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Porque este Eid será como nenhum outro, para muçulmanos em todo o mundo

Fiéis compartilham um bolo em celebração do Eid, em uma mesquita no Reino Unido [Getty Images]

Devido à pandemia de coronavírus, muçulmanos em todo o mundo terão neste ano um Eid como nenhum outro na história. Orações do Eid em mesquitas estão canceladas; muçulmanos como eu terão de rezar de suas casas.

Um dos elementos fundamentais do Eid é participar da oração pela manhã, pois representa a própria essência deste dia especial e a culminação do mês do Ramadã. Entretanto, muitas famílias permanecem agora confinadas a utilizar o espaço de suas casas para conduzir a oração; em outra situação, bandos e bandos de fiéis estariam nas mesquitas.

Talvez uma das mudanças mais dolorosas que temos de vivenciar durante este Ramadã foi o fato de que não há mais fiéis realizando a tawaf (peregrinação do Hajj) em torno da Caaba, local mais sagrado para o islamismo, devido ao lockdown e às restrições impostas pelo governo da Arábia Saudita. A monarquia interrompeu a umrah, peregrinação não-mandatória, no fim de fevereiro, devido à pandemia e devemos pressupor que o Hajj, que começa no final de julho, também será cancelado este ano. É bastante triste ver a Caaba vazia para o Eid: todo ano, quase 2.5 milhões de peregrinos visitam os locais sagrados de Meca e Medina. Porém, é uma lembrança de que vivemos tempos sem precedentes.

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Em um feriado normal do Eid, a Mesquita do Profeta (Masjid Al Nabawi) estaria lotada de fiéis em oração. Entretanto, hoje, apenas o imã e uma pequena congregação constituída por funcionários de manutenção da mesquita poderão realizar suas preces in loco.

O Eid costuma ser momento para visitar seus entes queridos, compartilhar refeições em nossas casas ou de nossos familiares; neste ano, o confinamento verá muitas pessoas compartilhando suas refeições com sua família imediata. É difícil a todos não poder cumprimentar pessoalmente seus entes queridos, mas trata-se de um sacrifício essencial em nossa luta contra o vírus e temos esperança de que, no próximo ano, não teremos de passar pelo mesmo apuro.

Como mãe de cinco filhos, com um marido que trabalha na linha de frente como médico, este Eid será um dia como nenhum outro. O Eid deste ano para mim será passado com minha família pela manhã, mas meu marido terá então de trabalhar logo mais tarde. Normalmente, a noite do Eid é uma noite que passamos todos juntos, cercados por nossa família, mas este ano teremos de nos conectar a nossos entes queridos por videoconferência, de modo virtual. Assim será para muitas famílias em todo o mundo, apartadas pela conjuntura de seus parentes e amigos durante este Eid.

O Conselho Islâmico da Grã-Bretanha emitiu diretrizes para celebrar o Eid al-Fitr em lockdown, a fim de garantir a segurança da comunidade islâmica britânica, ao requisitá-los que fiquem em casa, falem com suas famílias pela internet, enviem presentes pelos correios e realizem suas orações ao lado apenas de familiares imediatos com os quais vivem.

Muçulmanos no Reino Unido sacrificaram-se, portanto, e aderiram às diretrizes do governo, desde o surgimento do coronavírus; ainda assim, o governo britânico continua a censurar os muçulmanos ao destacar alertas sobre o Eid em suas redes sociais. Tais propagandas sobre o Eid incitaram comentários islamofóbicos de usuários do Twitter, que pressupõem que as diretrizes são ignoradas por fiéis islâmicos. Não vimos tamanha propaganda no recente feriado do Dia da Vitória na Europa, em 8 de maio, quando ruas ficaram lotadas por celebrações pelo fim da Segunda Guerra Mundial no continente europeu.

Este Eid pede por reflexão sobre nossas liberdades e deveres e deve nos permitir pensar naqueles que jamais tiveram a mesma liberdade que temos hoje e, assim, reivindicar mudanças. É momento de refletir sobre nossos irmãos e irmãs na Palestina, no Iêmen, na Síria, onde restrições e lockdowns são via de regra e sua liberdade de ir e vir é terminantemente limitada, devido às persistentes guerras. É momento de cooperar com ações filantrópicas e humanitárias e realizar doações àqueles em necessidade via internet e estender a mão aos que mais precisam.

Neste Eid, teremos de aprender a nos adaptar à nova situação, a fim de ajudar a salvar vidas e conter o vírus, mas isso não significa que deixaremos de comemorar a verdadeira essência do Eid, em nossas casas, com nossas famílias, para aproveitar ao máximo deste dia tão especial.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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