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Relembrando a morte de Muammar Gaddafi

O que: A morte de Muammar Gaddafi

Onde: Sirte, Líbia

Quando: 20 de outubro de 2011

O que aconteceu?

Após o levante e a revolução líbia em 2011, o ditador Muammar Gaddafi foi deposto e morto nas ruas da Líbia, encerrando quatro décadas de poder autoritário sobre o país norte-africano rico em petróleo.

Nascido em 7 de junho de 1942, na cidade de Sirte, e criado em uma tenda beduína no deserto líbio, Gaddafi pertenceu a uma família tribal de nome Al-Qadhafah, em uma era na qual a Líbia vivia sob domínio colonial da Itália. O país ganhou independência em 1951, sob o governo do Rei Idris, aliado das potências ocidentais. Em 1961, Gaddafi entrou no colégio militar na cidade de Benghazi, influenciado principalmente pela ascensão do movimento árabe-nacionalista identificado pela figura ideológica do Presidente do Egito Gamal Abdel Nasser.

Após completar seu treinamento militar – incluindo quatro meses no Reino Unido – Gaddafi formou-se e logo começou a crescer na hierarquia do Exército da Líbia. Um movimento de jovens oficiais também emergiu nos anos seguintes, conforme a sociedade cada vez mais se sentia descontente com o governo do Rei Idris. Neste grupo de oficiais, teve início a liderança de Gaddafi.

Em 1° de setembro de 1969, enquanto o monarca líbio estava na Turquia para receber tratamento médico, os jovens oficiais o depuseram com Gaddafi como seu líder. Aos 27 anos de idade, o rapaz carismático foi nomeado presidente do Conselho do Comando Revolucionário e chefe das Forças Armadas.

Muammar Gaddafi em sua tenda com Vladimir Putin [Wikipedia]

No poder

Uma vez presidente, as primeiras preocupações de Gaddafi foram garantir sua permanência. Particularmente, sentiu-se ameaçado por uma tentativa de golpe executada por alguns de seus colegas oficiais em dezembro de 1969, em resposta a leis introduzidas por ele que proibiram e criminalizaram quaisquer protestos e dissidência política.

Um elemento fundamental de seu governo foi o veemente antiimperialismo, o que o levou a expulsar todos os italianos da Líbia que lá permaneceram após a independência. Além disso, ordenou o fechamento das bases militares britânicas e americanas no território líbio e exigiu que companhias de petróleo em operação na Líbia contribuíssem com maior parte de seus lucros ao governo. Gaddafi também implementou medidas religiosas e culturais contra a influência estrangeira, incluindo a substituição do calendário gregoriano pela versão islâmica e a proibição da venda de bebidas alcoólicas.

Apesar de sua popularidade inicial e do ressurgimento de um controle líbio sobre seu próprio país, o governo de Gaddafi tornou-se cada vez mais autoritário, de modo que o círculo íntimo de fiéis conselheiros no poder era composto apenas por ele e por um pequeno grupo de sócios e familiares. Há também relatos de agentes de inteligência que, sob ordem de Gaddafi, viajavam por todo o mundo para caçar, assassinar e intimidar dissidentes e cidadãos líbios que viviam no exílio.

Ao longo de seu governo, Gaddafi envolveu a Líbia em uma série de conflitos – tanto direto quanto indiretamente. Por exemplo, as guerras civis no Líbano e Sudão, além de Egito, Chade e Tanzânia. Em 1986, a Líbia foi bombardeada pelos Estados Unidos. A maior parte destes conflitos resultou em derrota, retirada ou impasse para a Líbia de Gaddafi, dado apenas uma única vitória considerável. Entretanto, as alianças e intervenções militares ajudaram a projetar sua imagem tanto internacionalmente quanto – talvez mais importante – no cenário africano. Gaddafi eventualmente representou a si mesmo como “Rei da África”, ao assumir uma postura mais panafricana e menos centralizada na identidade árabe e no papel da Líbia no Oriente Médio.

