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Câmeras confrontam a opressão

Muhammed Dahlan, fotojornalista e cinegrafista da agência Anadolu segura sua câmera danificada, atingida por uma bala de borracha por soldados israelenses, durante protestos perto da fronteira entre a Faixa de Gaza e Israel, na Cidade de Gaza, 18 de outubro de 2019 [Ali Jadallah/Agência Anadolu]
Muhammed Dahlan, fotojornalista e cinegrafista da agência Anadolu segura sua câmera danificada, atingida por uma bala de borracha por soldados israelenses, durante protestos perto da fronteira entre a Faixa de Gaza e Israel, na Cidade de Gaza, 18 de outubro de 2019 [Ali Jadallah/Agência Anadolu]

Telefones tornaram-se armas nas mãos de muitos. Ainda mais importante, permitiram ao povo capturar o momento em tempo real. Portanto, telefones tornaram todo e cada cidadão um jornalista em potencial, capaz de comunicar e documentar eventos que seriam ignorados de outro modo, se não fosse por vídeos registrados via celular.

Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras. Então, quanto vale um vídeo divulgado ao vivo?

Uma montagem com vídeos gravados em dois hospitais egípcios nas cidades de al-Husseiniya e Zefta viralizou recentemente nas redes sociais, demonstrando a importância do papel da câmera do telefone móvel. As gravações registraram o momento em que tanques de oxigênio se esvaziaram, levando à morte por asfixia de todos os pacientes nas unidades de terapia intensiva (UTIs) para pacientes com coronavírus.

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O incidente despertou questões. Como algo assim pode acontecer? Como simplesmente acaba o oxigênio em um hospital bem estruturado, em um país como o Egito?

Em resposta ao episódio, o subsecretário do Ministério da Saúde do Egito emitiu uma declaração fabricada, ao negar a falta de oxigênio nos tanques e alegar a presença de dezenas de tanques completos nas instalações do hospital. Se não fosse o vídeo, as pessoas teriam acreditado na sua versão.

O que podemos concluir deste incidente? Primeiro, caso não houvesse evidência em vídeo, ninguém de fato saberia do que aconteceu e a questão permaneceria restrita a algumas poucas pessoas, sem direito à voz. O incidente seria reduzido a uma morte “normal”, esperada em pacientes com coronavírus.

Em qualquer governo que respeite a vida humana, um oficial de alto escalão renunciaria, e a própria administração do hospital seria responsabilizada, junto ainda do Ministro da Saúde e seu subsecretário claramente mentiroso – cujo logro é familiar aos cidadãos árabes em situações do tipo. De modo flagrante, o oficial egípcio tentou encobrir os fatos, distorcer a verdade e mesmo acusar quem gravou o vídeo pelo problema.

Se mesmo uma questão relativa à saúde humana é tratada deste modo, com tamanha fraude e manipulação, ao negar até evidências em vídeo, podemos então imaginar as condições daqueles que perecem nas sinistras prisões de um regime autoritário como este liderado pelo general Abdel Fattah el-Sisi. Assim, prevalecem dúvidas sobre os cantos obscuros, onde o olho não bate, de repressão à resistência e oposição, a fim de erradicá-las, e como esta política leva a julgamentos fraudulentos que determinam décadas de prisão ou pena capital.

Governos semelhantes de fato existem – há até mesmo piores. O mesmo se aplica a dezenas de prisioneiros políticos em países árabes, dos quais temos pouca ou nenhuma informação, engolidos pelas trevas até o dia de sua morte dentro das prisões, ou à espera de uma soltura condicional, desfigurados em corpo e espírito após longos anos de cárcere – muitas vezes, sem qualquer acusação clara.

A tecnologia, no entanto, dificultou efetivamente as práticas da ditadura e opressão.

Por exemplo, um gesto de solidariedade e protesto foi manifestado pelos participantes do Rali Dakar, uma corrida de carros de longa distância, realizada na Arábia Saudita. Os competidores decidiram passar pela prisão na qual a ativista saudita Loujain al-Hathloul permanece detida. A razão de sua prisão é sua luta pelo direito das mulheres na Arábia Saudita. O gesto foi combinado após Minky Worden, diretor de iniciativas internacionais da organização Human Rights Watch, expressar um apelo aos participantes do Rali Dakar para erguer a bandeira dos direitos humanos em solo saudita, à medida que mulheres continuam presas devido à simples demanda pelo direito de dirigir.

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Há aqueles que lavam as mãos a crimes cometidos por regimes em todo o mundo contra seu próprio povo, com base em alianças geopolíticas, por exemplo, como lealdades estipuladas aos Estados Unidos e Israel. Sim, isso existe. Há governos que trabalham diretamente para as intervenções americanas ou mesmo para a ocupação israelense e há regimes que se tornam alvos de ambos os países.

Mas depois de quase um século de luta nacional dos povos árabes – especialmente, contra o movimento sionista, o colonialismo e a ocupação –, a verdadeira marca de um regime ainda é sua atitude em relação a seu próprio povo. Primeiro e mais importante, essencialmente, é questionar como o governo valoriza seus cidadãos; como lida com as forças da oposição; como aplica sua autoridade, força e riqueza; e qual o nível de corrupção do regime. Esta é a verdadeira marca e critério mais efetivo para observar os diversos regimes no mundo como um todo e na região do Oriente Médio, em particular.

A ocupação israelense não é diferente em suas práticas repressivas, criminosas e fascistas contra os presos palestinos. Seu comportamento é análogo às práticas opressivas dos regimes árabes contra seus cidadãos, assim como é também hostil à imprensa, aos jornalistas, às câmeras. A ocupação israelense pode fazê-lo e de fato já assassinou jornalistas que exerciam seu papel de expor crimes cometidos em solo palestino, contra aqueles cuja única demanda é justiça e liberdade.

Traduzido da rede Arab48, 6 de janeiro de 2021

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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