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‘Quero mostrar a todos o poder de nossas mulheres’, afirma primeira patinadora de hijab do mundo

A patinadora do gelo Zahra Lari compete pelo Troféu FBMA, em Abu Dhabi, Emirados Árabes Unidos, em 5 de janeiro de 2017 [Tom Dulat/Getty Images]
A patinadora do gelo Zahra Lari compete pelo Troféu FBMA, em Abu Dhabi, Emirados Árabes Unidos, em 5 de janeiro de 2017 [Tom Dulat/Getty Images]

Ao longo dos últimos anos, o número de mulheres do Oriente Médio competindo em eventos esportivos internacionais aumentou significativamente. O teto de vidro parece ter se quebrado. Entre tais atletas, está a patinadora artística Zahra Lari, que acredita na importância de inspirar as mulheres árabes a romper estereótipos, simplesmente pelo fato de que podem fazê-lo.

Nascida e criada em Abu Dhabi, Lari fez história em 2017, como a primeira patinadora do gelo a competir com um hijab, em nível internacional. Embora seja uma conquista e tanto, chegar a tal ponto de sua carreira não ocorreu sem árduas lutas e obstáculos. Tradições familiares e tabus tendem a atrapalhar as carreiras de atletas mulheres da região, que desejam competir entre as melhores.

Em 2012, em sua primeira competição majoritária – a Copa Europeia, em Canazei, Itália –, o véu mostrou-se um problema. Os juízes subtraíram pontos de sua performance por uma violação de vestimenta. “Mas isso não me incomodou”, relatou-me Lari. “Eu sabia que tinha de fazer algo para que isso jamais voltasse a acontecer, tivemos de nos encontrar com oficiais que queriam ver eu competir em meu hijab, para então garantir que não fosse um risco”.

Sua iniciativa atraiu a atenção da Nike, à medida que a marca procurava uma atleta usuária do véu islâmico para uma campanha que promovia derrubar barreiras. A empresa, assim, tornou-se a primeira indústria de aparatos esportivos a oferecer um hijab tradicional especificamente para fins esportivos.

A campanha serviu bem aos esforços maiores de Lari, com o objetivo de romper estigmas às mulheres muçulmanas, para que pudessem participar de todos os tipos de atividades esportivas. Seu impacto já é notório: Lari consta na lista deste ano “30 abaixo de 30”, divulgada pela revista Forbes, que reconhece os 600 indivíduos mais inovadores e influentes do mundo, em diversos campos, até 30 anos de idade.

“Sem o meu hijab, eu não seria Zahra Lari”, reiterou a atleta. “Meu hijab é parte de mim. A primeira vez que competi com o véu, não pensei muito no assunto; não pensei que seria diferente. Eu era jovem e estava focada na competição”. Somente quando encerrou sua performance, Lari percebeu ter feito história. “Foi um sentimento arrebatador, difícil de explicar porque, a partir daquele momento, as coisas jamais voltariam a ser como eram antes. Senti-me entusiasmada e queria mostrar ao mundo que as mulheres emiradenses são poderosas e determinadas”.

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Embora muitas atletas muçulmanas surjam através de suas associações nacionais, alguns esportes ainda não conseguem suprir as necessidades específicas destas mulheres, como seu código de vestimenta. Trata-se de uma barreira institucional. A Federação Internacional de Basquetebol (FIBA), por exemplo, proíbe as jogadoras de usar o véu, ao alegar questões de saúde e segurança.

A Federação Internacional de Futebol (FIFA) também baniu o uso de lenços na cabeça, em 2007, sob receios de que pudesse causar acidentes em campo. Quando atletas iranianas recusaram-se a jogar uma partida eliminatória para as Olimpíadas de Londres, caso não pudessem vestir o hijab, a equipe foi prontamente desqualificada. O Irã protestou e levou a questão às Nações Unidas. Em 2014, após muito debate, esclarecimentos e “testes de segurança”, a FIFA voltou atrás em sua proibição. Então, comemorou a decisão como avanço multicultural, no melhor dos interesses das competições.

