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Bolsonaro e a “cloroquina” sionista

Presidente Jair Bolsonaro [(crédito: Carolina Antunes/ Agência Brasil )]
Presidente Jair Bolsonaro [Foto: Carolina Antunes/ Agência Brasil]

Enquanto segue o apartheid sanitário sionista na Palestina ocupada e faltam vacinas no Brasil para cessar as mais de mil mortes por dia em função da covid-19, Bolsonaro tripudia da imunização e se prepara para enviar uma comitiva a Israel na busca de outro medicamento milagroso à la cloroquina – e igualmente sem comprovação científica.

A panaceia da vez, como já não é novidade, é o spray nasal EXO-CD 24, utilizado para tratamento de câncer de ovário, testado por Israel em apenas 30 pacientes, sem acompanhamento pós-hospitalar e sem resultados publicados. E Bolsonaro vai gastar o dinheiro do contribuinte para viajar atrás dessa droga mágica e trazê-la para a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovar seu uso emergencial. Enquanto isso, segura o dinheiro para comprar as tão necessárias vacinas. Até agora, de mais de R$ 20 bilhões liberados para tanto desde agosto último, utilizou somente 9%. E tem a cara-de-pau de dizer que faltam vacinas no mundo para comprar. Mas não empenhou os recursos em meses.

Pelo contrário, insistiu e investiu milhões de reais na cloroquina, mesmo depois de a Organização Mundial da Saúde (OMS) suspender definitivamente em julho último os testes pela comprovada ineficácia. E não foram ínfimos 30 pacientes como o spray nasal israelense. Foram 667 somente no Brasil. Até o vermífugo ivermectina e o antibiótico azitromicina, que integram o irresponsável kit covid-19 do governo Bolsonaro, tiveram mais análises registradas.

Em maio último, havia, segundo a Folha de S. Paulo, 475 estudos com diferentes fármacos no mundo, somando-se os 145 sobre cloroquina e seu derivado, a hidroxicloroquina, usados originalmente para tratar malária. Nenhum teve eficácia comprovada.

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Spray à la vacina fake

Vale lembrar que ao início da pandemia, há quase um ano, Israel correu a anunciar que já tinha uma vacina pronta que adaptaria para conter a disseminação da covid-19 e, depois disso, os resultados sairiam em três meses. A vacina, apresentada no Brasil em rede nacional na TV Record, de propriedade do bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo – porta-voz do sionismo e de Bolsonaro –, não passou de mais um entre tantos mitos difundidos para maquiar a colonização israelense – aid washing (termo que se refere a encobrir sua imagem com o falso verniz de ajuda humanitária) para ninguém botar defeito.

Afinal, a propaganda revestia os crimes da limpeza étnica e apartheid a que estão submetidos há mais de 72 anos os palestinos com a fachada de imunização contra uma pandemia. O Estado racista de Israel apresentava-se, assim, como verdadeiro salvador do mundo. Mas a realidade é implacável. Nenhuma das vacinas ao redor do globo, que começaram a ser aplicadas somente em dezembro último, é israelense.

Agora Bolsonaro, o representante explícito do sionismo na cadeira do Planalto, trata de alardear aos quatro ventos o novo milagre. O discurso ideológico tem a dupla função: manter sua aliança prioritária enquanto garoto-propaganda de Israel e tentar esconder seu próprio fracasso em conter a pandemia no Brasil, em decorrência tanto de incompetência quanto de negacionismo.

Felizmente desta vez a mídia não tem dado trégua em denunciar esse uso político, enquanto a população perece nos corredores dos hospitais, à espera de vacina. Josias de Souza não perdoou. Em sua coluna no último dia 15 de fevereiro, intitulada “Com cloroquina em baixa, Bolsonaro lança spray”, enfatiza: “Houve um tempo em que os carnavais eram animados à base de lança-perfume. […] Neste Carnaval de 2021,Jair Bolsonaro desfilou nas redes sociais uma fantasia nova: um spray nasal capaz de deter a covid.”

Ele continua: “É como se o presidente adotasse o modelo Zé Ketti [cantor de marchinha de Carnaval] de administração da pandemia. […] Resta saber até quando haverá ‘mil palhaços no salão’.”

Josias de Souza felizmente não vai por esse caminho, mas no geral a mesma mídia que agora tem criticado a compra do spray nasal sionista também cumpre seu papel em propagandear o sucesso de Israel com sua campanha de vacinação – e normalmente na mesma matéria.

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Enquanto isso, na Palestina…

O que esquecem de apontar é que 5 milhões de palestinos estão à margem desse processo. Não divulgam uma linha sobre o apartheid também sanitário, devidamente denunciado em janeiro último por organizações como a Anistia Internacional.

A ação mais recente ao encontro disso foi a retenção israelense, por dois dias, da chegada de 2 mil doses da vacina russa Sputnik a Gaza. A intenção, como já havia feito com respiradores e outros equipamentos que salvam vidas – os quais a estreita faixa quase não dispõe em função do bloqueio sionista desumano há quase 14 anos e bombardeios frequentes –, era usar o lote como moeda de troca por corpos de dois soldados da ocupação que invadiram Gaza durante o terrível massacre de 2014. Por si só, isso já desmonta a falácia por trás do bom-mocismo sionista que Bolsonaro insiste em disseminar, agora com a propaganda de sua “cloroquina”.

Somente neste dia 17 de fevereiro chegaram os poucos imunizantes a Gaza, os primeiros para que seja feita mágica na estreita faixa, em que 2 milhões de palestinos enfrentam a pandemia em meio a crise humanitária dramática como consequência do cerco israelense criminoso. Nem mesmo os profissionais da saúde serão contemplados com esse minúsculo lote, que, conforme reportagem da Al Jazeera, será destinado a pacientes transplantados e em falência renal.

Na Cisjordânia, em que o apartheid é institucionalizado, a situação não é muito melhor para mais de 2,8 milhões de palestinos: até agora chegaram apenas 10 mil doses russas e outras 2 mil da Moderna, enviadas por Israel, que, em meio a forte pressão pública internacional, prometeu 5 mil. Os profissionais da saúde que estão na linha de frente do combate à Covid-19 começaram a ser imunizados.

Falar em sucesso da campanha de vacinação e não observar que Netanyahu tem utilizado a imunização como plataforma eleitoral – e a potência ocupante tem usado a pandemia para acelerar a limpeza étnica na Palestina sob apartheid – é no mínimo uma distorção.

Não há sucesso na colonização, apenas dor, lágrimas e sangue. Todo o resto serve como propaganda para transmitir imagem de normalidade. Para milhões de palestinos, dentro e fora de suas terras, combater esse “outro vírus” também é questão de vida ou morte.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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