro da coalizão e manter as modestas demandas partidárias será importante para determinar a longevidade e estabilidade deste governo, pois a atual crise política em Israel é pessoal, e não ideológica. O fato de que o campo “Não a Netanyahu” está prestes a conquistar a confiança do Knesset é prova disso.

Apesar da ampla difusão ideológica da coalizão, o novo primeiro-ministro, Naftali Bennett em primeira instância, comanda apenas seis cadeiras no parlamento. Seu principal objetivo, no entanto, é substituir Netanyahu, e ele se comprometeu a fazê-lo quando entrou em sua aliança com Lapid, Lieberman e Sa’ar, após difíceis negociações que duraram várias semanas.

Sabemos, é claro, que o partido Likud de Netanyahu e os membros ultra-ortodoxos do parlamento vão desafiar o novo governo no Knesset com projetos de lei partidários sobre questões de religião, estado e assuntos políticos, e tentarão quebrar a coalizão. O segredo da persistência de seu governo está no próprio Netanyahu, que será um líder da oposição com vasta experiência política, a quem ninguém terá interesse em enfrentar nem no parlamento nem nas próximas eleições.

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Além das diferenças ideológicas dentro do “governo da mudança”, há interesses e ambições pessoais que aumentarão suas chances de sobrevivência. Por exemplo, Yair Lapid estará interessado em substituir Bennet como primeiro-ministro rotativo em agosto de 2023, enquanto o próprio Bennett tentará usar seu tempo no cargo para justificar o acordo da coalizão e restaurar sua credibilidade pública. O mesmo se aplica a Lieberman, que supervisionará o Tesouro do Estado e fará tudo o que estiver ao seu alcance para manter algum domínio. No que diz respeito a Sa’ar, ele tentará provar que coisas importantes podem de fato ser feitas fora do Likud. Os partidos de esquerda da coalizão não vão querer voltar ao estéril terreno baldio da oposição.

A Lista Árabe Unida, por sua vez, enfrenta a rejeição da maioria dos cidadãos palestinos de Israel. Está entrando num reino até então desconhecido com sua estranha e repreensível tentativa de integrar os políticos árabes na política israelense. O desejo de derrubar Netanyahu juntou alguns companheiros peculiares.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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