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Memórias de Srebrenica despertam-se na Síria

Fazila Efendic visita os túmulos de seu marido e filho, que morreram no massacre de Srebrenica, na Bósnia, 15 de fevereiro de 2020 [Samir Jordamovic/Agência Anadolu]
Fazila Efendic visita os túmulos de seu marido e filho, que morreram no massacre de Srebrenica, na Bósnia, 15 de fevereiro de 2020 [Samir Jordamovic/Agência Anadolu]

“Após Srebrenica, você disse nunca mais! Que vergonha, mundo!”

Tais são as palavras escritas em cartazes de manifestantes que reuniram-se em Sarajevo, em 2016, para condenar o cerco de Bashar al-Assad à cidade de Aleppo, na Síria.

Julho marca o aniversário do fracasso da ONU em proteger a chamada “zona de segurança” de Srebrenica, na Bósnia, que levou ao massacre de 8.000 homens e meninos muçulmanos. Vinte e cinco anos depois, aparentemente nenhuma lição foi assimilada. Na Síria, a ONU estima que 400.000 pessoas foram mortas desde 2011.

Sem dúvida, o genocídio de Srebrenica ainda mancha a história das supostas operações de paz em todo o mundo. Antes do massacre, cerca de 20.000 refugiados haviam fugido a Srebrenica, da capital Sarajevo, sob proteção do contingente alemão das tropas de paz das Nações Unidas. Entretanto, forças sérvias da Bósnia, lideradas por Ratko Mladic, sitiaram a cidade.

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Um sobrevivente relatou-me, no Memorial do Genocídio de Srebrenica: “Estávamos protegidos pela ONU, em Srebrenica e Zepa, onde zonas de segurança foram criadas. Nestes dois locais, havia cerca de 60.000 pessoas.”

Não tínhamos armas para enfrentar o inimigo e é por isso que confiávamos na ONU para nos proteger, para garantir nossa sobrevivência, nossos pertences, a própria cidade. Mas sofremos o genocídio sob a bandeira da ONU e então disseram que não eram responsáveis.

Em 2019, um tribunal na Holanda determinou que o estado holandês fora 10% responsável pelas mortes de 350 homens, executados por forças sérvias da Bósnia, retornando aos holofotes o papel das forças de paz da ONU em Srebrenica. Tudo começou em abril de 1992, quando uma marcha pacífica por unificação bósnia escalou em violência, em Sarajevo, e mais tarde espalhou-se a outras cidades da Bósnia e Herzegovina, incluindo Srebrenica. Posteriormente, instaurou-se o cerco em Sarajevo, entre abril de 1992 e fevereiro de 1996, que representou o maior cerco a uma capital nacional na história da guerra moderna.

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A partir de meus encontros e entrevistas com sobreviventes dos conflitos na Síria e na Bósnia, descobri similaridades alarmantes entre ambos os povos e suas experiências. Em 2012, encontrei-me com Hatidza Mehmedovic, fundadora da Fundação Mães de Srebrenica, sobrevivente da guerra na Bósnia. No entanto, perdeu seu marido, Abdullah, e seus dois filhos, Azmir e Almir, além de muitos outros familiares. Afirmou: “Meu marido e meus dois filhos não eram criminosos, não machucaram ninguém; foram mortos somente porque eram muçulmanos. Quando perdi minha família, chorei demais, mas não preciso chorar mais. Preciso de emprego e empoderamento econômico para proteger os sobreviventes do genocídio.”

Os sírios, como os bosníacos, são altamente resilientes e criativos, mesmo diante de guerras genocidas. Em 2017, durante visita ao campo de refugiados de Bab al-Salam, no distrito de Azes, em Aleppo, um jovem sírio me disse: “Minha irmã, você não precisa se pôr no sapato de ninguém aqui deste campo. Ensine às jovens gerações deste campo como pescar, ao invés de lhes dar o peixe”. E concluiu:

Não precisamos de empatia da comunidade global. Precisamos de um futuro.

Assim como o regime de Assad, os sérvios da Bósnia tinham ampla vantagem militar sobre seus adversários, os muçulmanos (bosníacos) e croatas da Bósnia. De modo bastante similar, o cerco a Sarajevo ilustrou uma importante lição estratégica para compreensão do cerco a Aleppo. Em ambas as cidades, os corredores humanitários foram cruciais à sobrevivência.

Residentes aglomeram-se para comprar pão na província de Aleppo, Síria, 16 de dezembro de 2012 [Prashant Rao/AFP/Getty Images]

Residentes aglomeram-se para comprar pão na província de Aleppo, Síria, 16 de dezembro de 2012 [Prashant Rao/AFP/Getty Images]

Uma rede subterrânea tornou-se a principal passagem para o transporte de alimentos, armas e bens humanitários. Tais rotas impediram tanto Sarajevo quanto Aleppo a decair no pleno caos e desespero.

Hoje, túneis e outras estruturas subterrâneas tornaram-se elemento persistente do campo de batalha sírio. Grupos de oposição da Síria, em Aleppo, assim como suas contrapartes na Bósnia, construíram labirintos sob a terra, equipados com hospitais e mesmo quartéis militares.

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Para compreender a importância da assistência humanitária na cidade assolada pela guerra, o chamado “Túnel da Esperança” de Sarajevo se mantém um bom exemplo. Esta estrutura de 800 metros de extensão manteve a cidade viva durante o cerco e impediu que o povo de Sarajevo morresse de fome e condições climáticas extremas. Quando Sarajevo foi sitiada, em 1992, sem qualquer fonte de comida ou eletricidade, a família Kolar permitiu que escavassem seu quintal para as obras do túnel. Sua residência, desde então, foi transformada em museu.

Após nove anos de guerra devastadora, o povo sírio ainda luta para vencer seu ditador. Para muitos observadores, a presença de Assad representa um obstáculo fundamental à estrada de reconciliação e estabilidade na Síria. Depois do fracasso das tropas de paz holandesas em impedir o genocídio de Srebrenica, o mundo já não pode permitir-se postergar ações efetivas no território da Síria. Como afirmou o produtor e diretor de cinema Danis Tanovic, vencedor do Oscar pelo filme “Terra de Ninguém” (2001): “Neutralidade não existe perante o assassinato”.

Caso a comunidade internacional repita a falaciosa neutralidade na Síria, como conduzida na Bósnia e Herzegovina há 25 anos, as consequências certamente serão outro genocídio.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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