Patinadora Zahra Lari fotografada na Cidade do Esporte de Zayed, em Abu Dhabi, Emirados Árabes Unidos. 13 de setembro de 2019 [Irmãos Bukhash]

Patinadora Zahra Lari fotografada na Cidade do Esporte de Zayed, em Abu Dhabi, Emirados Árabes Unidos. 13 de setembro de 2019 [Irmãos Bukhash]

Nas Olimpíadas do Rio de Janeiro, em 2016, a esgrimista Ibtihaj Muhammad, de Nova Iorque, tornou-se a primeira atleta olímpica a competir com hijab pela delegação dos Estados Unidos. Como se não bastasse, ganhou uma medalha de bronze na competição por equipes da modalidade.

Este feito histórico, relembra Lari, demonstrou grandes mudanças nos últimos anos. “As coisas estão caminhando aos poucos para onde devem estar. Você pode ver nossas mulheres em todos os esportes imagináveis e são muito bem-sucedidas! Este sempre foi o meu sonho: ver mulheres do Oriente Médio competindo no mais alto nível esportivo. E está acontecendo!”

Segundo a atleta, foi o esporte que lhe concedeu a autoconfiança que possui hoje. Após assistir o filme “Sonhos no Gelo” (“Ice Princess”), lançado pela Disney em 2005, quando tinha 11 anos de idade, Lari anunciou à sua família que queria tornar-se patinadora artística.

Agora com 25 anos, cinco vezes campeã nacional emiradense, a carreira de Lari é gerenciada por sua mãe, Roquiya Cochran, que nasceu nos Estados Unidos, diretora executiva do Clube de Patinação dos Emirados Árabes Unidos. O clube foi fundado pelo pai de Lari, Fadhel, que inicialmente demonstrou preocupação, ao proibir a filha de concorrer devido às perspectivas conservadoras da região, segundo as quais um esporte sério jamais seria apropriado a atletas mulheres. Dez anos atrás, de fato, combater tais paradigmas tratava-se de um conceito relativamente novo. Contudo, Fadhel eventualmente mudou de ideia, ao reconhecer a paixão de sua filha, enquanto torcia para amigos que competiam no esporte.

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Um de seus momentos de maior orgulho foi quando tornou-se a primeira – e única – atleta emiradense a representar sua nação nos Jogos Universitários de Inverno de 2019, em Krasnoyarsk, Rússia. “Tenho enorme orgulho de levantar nossa bandeira ao redor do mundo”, declarou Lari. “Também fico feliz em ver outras meninas que estão começando por minha causa. Quero sempre dar o meu melhor para elas!”

Evidentemente, ainda há progresso a ser feito. “Tive de enfrentar muitos desafios e obstáculos. Para ser honesta, os desafios nunca acabam. Superado um deles, outro aparece. Mas aprendi a me concentrar na solução, pois a coisa mais importante é manter o foco em nosso objetivo e trabalhar duro para alcançá-lo”.

O último ano foi marcado por metas bastante agressivas, em termos de prática. Em um dia normal, Lari acorda às 4h30 da manhã e dirige até o ringue de patinação para treinar até as 7h30. Então, vai à universidade onde estuda saúde e segurança ambiental, antes de retornar ao ringue para continuar a patinar e erguer pesos. Nesta agenda, Lari tem de fazer malabarismos com seus deveres de casa, encontros com patrocinadores e entrevistas.

Para ela, as qualidades mais importantes para superar as dúvidas alheias em relação à sua capacidade e sucesso é sua própria determinação, paixão pelo esporte e trabalho duro. “Na minha opinião, caso uma pessoa apresente essas características, pode facilmente ser bem-sucedida em qualquer esporte. Encontre o que você ama fazer e dê 110% todos os dias. Então seus sonhos serão realidade!”

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Patinadora Zahra Lari fotografada na Cidade do Esporte de Zayed, em Abu Dhabi, Emirados Árabes Unidos. 13 de setembro de 2019 [Irmãos Bukhash]

Patinadora Zahra Lari fotografada na Cidade do Esporte de Zayed, em Abu Dhabi, Emirados Árabes Unidos. 13 de setembro de 2019 [Irmãos Bukhash]

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