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Relembrando os ataques químicos de Douma

Neste dia, dois anos atrás, um ataque de armas químicas foi executado contra a população de Douma, sudoeste da Síria, resultando na morte de 85 pessoas e ferindo centenas de vítimas, além de provocar uma série de ataques aéreos de países ocidentais contra o regime sírio de Bashar al-Assad. Ainda prevalecem as controvérsias sobre quem mandou executar o ataque, embora evidências indiquem responsabilidade de Assad.

O que: Ataque de armas químicas contra civis sírios

Quando: 7 de abril de 2018

Onde: Douma, província de Rif Dimashq, Síria

Mais de 4.8 milhões de crianças nasceram durante a guerra na Síria

O que aconteceu?

No decorrer dos nove anos de guerra civil na Síria, o território do país mudou significativamente entre as partes adversárias, desde o controle absoluto e brutal do Presidente Bashar al-Assad a vitórias de grupos da oposição síria que passaram a controlar boa parte do território, após deserções em massa das forças do regime ao Exército Livre da Síria (ELS). Então, surgiram outras facções de oposição tanto moderadas quanto extremistas, ao lado de milícias curdas ao norte e nordeste e a ascensão e queda do Daesh (Estado Islâmico).

Os últimos anos, no entanto, viram a situação da revolução síria, agora encurralada, inverter-se drasticamente conforme o regime sírio – apoiado militarmente por Rússia e Irã – recapturava boa parte de seu antigo território. Em março de 2018, após evacuação de grande parte das forças de oposição do sudoeste do país, em direção à região norte do país, o exército do regime sírio então cercou a área de Douma, ainda governada pelo grupo Jaysh Al-Islam. Negociações entre o grupo e o regime foram iniciadas mas chegaram a sucessivos impasses, resultando na continuidade dos ataques aéreos do regime contra a população da cidade – em torno de 80.000 a 150.000 pessoas –, em 6 de abril.

No dia seguinte, ataques aéreos continuaram e, segundo relatos, resultaram em dezenas de mortos e feridos. Mais tarde, naquele mesmo dia, os ataques avançaram ainda mais quando uma padaria na região noroeste de Douma foi atingida em torno das 16h, e então outro ataque na região leste, perto da Praça dos Mártires, às 19h30. Após o primeiro ataque, um membro da Defesa Civil Síria (Capacetes Brancos) reportou sentir cheiro de cloro no ar. Apenas quinze minutos após o segundo ataque, havia mais de 500 pacientes lotando instalações médicas locais com sintomas de exposição severa a agentes químicos.

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Os sintomas reportados nos pacientes – além dos corpos das vítimas – incluíam espuma na boca, queimadura nas córneas, forte odor de gás cloro emanando dos corpos, pele e lábios azulados e sintomas respiratórios. Nos dias seguintes, o número de mortos alcançou 85 pessoas, incluindo muitas mulheres e crianças.

O que aconteceu a seguir?

Após os ataques químicos, a comunidade internacional expressou indignação contra este último caso de grave violação das convenções de guerra. As cenas da atrocidade tiveram tamanho impacto que levaram a uma reação militar de nações ocidentais na forma de ataques aéreos conduzidos por Estados Unidos, Grã-Bretanha e França contra instalações militares químicas do regime sírio, apenas uma semana após os bombardeios de Douma.

O ataque contra Douma provou ser um marco significativo na guerra civil na Síria, não apenas devido às medidas subsequentes tomadas pelos países ocidentais e pela comunidade internacional, mas também ao levantar dúvidas sobre alegações de Assad de que havia se livrado de todo o estoque de armas químicas do país. Em 2016, Assad chegou a anunciar que todos os locais de produção de armas químicas na Síria haviam sido destruídos ou desmantelados pelo regime. