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O mito da ancestralidade judaica

O Templo de Salomão no brasil [wikimedia]
O Templo de Salomão no brasil [wikimedia]

De uns anos pra cá tem-se observado uma febre pela busca de uma certa “ancestralidade judaica”.

Nos grupos de genealogia pelo Brasil, e com as novas leis de nacionalidade portuguesa e espanhola, isso tem se tornado um nicho não só pela busca das “origens”, mas um mercado lucrativo para escritórios de advocacia que realizam o sonho de uma segunda cidadania e, neste caso, europeia.

É bem verdade – e a História está aí para nos provar os fatos bem registrados e compartilhados – que o Brasil, e a América Latina como um todo, foram o refúgio para muitos cristãos-novos de religiosidade original muçulmana e judaica, e também de tradição espiritual cigana, visto que a Península Ibérica foi um califado mouro, onde conviviam pacificamente muçulmanos e judeus de etnias árabe, magrebina, berbere e outras.

Vindos da Ásia e do norte da África, principalmente Marrocos e Iêmen, estes mouros “conquistaram” a Península Ibérica por séculos e bem antes disso a sua presença era uma realidade juntamente com visigodos, alanos, galegos e demais “bárbaros” nativos daquela região, o que viria a formar o que chamamos de Península Ibérica (Espanha e Portugal).

Acontece que nem tudo que reluz é ouro e, me parece, temos uma sina incorrigível para uma busca pela “boa linhagem”, pela origem nobre e prestigiosa, preferencialmente com ascendência “real”. Quantos e quantas não tem feito isso e se ufanado qual estivessem acima da média, com sangue tão azul!

No Maranhão somos a “Atenas” e temos construído como memória um passado virtualmente “francês” em São Luís. Todo um mito de origem, para usar Lévi Strauss, que chega a cegar nossa realidade, distorcendo com palavras o mais sensato caminho do rigor científico.

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É para combater estes ‘bovarismos” que um Lima Barreto ou Sancho Pança têm sempre que surgir, vez ou outra, trazendo à reflexão e à sensatez o seu companheiro visionário Dom Quixote:

“Dom, não são dragões! São apenas moinhos. Não seria bom rever?”

“Acontece que nem tudo que reluz é ouro e, me parece, temos uma sina incorrigível para uma busca pela “boa linhagem”, pela origem nobre e prestigiosa, preferencialmente com ascendência “real”. Quantos e quantas não tem feito isso e se ufanado qual estivessem acima da média, com sangue tão azul!”

Na Península Ibérica grassava a “limpieza de sangre”, perseguindo tudo que não era cristão. Naquele Reino ou Estado Cristão, ter outra fé ou crença era uma sentença de morte, um risco grave e uma afronta a El Rey. Ainda mais, naquele momento, com o casamento dos reis católicos Isabel e Fernando, que tomaram Granada e o califado de Córdoba, pondo fim de uma vez à paz religiosa que durara quase um milênio e, assim, fazer a devassa ao “sangue” mourisco, cigano, maçom e judeu.

Assim, posta estava a Santa Inquisição, um período de perseguição cruel ao diferente, que desembocaria ultramar para desespero dos degredados no Brasil.

O ponto que se faz aqui é o de entender essa linguagem cristã-inquisitorial, compreender que o termo “judeu” tentava designar a um grupo religioso como uma “raça maldita”, assassina do Senhor Jesus Cristo e que não aceitara a sua graça no tempo oportuno; o seu castigo foi a perseguição e viverem na “errância” ad eternum.

Porém, isso, se sabe, é tradição. E uma tradição que, além de não coadunar com a verdade, se perpetuou como o sendo até os dias atuais, mesmo entre historiadores mais “compromissados” e bem intencionados.

O mito do “judeu errante” se impregnou na mentalidade cristã europeia. Estes os tinham como “estrangeiros” e “raça”, não bastando o batismo para limpar-lhes o passado “judaizante”. Ser judeu era um estigma, uma nódoa. Estava no “sangue” e sem remédio.

Tal mentalidade formou, em todo o velho continente, uma noção teórica racial de matiz cultural, tendo seu ápice no lll Reich, quando a linguagem racial e de segregação a certas minorias conduziram a consequências catastróficas e desumanas.

Acontece que os judeus, além de nunca terem sido uma “raça”, nunca foram expulsos da Palestina no ano 70 DC (EC), como muitos ainda pensam. O mito do “judeu errante” inicia com Justino, o Mártir, em seus “Diálogos com Trifão”. Nesta obra, Justino constrói uma tradição que fez dos judeus uma “raça” condenada à errância pelo mundo como castigo pelo alegado assassínio de Deus.

O que houve, é certo, foi uma grande propagação do javismo-eloísmo (atualmente o judaísmo) pela Ásia, África e Europa, como uma religião de conquista, assim como o Islã e o Cristianismo. Não foi, portanto, uma errância de pessoas, mas de uma religião.

