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Dr. Adib Jatene.. uma homenagem

Dr. Adib Jatene, filho de imigrantes libaneses, falecido em 2014 [Academia Nacional de Medicina]
Dr. Adib Jatene, filho de imigrantes libaneses, falecido em 2014 [Academia Nacional de Medicina]

A imigração dos árabes da Grande Síria ao Brasil remonta ao final do século XIX. A Grande Síria, ou “Bilad Al-Sham”, como é conhecida historicamente em árabe, é uma região histórica que, na Era Moderna, foi fragmentada em quatro estados independentes: Síria, Líbano, Jordânia e Palestina (que foi ocupada criminosamente por Israel, expulsando seus legítimos donos e habitantes, na famosa Nakba). De fato, destacaram-se muitos nomes entre os imigrantes (e seus descendentes) vindos da Grande Síria para ao Brasil, nos mais diversos campos. Desde a política, até o comércio e os negócios, passando pela ciência, literatura e profissões liberais. Brilharam muitos nomes e sobrenomes árabes no maior país da América Latina. E a medicina não foi exceção, havendo vários destaques entre os mais conceituados médicos das diversas especialidades clínicas e cirúrgicas. Entre estes, e um dos mais brilhantes, está o Dr. Adib Jatene, que ganhou fama e reconhecimento amplos, tanto no Brasil quanto no mundo.

O Dr. Adib Jatene nasceu no ano de 1929, no município de Xapuri-AC, na bacia amazônica, no noroeste do Brasil, filho de pais imigrantes libaneses. A cidade de origem do clã Jatene está localizada no norte do Líbano, na região de Akkar. Trata-se de um pequeno vilarejo chamado “Bait Malat”, nome composto que vem da língua siríaca (uma língua semítica antiga, o padrão mais culto do aramaico, língua de Jesus), e tem entre seus significados possíveis: “casa da palavra” ou “casa da comunidade”. Vale lembrar que a língua siríaca está presente na nomenclatura de diversas cidades e vilarejos libaneses. O pai do Dr. Adib era comerciante que servia aos seringais acreanos na região de Xapuri. Ele costumava viajar a Belém-PA para abastecer o seu comércio. Lá, em uma de suas repetidas viagens, acabou conhecendo dona Anice, imigrante libanesa também, sendo 15 anos mais nova do que ele, e acabaram se casando.

Aos 43 anos, em decorrência de uma síndrome ictérica aguda (provável hepatite viral), seu pai, Domingos Jatene,  acaba falecendo, deixando uma viúva de 28 anos (dona Anice) e quatro filhos. A morte do pai muda todo o destino da família. O sócio do comércio do pai falecido aproveita-se da situação e acaba se apossando da herança dos Jatene, deixando a viúva e os órfãos sem nada. Este sócio oportunista aproveitara-se do fato de tratar-se de uma sociedade informal, baseada somente na relação de amizade e compadrio, sem ter registro em cartório que a comprove.

Portanto, após a trágica e súbita morte do chefe da família, a dona Anice e seus quatro filhos, precoce e dolorosamente afligidos pela orfandade paterna, viram-se sem o seu único arrimo e sem recursos suficientes para sobreviver. Não restaram muitas alternativas à família a não ser transferir-se em definitivo para Uberaba-MG, onde morava um tio da jovem viúva, junto ao qual ela buscou auxílio e acolhimento. E este tio não a decepcionou, ajudando-a a montar o seu comércio do qual viria o sustento da família.

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A viagem de Acre a Minas Gerais durou semanas, e foi quase inteiramente realizada por via aquática, dividida em dois trechos: 1) fluvial, de Acre a Belém-PA; 2) marítima, de Belém-PA ao porto de Santos-SP. De Santos a Uberaba, a viagem prosseguiu por terra, serra acima, passando por São Paulo-SP, onde a família de migrantes hospedou-se no Hotel Bardauny, na famosa Rua 25 de Março, naquela época reduto comercial próspero dos imigrantes sírios e libaneses. Neste hotel, o menino Adib apresentou os primeiros sintomas febris da malária, prolongando-se a sua convalescença até semanas depois da instalação definitiva da família em Uberaba.

O Dr. Adib Jatene, no livro de sua autoria intitulado “Cartas a um Jovem Médico”, reconhece a enorme dívida que tem para com a sua mãe, e admira a sua postura de abnegação e altruísmo demonstrados pela sua dedicação absoluta e exclusiva aos filhos, após a morte do marido. Embora ainda jovem e bonita, a viúva dona Anice recusou-se a contrair novo matrimônio, abrindo mão de um direito legítimo e natural, em prol da criação e educação dos filhos. Conta, ainda, o Dr. Jatene, neste mesmo livro, a lembrança que tem da sua mãe recebendo hóspedes conterrâneos em casa, para a leitura do romance árabe histórico de título Antar (célebre poeta e guerreiro da Arábia pré-islâmica), obra que mistura ficção com realidade e poesia.

O Dr. Jatene reconhece a gratidão que tem pelo dono do colégio externo no qual estudou em Minas Gerais. Era um senhor cego de nascença, extremamente culto, e que sempre solicitava a terceiros para fazer a gentileza de ler obras da literatura clássica em voz alta. Um dos leitores era o menino Adib, que costumava ler a este erudito cego obras clássicas da literatura nacional e internacional, fato este que ampliou os horizontes intelectuais e cognitivos e enriqueceu a cultura do jovem acreano, que viria a tornar-se um dos maiores nomes da medicina brasileira.

Para poder prosseguir seus estudos, o jovem Adib teve que mudar-se para São Paulo capital, onde matriculou-se no tradicional Colégio Bandeirantes. Prepara-se com afinco para o vestibular em medicina, e acaba passando no concorrido concurso para ingressar na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). O plano inicial do jovem Jatene era formar-se médico para voltar à sua terra natal no Acre, onde sonhava exercer a profissão médica. Entretanto, eis que o jovem estudante de Medicina tem, num estágio, contato com o renomado professor Zerbini, catedrático da Faculdade de Medicina da USP. Este contato acaba mudando todo o destino e os planos iniciais do jovem Adib, de uma forma surpreendente.

O puro acaso levou o jovem estudante de Medicina Adib Jatene a estagiar com o grande cirurgião cardíaco Dr. Zerbini. Uma relação de afeição e admiração mútua desenvolve-se entre mestre e discípulo. Assim sendo, enveredar pelo caminho da cirurgia cardíaca torna-se o caminho natural e a escolha esperada para o jovem Jatene, que vem a tornar-se um dos mais brilhantes nomes da medicina e da cirurgia cardíaca de toda a História do Brasil.

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A carreira profissional, acadêmica e científica do Dr. Adib Jatene é repleta de muitas realizações, criações e inovações; e ele tem a patente de várias invenções médicas. O campo de atuação que testemunhou suas maiores inovações médicas é na cirurgia de correção de malformações cardíacas congênitas. Ele criou e desenvolveu operação cirúrgica conhecida como “cirurgia de Jatene”, que nada mais é do que uma técnica cirúrgica para a correção de uma malformação cardiovascular congênita conhecida como transposição dos vasos da base, tendo tido o Dr. Jatene a feliz proeza de ser o primeiro cirurgião de toda a história da medicina a criar e realizar com sucesso esta cirurgia. Está, também, entre as suas invenções, aparelhos circulatórios, do tipo coração-pulmão, usados nas cirurgias cardíacas. Além disso, está na lista das grandes realizações do Dr. Jatene ter sido o primeiro cirurgião no Brasil (no ano de 1969) a realizar com sucesso a cirurgia de ponte safena para revascularização miocárdica.

No currículo do Dr. Jatene constam cerca de 20 mil cirúrgicas cardíacas realizadas sob o seu comando e orientação, durante toda a sua longeva e frutífera vida que durou 85 anos. Escreveu cerca de 800 artigos médicos científicos, publicados nas revistas médicas especializadas. Ele herdou do Prof. Zerbini a cátedra de cirurgia cardíaca da Faculdade de Medicina da USP. E aqui ocorreu um fato relativamente inusitado no mundo acadêmico: o Dr. Jatene foi aprovado no concurso acadêmico para docência universitária mesmo sem possuir títulos acadêmicos de pós-graduação (como mestrado e doutorado), normalmente necessários para tal aprovação. O que prevaleceu foi o notório saber e as vastas e grandiosas realizações, criações, invenções, inovações e contribuições do Dr. Jatene no campo da Cirurgia Cardíaca.

