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Uma Líbia unida pós-colonial parece cada vez mais um sonho distante

Khalifa Haftar, autoproclamado chefe do Estado-Maior do Exército Nacional da Líbia (ENL), chega a Villa Igiea, Palermo, Itália, para conferência sobre a questão líbia, em 12 de novembro de 2018 [Filippo Monteforte/AFP/Getty Images]
Khalifa Haftar, autoproclamado chefe do Estado-Maior do Exército Nacional da Líbia (ENL), chega a Villa Igiea, Palermo, Itália, para conferência sobre a questão líbia, em 12 de novembro de 2018 [Filippo Monteforte/AFP/Getty Images]

Poucos viram ou ouviram falar da bandeira negra de Cirenaica, região da costa oriental da Líbia, com sua lua crescente e estrela – uma versão em fundo preto da bandeira turca, talvez. Contudo, os eventos decorrentes desde a queda do longevo ditador líbio Muammar Gaddafi, em 2011, tornaram-na cada vez mais visível.

Após o êxito dos revolucionário líbios, com apoio da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), em depor o velho regime, anos de conflitos entre os rebeldes tomaram o país, antes da criação do Governo de União Nacional, reconhecido pelas Nações Unidas. Apesar de suas muitas imperfeições, o governo conseguiu, surpreendentemente, manter seus aliados paramilitares em combate contra o marechal de campo Khalifa Haftar e suas milícias.

A ofensiva brutal de Haftar sobre a capital Trípoli, ao longo de um ano, deixou como rastro diversas covas coletivas. Porém, foi derrotada neste ano pelas tropas do governo e ambos os lados enfim anunciaram um cessar-fogo imediato, em outubro último. A trégua perdura, por ora, diferente de diversos outros pactos instituídos antes.

Com negociações em curso e ambos, governo e Haftar, de acordo sobre um roteiro para implementação do cessar-fogo, um ponto crucial para o processo é representado pela cidade de Sirte. Localizada na região central da costa densamente povoada da Líbia, rica em petróleo e gás natural, Sirte é cenário de avanços até então malsucedidos, por parte do governo, a fim de conquistar maior vantagem nas negociações. Agora, é justamente a cidade na qual ocorrem as conversas da comissão militar conjunta.

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As tensões de fato desescalaram vigorosamente e um processo político parece mais próximo; todavia, movimentos políticos e separatistas de longa data, com raízes em milhares de anos da história líbia, voltaram à superfície. Os gregos, romanos, árabes e otomanos, todos fizeram distinção entre Tripolitana, no oeste do país, e Cirenaica, na região oriental das terras conhecidas como Líbia. Mesmo os colonizadores italianos construíram seu arco do triunfo na chamada Via Balbia, estrada perto da cidade de Ra’s Lanuf, na década de 1930, a fim de marcar fronteira entre as regiões. Hoje, o conceito de uma Líbia federalizada emergiu novamente, como ocorreu vez e outra, ao longo do século passado.

Em 2013, durante a guerra civil, um movimento autônomo liderado por um líder tribal e ex-comandante da aeronáutica, originário do leste da Líbia, proclamou o estabelecimento de um governo próprio em Cirenaica. Em setembro daquele ano, forças orientais instituíram o Conselho Supremo de Cirenaica, que reivindicava autonomia, como determinado pela Constituição de 1951, a fim de governar três províncias distintas do país.

Cirenaica – em árabe, Barqa – é uma faixa de terra que vai de Sirte à fronteira com o Egito, cobrindo as cidades costeiras estratégicas de Benghazi e Tobruk, além do Grande Mar de Areia e campos de petróleo que detêm cerca de 80% das reservas nacionais. No oeste, situa-se Tripolitana, com suas próprias cidades litorâneas, como Misrata e a capital Trípoli, além de campos de petróleo menores. Além disso, há Fezzan a sudoeste, um vasto deserto estéril com alguns oásis e vales áridos.

Com sua geografia histórica própria, a “Líbia” sempre foi resultado de hegemonia política do estado-nação, ao invés de vontade orgânica dos povos nativos, divisão frequente entre nações colonizadas. Os apoiadores mais enfáticos de um sistema mais autônomo na Líbia são justamente os separatistas de Cirenaica, que parecem ressentir os habitantes de Tripolitana, devido às tentativas da capital de colonizar o leste.

Sob Gaddafi, o sistema federal tornou-se impossível; após sua deposição e a guerra civil subsequente, tornou-se possível, mas improvável. Agora, enfim, parece provável. Contudo, com o país dividido entre o governo ocidental e Haftar, no leste, ambos apoiados por estados estrangeiros e mercenários, a velha fronteira entre Tripolitana e Cirenaica mais uma vez resguarda uma chance própria de impor distinção e autonomia entre as partes.

A realidade do conflito líbio é que Haftar mantém e continuará suficientemente obstinado para agarrar-se ao poder na região oriental do país. O Governo de União Nacional, com sede em Trípoli, entretanto, há pouco conseguiu repelir uma ofensiva brutal e decerto não deseja ceder terreno algum. O projeto de Haftar para conquistar e anexar a capital em sua própria versão “unificada” da Líbia fracassou efetivamente, mas o governo ocidental jamais expressou qualquer intenção de controlar Benghazi, Tobruk ou ambos.

Haftar, o sanguinário [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

Haftar, o sanguinário [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

Hoje, o país é deixado quase perfeitamente dividido, com a “fronteira” entre os lados marcada pela cidade de Sirte, sede das conversas no futuro próximo. A agenda pode muito bem incluir a questão da partilha.

Caso negociações na Líbia não sejam bem-sucedidas e Haftar ou o governo decidam voltar aos embates, a desintegração do país como conhecemos deverá ser considerada. Portanto, é provável que os apelos de Cirenaica por autonomia, além da região de Fezzan, em menor escala, cresçam conforme prevalece a incerteza política. Não importa o que acontecer em seguida, a única certeza no momento é que a Líbia jamais esteve tão dividida como estado-nação e propensa à desintegração ou federalismo. Uma Líbia unida pós-colonial parece cada vez mais um sonho distante.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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