“O mito do ‘judeu errante’ se impregnou na mentalidade cristã europeia. Estes os tinham como ‘estrangeiros’ e ‘raça’, não bastando o batismo para limpar-lhes o passado ‘judaizante’. Ser judeu era um estigma, uma nódoa. Estava no ‘sangue’ e sem remédio”.

O historiador israelense Shlomo Sand, em seu livro “A Invenção do Povo Judeu”, faz uma explanação do movimento do judaísmo pelo mundo, que vai do Reino da Judeia até Adiabena e Kazária, nos mostrando como os judeus são uma grande comunidade religiosa formada por várias etnias, e não por um “gene” comum que os entrelaça a todos num discurso essencialista e etnocêntrico. Tal abordagem foi desconstruída pelo geneticista Eran Elhaik, também israelense, que diz ser toda essa discussão em torno da “genética judaica” uma grande “bobagem”.

Sand, expulso da Universidade de Tel Aviv e da “única democracia do Oriente Médio”, Israel, após publicar seu primeiro livro, ainda publicaria “A Invenção da Terra de Israel” e “A Invenção do Judeu Secular” – secularismo judaico que está na moda atualmente no Maranhão e Brasil, abafando nossa história sangrenta de racismo e limpeza étnica indígena em troca de um passado mais prestigioso -, faz uma releitura de outros historiadores esquecidos e relegados ao limbo para dar lugar a uma historiografia sionista colonial.

Dentre estes historiadores estão Arthur Koetler, autor de “A Décima Terceira Tribo”, e Victor Klemperer, filólogo alemão autor de “LTI – Linguagem do Terceiro Reich”. Nestas obras, tentavam combater o antijudaísmo (hoje antissemitismo) e as teorias raciais europeias que tinham nos judeus uma “etnia”.

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O filólogo Klemperer, a exemplo, discute como a linguagem foi crucial para promover a barbárie na Alemanha e Koestler desenvolve seu ensaio para dizer que os judeus não eram estrangeiros, muito menos uma raça, mas tão franceses, alemães, suíços, poloneses, eslavos e europeus quanto os demais destas nacionalidades, com todo direito de viver seu judaísmo, ainda que num país majoritariamente cristão. Nada adiantou! E a perseguição pautada na intolerância religiosa, e que se quis “racial”, alastrou-se.

Esta mesma mentalidade se impregnou em pesquisas no Brasil: a de que muitos de nós descendem de “judeus”.

Na defesa de uma “ancestralidade judaica” temos historiadores como Anita Novinsky e Maria Liberman, que escreveram, inclusive sobre personagens da história maranhense, a saber, Manoel Gunthard Beckman, pintando-o judeu e dando por prova as delações da Inquisição feitas, muitas vezes, sob tortura.

“O historiador israelense Shlomo Sand, em seu livro ‘A Invenção do Povo Judeu’, faz uma explanação do movimento do judaísmo pelo mundo, que vai do Reino da Judeia até Adiabena e Kazária, nos mostrando como os judeus são uma grande comunidade religiosa formada por várias etnias, e não por um ‘gene’ comum que os entrelaça a todos num discurso essencialista e etnocêntrico.”

Costuma-se, deste modo, dizer que a Inquisição produziu judeus a granel. Não muito diferente da produção de “comunistas” nas ditaduras latino-americanas.

Ora, é claro que temos antepassados cristãos-novos. Eu mesmo estou cheio deles nas minhas ramificações das famílias Sousa, Araújo, Sena, Tibúrcio, Rocha, Mafra e tantas outras.

Mas o que quero dizer é que um sobrenome não me faz “judeu” e, muito menos, ter o sangue de Branca Dias, do teatrólogo Antônio José da Silva (queimado em auto de fé na Inquisição), ou qualquer outro cristão-novo reconhecido, correndo mas minhas veias. Isso significa apenas que tenho elos parentais com estes e estas, sendo um grande absurdo, perigoso e ridículo, fazer disso uma “ancestralidade judaica”, uma prova de que descendo de “judeus”. Não! Pelo simples fato de não ser uma questão de sangue. Ser “judeu” é seguir o judaísmo, é viver uma fé. Não uma Biologia como se está promovendo no Brasil.

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Qualquer pesquisador que assim o faz e propaga, com um ufanismo infantil, reverbera uma falsificação histórica; é digno de desprezo e pena, pois engana as pessoas, as conduz a uma cegueira e erro teórico, manchando assim a ciência, a pesquisa séria e rigorosa.

Sem refletirem, estão trazendo as mesmas teorias raciais europeias dos antijudeus e da “limpieza de sangre”.

Incrivelmente, naqueles tempos era antissemita quem considerava o judeu uma raça; hoje se acusa de antissemita quem não os considera. Ou seja: está-se retornando às mesmas trevas medievais do racismo e, mais perigoso ainda, está-se usando a História e a academia para divulgar essa ideia que é, no seu “gene”, antijudaica e racista.

Publicado originalmente em fepal.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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