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Iêmen oscila às margens da destruição absoluta

Jovem iemenita observa os destroços deixados por ataques aéreos executados pela coalizão saudita em Sanaa, capital do Iêmen, 2 de julho de 2020 [Mohammed Hamoud/Getty Images]
Jovem iemenita observa os destroços deixados por ataques aéreos executados pela coalizão saudita em Sanaa, capital do Iêmen, 2 de julho de 2020 [Mohammed Hamoud/Getty Images]

Há algum tempo, o Iêmen é foco de conflitos. Anos de guerra concomitantes a uma batalha de egos converteram o país mais rico em recursos naturais no Oriente Médio no estado mais pobre da região. O violento playground no qual tornou-se o Iêmen produz confrontos intermináveis entre agentes domésticos, regionais e internacionais. O próximo ano viverá o sexto aniversário da guerra, que atinge proporções de catástrofe.

O campo de batalha menos noticiado do mundo custou mais de 250.000 vidas, com 80% da população em necessidade crítica de ajuda humanitária, além de 3.6 milhões de deslocados internos. A pandemia de covid-19 exacerbou ainda mais a devastação e o colapso de uma infraestrutura já primitiva, frágil e dizimada, há anos à mercê de ataques de drones. A cólera persiste como ameaça, com 180.000 casos registrados somente nos primeiros oito meses de 2020. As atividades econômicas no Iêmen caíram em 50%, com aumento da taxa de pobreza a 80% da população.

A ONU reporta que, em meados de 2021, cinco milhões de iemenitas terão recaído a níveis críticos de inanição. Cerca de 150.000 crianças já morreram de fome no país. Segundo estimativas das Nações Unidas, a mortalidade no Iêmen é cinco vezes maior que a média global, número previsto para piorar conforme secam recursos assistenciais, devido à recessão em todo o mundo. Algumas agências humanitárias, incluindo aquelas que fornecem assistência alimentar, já tiveram de encerrar suas operações. Sem sombra de dúvida, mesmo que a guerra no Iêmen chegue ao fim dentro dos próximos dez anos, o desenvolvimento do país será comprometido por gerações e gerações.

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Às vésperas de deixar a Casa Branca, o atual presidente americano Donald Trump decidiu designar o movimento houthi como organização terrorista internacional. Incontestavelmente, a manobra carrega enorme motivação política, pois seus objetivos não são apenas aumentar a pressão sobre o Irã e aliados, mas também atravancar os futuros esforços do presidente eleito Joe Biden para renegociar o acordo nuclear iraniano, revogado por Trump, em 2018. A designação como órgão terrorista é irresponsável, pois efetivamente impede o trabalho de entidades humanitárias que lutam para fornecer comida e outros bens essenciais aos iemenitas, na região norte do país árabe, controlada pelos houthis. Portanto, agrava uma situação já precária, na qual 24 milhões de pessoas dependem de ajuda para sobreviver. Além disso, doadores internacionais e empresas privadas, como aquelas que tratam do envio comercial de produtos, serão desencorajados a operar no Iêmen, sob receios de sanções americanas. A ONU, por exemplo, recebeu menos da metade dos US$3.4 bilhões solicitados para o orçamento humanitário, neste ano.

Mulher iemenita recebe tratamento médico para cólera, em Sanaa, Iêmen, 10 de março de 2019 [Mohammed Hamoud/Agência Anadolu]

Mulher iemenita recebe tratamento médico para cólera, em Sanaa, Iêmen, 10 de março de 2019 [Mohammed Hamoud/Agência Anadolu]

O ônus de reverter o pior desastre humanitário do mundo cabe então aos Estados Unidos, dado que, sem o devido apoio americano, a coalizão liderada pela Arábia Saudita jamais poderia intervir no Iêmen para tentar restaurar o presidente Abd Rabbuh Mansur Hadi ao poder, desde 2015, quando lançou uma violenta campanha aérea sobre o território vizinho. Durante seu mandato, Trump aumentou cada vez mais o apoio americano à guerra no Iêmen e chegou a vetar um projeto de lei cujo propósito era encerrar o envolvimento de Washington no conflito.

Sem dúvida, os interesses dos Estados Unidos no Oriente Médio dependem fundamentalmente da estabilidade imposta sobre a região do Golfo. Dada a localidade estratégica do Iêmen, não somente em termos de rotas marítimas comerciais, mas também sua proximidade com aliados americanos, a situação presentemente volátil representa uma grave ameaça aos interesses de Washington.

Embora a busca pela paz tenha de ser uma iniciativa iemenita, o futuro governo dos Estados Unidos poderá ajudar bastante ao apoiar este processo, a começar com a decisão essencial de priorizar a reconciliação nacional. Quem sabe, poderá optar por uma rota alternativa.

Diante da atual situação em campo no Iêmen, os prospectos de reconciliação nacional parecem distantes, apesar dos esforços da ONU. As conversas de paz estão suspensas e ambos os lados cavam trincheiras cada vez mais profundas sobre suas respectivas posições. Esforços internacionais promovidos pelas Nações Unidas também sofrem de uma falta clara e significativa de apoio por parte dos Estados Unidos. Entretanto, uma rota de longo prazo, cujo pressuposto é um passo de cada vez, em direção à paz, pode mudar toda a conjuntura.

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Desde o primeiro momento em que pisar na Casa Branca, Biden encontrará uma oportunidade de ouro para salvar milhões de vidas iemenitas. Dentro dos cem primeiros dias de seu mandato, o futuro presidente poderá mediar um cessar-fogo duradouro entre a coalizão saudita e os rebeldes houthis, capaz ao menos de construir um acordo interino para conceder salvo-conduto à ajuda humanitária.

A seguir, o governo Biden poderá cumprir suas promessas feitas durante a campanha eleitoral, ao retirar apoio efetivo das forças de coalizão, em termos de recursos financeiros e armamentos. É preciso destacar que os Estados Unidos têm a influência precisa para persuadir ou mesmo coagir as partes envolvidas na guerra a encerrar os intermináveis confrontos.

Durante a campanha, Biden foi bastante direto ao declarar oposição ao envolvimento dos Estados Unidos sobre a guerra no Iêmen e ameaçou cortar as vendas de armas aos países da coalizão saudita. Caso cumpra com sua palavra, há aqui uma oportunidade – embora bastante estreita – para poupar o Iêmen da destruição absoluta. Como estão agora, no entanto, o país e sua população oscilam à margem do abismo.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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