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De Sisi a Houthi, a arte de flertar com golpes

Uma foto de arquivo datada de 31 de julho de 2013 mostra um manifestante apoiando a exibição de uma faixa com os dizeres 'Contra o Golpe Militar' na Praça Rabia Adaweya no Cairo, Egito [Mohammed Elshamy/ Agência Anadolu]
Uma foto de arquivo datada de 31 de julho de 2013 mostra um manifestante apoiando a exibição de uma faixa com os dizeres 'Contra o Golpe Militar' na Praça Rabia Adaweya no Cairo, Egito [Mohammed Elshamy/ Agência Anadolu]

Ao separar-se de Abdel Fattah Al-Sisi, Recep Tayyip Erdogan da Turquia considerou que esta seria uma posição moral e de princípios a ser tomada. Não se tratou apenas de um impasse político radical entre um país que se livrou de um longo e amargo legado de golpes militares e um regime militar que tomou o poder em 2013 por meio de um violento golpe acompanhado por muitas denúncias de crimes contra a humanidade.

Embora a Arábia Saudita tenha se recusado a chegar a um entendimento com o grupo Houthi no Iêmen, ela viu isso como uma posição moral, nacional e legal que se desenvolveu em uma coalizão militar árabe-islâmica contra o que foi visto como uma tentativa iraniana de violar a segurança árabe. A Arábia Saudita mobilizou aliados regionais em uma guerra contra este “golpe sectário” contra a revolução popular iemenita, os interesses supremos do povo árabe e os valores humanos.

Era claro para aqueles com perspicácia e um certo grau de previsão que, quando isso aconteceu, há mais de sete anos, Al-Sisi e Al-Houthi eram as duas faces da moeda da contra-revolução que era popular naquela época. Não há diferença entre eles; se eu os chamasse de Abdul-Malik Al-Sisi e Abdel Fattah Al-Houthi, não estaria muito longe da verdade. Portanto, é surpreendente que estejamos ouvindo gemidos sobre o ataque houthi contra os resultados da revolução iemenita daqueles que ajudaram Sisi a queimar a democracia nascente criada pela revolução no Egito.

Depois dos acontecimentos dos últimos oito anos, e à luz das situações que surgiram nessa época, parece que o que está acontecendo é uma invenção da nossa imaginação. A Turquia de Erdogan está pressionando com entusiasmo por entendimentos, acordos e reconciliação com o Egito de Sisi como parte de um processo político que assume muitas formas.

A mais proeminente delas é a situação com os canais de TV egípcios que transmitem de Istambul usando uma retórica fortemente oposta ao golpe de Sisi. Pareciam ser uma expressão explícita daquela abordagem moral, política e humanitária rígida que Erdogan adotara em relação aos golpes militares.

LEIA: Turquia não vai reprimir a oposição do Egito

Agora vemos que esses canais administrados por grupos de oposição egípcios têm de enfrentar a abertura da Turquia ao Egito de Sisi, e foram forçados a ajustar suas posições editoriais. Visto de fora, parece que esta é uma consequência inevitável das necessidades econômicas do Mediterrâneo oriental, onde o gás é o novo rei, substituindo o petróleo como fator dominante nesta parte do Oriente Médio.

O primeiro-ministro da Turquia, Tayyip Erdogan, faz uma saudação a Rabaa enquanto discursa durante uma reunião na sede do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) em Ancara, em 20 de agosto de 2013. [Adem Altan/ AFP via Getty Images]

O primeiro-ministro da Turquia, Tayyip Erdogan, faz uma saudação a Rabaa enquanto discursa durante uma reunião na sede do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) em Ancara, em 20 de agosto de 2013. [Adem Altan/ AFP via Getty Images]

As novas imposições aos canais da oposição fazem parte de um processo que os obriga a mudar o foco e a se tornar mais “entretenimento” do que política. Eles provavelmente perderão espectadores e desaparecerão na obscuridade. O simpático público ficará triste com isso, enquanto o regime golpista e seus apoiadores no Egito se regozijarão.

Se você olhar pelas lentes de 2013, parece uma dispersão sem violência, gás lacrimogêneo e sangue. Havia aqueles que esperavam que a revolução sobrevivesse com o protesto na Praça Rabaa Al-Adawiya e colocassem suas esperanças em iniciativas e mediações políticas. No entanto, como disse Mohammed ElBaradei – ele pulou do barco logo no início do golpe, lembre-se – o líder golpista jogou essas iniciativas pela janela.

Em última análise, parece que Sisi foi o que mais se beneficiou com o que aconteceu. A abertura entusiástica de Ancara para com ele só pode ser considerada um reconhecimento tardio de um fato consumado, com o governo de Erdogan concedendo ao seu regime alguma legitimidade.

Enquanto isso, no Iêmen, a Arábia Saudita está fazendo a mesma coisa ao oferecer ao golpe houthi uma iniciativa semelhante, com muita esperança de que o grupo a aceite. Oito anos atrás, isso teria sido uma vergonha para o Reino, os árabes e os muçulmanos, mas agora Riad está aguardando o acordo do líder sectário do golpe para a iniciativa que apresentou há dois dias. Isso lhe concede legitimidade, reconhecimento e a maior e mais forte parte do bolo iemenita.

É verdade que a Turquia de Erdogan declarou que é contra todos os golpes e que apoia as revoluções populares e a democracia, e é sabido que a Arábia Saudita é contra as revoluções populares, apóia a tirania e é categoricamente contra a democracia. No entanto, as duas posições se encontram aqui numa estranha ironia, em reconciliação com dois golpes, um dos quais é militar e o outro sectário, após um longo período de hostilidade.

A questão aqui é simples. Tudo o que está acontecendo à nossa frente e ao nosso redor pode ser considerado o fim da Primavera Árabe? Em minha opinião, a resposta é não; mas pode muito bem ser outro começo.

LEIA: Reconciliação turco-egípcia: as perspectivas de sucesso e de fracasso

Este artigo foi publicado originalmente em árabe em Al-Araby Al-Jadeed, em 24 de março de 2021

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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