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Três senhoras, muitas mentiras e a devastação da Líbia

Ex-Secretária de Estado dos Estados Unidos Hillary Clinton conversa com Susan Rice, então embaixadora americana na ONU, em reunião do Conselho de Segurança, na sede da ONU, em Nova Iorque, 23 de setembro de 2010 [Stan Honda/AFP/Getty Images]
Ex-Secretária de Estado dos Estados Unidos Hillary Clinton conversa com Susan Rice, então embaixadora americana na ONU, em reunião do Conselho de Segurança, na sede da ONU, em Nova Iorque, 23 de setembro de 2010 [Stan Honda/AFP/Getty Images]

Hillary Clinton, Susan Rice e Samantha Power foram as três principais defensoras da guerra contra a Líbia, em 2011, que levou a nação norte-africana a uma situação de queda livre, na década seguinte. Manifestações populares eclodiram em diversas cidades líbias contra o governo do longevo ditador Muammar Gaddafi, em fevereiro de 2011, em ocasião histórica conhecida como “Primavera Árabe”, que varreu toda a região. Gaddafi foi morto em 20 de outubro. Contudo, a prometida primavera líbia tornou-se um outono devastador no qual todo o país desabou no caos, cortesia direta das três senhoras.

A então Secretária de Estado dos Estados Unidos Hillary Clinton aplicou todos os meios disponíveis de seu departamento para promover a guerra, passando por cima mesmo do Pentágono e da comunidade de inteligência americana. Oficiais de segurança e o parlamentar democrata Dennis Kucinich desconfiaram de Clinton, ao ponto de abrirem um canal alternativo com o governo de Gaddafi para tentar impedir uma guerra desnecessária contra a Líbia. Entretanto, Clinton tinha atenção do Presidente Barack Obama e o alimentava com histórias infundadas sobre o conflito no Norte da África, a fim de convencê-lo a autorizar uma intervenção militar dos Estados Unidos. Obama, em certo momento, passou a encaminhar qualquer um que debatesse a questão líbia diretamente a Clinton.

Em sua pressão por uma guerra e pela mudança coordenada de regime na Líbia, Clinton usou todos os meios a seu dispor para mobilizar aliados americanos em apoio à intervenção, sob pretexto de “proteger civis e áreas povoadas por civis”, sob suposto cerco do governo líbio. Clinton ordenou Rice, representante dos Estados Unidos no Conselho de Segurança da ONU, a angariar votos que assegurassem a aprovação da Resolução 1973, que vagamente autorizava o uso da força. A resolução de fato passou no conselho, com margem de um voto, dentre dez votos favoráveis e cinco abstenções, incluindo Rússia e China. Ao mesmo tempo, Samantha Power, oficial na equipe de segurança nacional de Obama, cuidou de promover a guerra como “intervenção humanitária” em âmbito doméstico, nos corredores do governo.

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Para Clinton, que colecionava fracassos, pressionar pela guerra na Líbia em 2011 significava não apenas utilizar seus meios como diplomata máxima dos Estados Unidos, mas também como eventual mentirosa prolífera. Mentiu ao menos duas vezes ao povo e aos parlamentares americanos, ao representar equivocadamente os eventos em campo na Líbia, na ocasião, e alegar que a mudança no regime de fato não era o objetivo real da intervenção militar, desde o princípio. Mesmo após o início dos bombardeios da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), Clinton obstruiu qualquer ponte de mediação ou representação do lado líbio da história.

Clinton continuou a distorcer a narrativa três anos depois, mesmo após seu período como Secretária de Estado. Em suas memórias, Hard Choices (Escolhas Difíceis), publicada em 2014, Clinton omitiu o papel da OTAN na mudança de regime na Líbia, ao alegar que rebeldes líbios capturaram a capital Trípoli “no fim do verão de 2011”. Naquele momento da guerra na Líbia, o bombardeio da OTAN sobre o país se expandia massivamente, para além da missão declarada de “proteger civis”, como requerido pela resolução da ONU. A mudança do regime tornou-se a solução final. O próprio Presidente Obama teve de mentir, ou foi levado a mentir por sua própria Secretária de Estado. Em seus comentários sobre o conflito líbio, datados de 23 de março de 2011, Obama descreveu a tarefa incumbida ao Exército dos Estados Unidos como proteção do “povo líbio de perigo imediato”, ao estabelecer uma zona de exclusão aérea, sem qualquer intenção de expandir a missão para “mudança do regime”, pois seria um “erro”, segundo as informações do presidente.

Secretário de Estado dos Estados Unidos John Kerry conversa com Samantha Power, então embaixador americana na ONU, em reunião do Conselho de Segurança sobre contraterrorismo, na sede da ONU, em Nova Iorque, 30 de setembro de 2015 [Spencer Platt/Getty Images]

Secretário de Estado dos Estados Unidos John Kerry conversa com Samantha Power, então embaixador americana na ONU, em reunião do Conselho de Segurança sobre contraterrorismo, na sede da ONU, em Nova Iorque, 30 de setembro de 2015 [Spencer Platt/Getty Images]

Rice, diplomata americana na ONU, tentou qualificar as mentiras de Clinton no Conselho de Segurança, ao argumentar para a possibilidade de um massacre na porção oriental da Líbia. O fato é que o governo líbio, na ocasião, respondia ao levante armado como qualquer outro governo, diante da conjuntura. Mesmo hoje, não há evidências para a alegação de que Gaddafi planejava efetivamente executar quaisquer massacres na Líbia.

A maioria dos líbios ainda lembra-se da imagem de Rice, logo após aprovada a Resolução 1973, no Conselho de Segurança, abrançando o representante líbio que desertara mais cedo. A cena de Abdurrahman Shalgham com lágrimas no olhos, nos braços de Rice, com um semblante sério, tornaram-se matéria de escárnio. Alguns apoiadores de Gaddafi chegaram a interpretar a imagem como evidência complementar da “conspiração” contra a Líbia.

Ao promover a guerra nos corredores da gestão Obama, Power utilizou o argumento histórico para criar medo de fracasso ou inação do então presidente, mesmo ao exagerar os eventos na Líbia, comparando com o genocídio de Ruanda, em 1994, no qual quase um milhão de pessoas foram mortas. Evocar a experiência de Ruanda representou uma tática deliberada para provocar a reação mais contundente possível do presidente democrata, como era na gestão de Bill Clinton, na época, sob a qual o massacre ocorreu. O mundo mais tarde descobriu que o governo Clinton sabia o que ocorria em Ruanda e preferiu ignorar. Aparentemente, Power, ao comparar a Líbia a Ruanda, queria advertir Obama para não negligenciar os eventos à sua frente e ser posteriormente acusado de inverdade – à qual aderiu, de um modo ou de outro.

Obama, em entrevista de 2016, cinco anos depois, admitiu que intervir na Líbia foi seu “pior” erro, ao acusar os líderes britânicos e franceses de coagí-lo, invés de seus próprios assessores. Nenhuma das três senhoras jamais foi responsabilizada ou sequer seriamente indagada sobre o fiasco na Líbia. Ao contrário, Power serviu posteriormente como embaixadora dos Estados Unidos na ONU, antes de ser contratada por Harvard, uma das principais universidades americanas e mais notórias instituições de ensino superior do mundo. Rice é pesquisadora da Universidade Americana em Washington. Clinton, não obstante, perdeu sua eleição para a presidência contra o candidato republicano Donald Trump, em 2016.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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