Após obter reconhecimento nacional e internacional nos meios médico, acadêmico e científico, e tornar-se uma referência mundial em cirurgia cardíaca, e um belo exemplo de sucesso profissional, o Dr. Jatene acabou ingressando na política. Ocupou, nas décadas de 80 e 90 do século XX, vários cargos nas secretarias de Saúde e no governo federal. Foi ministro da Saúde duas vezes, nos governos de Fernando Collor de Melo e Fernando Henrique Cardoso (FHC). A sua participação política de maior expressão e destaque foi no governo FHC, ocasião na qual criou e conseguiu aprovar o CPMF, imposto destinado para financiar o Sistema Único de Saúde (SUS). Apesar do notável e louvável sucesso, e do mérito pessoal na aprovação deste inusitado imposto, o Dr. Jatene acabou renunciando ao cargo de ministro. Este fato se deve à quebra de promessa feita pelo presidente da República e o ministro da Fazenda de não mexer no orçamento original do ministério da Saúde caso a CPMF fosse aprovada pelo Congresso Nacional. O que ocorreu foi o corte considerável nos recursos destinados ao ministério da Saúde, o que fez com que o orçamento total após o imposto da CPMF ficasse ainda menor em relação ao período anterior à sua aprovação.

A trajetória do Dr. Jatene na docência universitária foi de enorme contribuição na formação de novas gerações de médicos, e no treinamento de médicos residentes na residência médica de cirurgia cardíaca. Era, além disso, um ferrenho defensor da qualidade do ensino médico, opondo-se à abertura desenfreada e descontrolada de novos cursos de medicina, que têm interesses puramente mercantis, comprometendo a qualidade do ensino, e prejudicando a formação dos médicos egressos. Defendeu a realização de exames de proficiência tanto para os recém-formados quanto para especialistas já em pleno exercício da profissão.

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A ética médica e a nobreza moral no exercício da profissão foram preocupações e interesses constantes do Dr. Jatene. Segundo a sua visão, a profissão médica deveria ficar imune e protegida do pensamento mercadológico e da cultura mercantilizada. A medicina, pois, deve ficar isolada da pressão do lucro a qualquer custo e da lógica do acúmulo financeiro. Isso não significa que o médico não deve obter, como fruto de seus esforços e dedicação, remuneração digna e honorários justos. Pelo contrário, para poder exercer bem a sua profissão, todo médico precisa ser respeitado e bem remunerado. O que é pernicioso, e que mina a relação médico-paciente, é colocar interesses mercadológicos acima dos interesses do paciente. O médico deve sempre ter em mente e colocar em prática o interesse do paciente acima de qualquer outro interesse no exercício de sua nobre profissão. Neste sentido, o Dr. Jatene lamenta as mudanças ocorridas nas últimas décadas no exercício da profissão médica, levando à perda do caráter liberal da medicina e à submissão de médicos e pacientes às vontades escusas de grupos e corporações alheios aos nobres interesses da Medicina. Isso levou a prejuízos morais e financeiros, tanto para os médicos quanto para os pacientes, uma vez que cada vez mais temos investidores e empresários lucrando com o exercício profissional médico, comprometendo muitas vezes a qualidade do atendimento e causando danos à nobre relação médico-paciente.

Esperamos ter discorrido um pouco, neste texto, sobre os principais aspectos da vida do Dr. Adib Jatene. Sem dúvida, ele foi um grande médico e uma eminente personalidade nos campos científico, acadêmico e político, nacional e internacionalmente. Mas, sobretudo, e aqui permito-me falar um pouco sobre a comunidade da qual faço parte, o Dr. Adib Jatene foi um brilhante exemplo da grande contribuição que as comunidades de imigrantes árabes (principalmente libaneses e sírios) tiveram para com o progresso e desenvolvimento do Brasil. Este fato é um motivo de inegável orgulho, honra e , mais do que isso, gratidão ao Dr. Jatene que tão honrosa e distintamente representou a nossa comunidade libanesa no Brasil. Por último, não poderia deixar de registrar, como imigrante libanês, a minha eterna e sincera gratidão ao Brasil, terra amada e abençoada que tão gentilmente me recebeu e me acolheu, assim como fez e faz com todas as comunidades árabes e de outros imigrantes. É um privilégio e dádiva únicos poder gozar da tolerância, gentileza, hospitalidade e cordialidade do Brasil.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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