Imagem internacional

Além do carisma e da forte repressão, Gaddafi tornou-se conhecido como uma figura excêntrica, ao ostentar um grupo de atraentes guarda-costas mulheres para si e substituir o terno convencional por roupas incomuns de design pseudo-africano, além de levar uma luxuosa tenda beduína para se hospedar sempre que viajava para o exterior.

Sua imagem no cenário internacional piorou com o tempo conforme Gaddafi se envolvia também com diversos movimentos e grupos paramilitares anti-ocidentais. Por exemplo, Gaddafi ajudou a fundar o IRA (Exército Republicano Irlandês) e estabeleceu vínculos significativos com movimentos de independência como o Congresso Nacional Africano (CNA), da África do Sul, cujos militantes eram treinados em campos na Líbia.

A Grã-Bretanha rompeu relações diplomáticas com a Líbia após o assassinato da policial britânica Yvonne Fletcher por um diplomata líbio em um protesto em frente à embaixada em Londres, em 1984. A Líbia de Gaddafi então foi acusada de ser responsável por um atentado a bomba contra uma boate em Berlim Ocidental, em 1986, além do atentado contra o Voo 103 da Pan Am, em 1988, que sobrevoava a cidade escocesa de Lockerbie, resultando na morte de todos os 243 passageiros, 16 membros da equipe e onze pessoas em solo.

Ocidente e morte

Da década de 1990 em diante, as relações entre o Ocidente e a Líbia começaram a melhorar quando Gaddafi persuadiu o presidente sul-africano Nelson Mandela a entregar o suspeito responsável pelo atentado de Lockerbie. Gaddafi compartilhou então informações com os serviços de inteligência dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha e desistiu de suas pesquisas sobre armas nucleares a pedido do Ocidente, em 2003. Gaddafi e sua família, incluindo seu filho Saif Al-Islam, foram acolhidos em círculos políticos ocidentais, construindo amizades próximas com líderes europeus. As sanções americanas foram suspensas e Gaddafi recebeu então ofertas de contratos bastante lucrativos de companhias estrangeiras de petróleo que, mais uma vez, desejavam operar e se estabelecer no território líbio.

Em 2011, no entanto, deflagrou-se a chamada Primavera Árabe, que começou na Tunísia e varreu todo o Oriente Médio e a região do Norte da África. O ditador tunisiano Zine El Abidine Ben Ali (1936-2019) foi o primeiro a ser deposto, seguido por Hosni Mubarak do Egito até alcançar então – após meses de protestos, violência e campanhas militares da OTAN – o governo de Muammar Gaddafi, deposto enfim e substituído pelo Conselho de Transição Nacional (CTN), reconhecido por mais de trinta países como o governo legítimo da Líbia em julho de 2011.

Khawla: Muammar Gaddafi e seus guardas [Wikipedia]

Legado

Apesar da enorme violência, repressão e injustiças em seus quarenta anos de governo, Gaddafi de fato tornou-se uma figura peculiar. Foi responsável por desenvolver a economia da Líbia em um dos países mais estáveis e prósperos do continente africano. Também publicou sua própria filosofia política e econômica em seu célebre Livro Verde, no qual destacou sua crítica ao capitalismo contemporâneo e à democracia liberal ao citar suas próprias políticas como a solução para os problemas criados. Entretanto, trata-se de um exemplo clássico de ditador, ao manter todo o poder para si mesmo, sua família imediata e seus sócios mais próximos. Pouco mostrou do suposto sistema de propriedade compartilhada de seu governo e dos comitês populares autônomos, contrariando os argumentos que ele mesmo ostentava.

A deposição e a morte de Muammar Gaddafi deixou um vazio na região, não somente na Líbia, o qual ainda não foi preenchido. A guerra civil em curso no país demonstra que, oito anos após seu assassinato por populares, a influência do ditador está longe de ser deixada para trás na Líbia pós-Gaddafi.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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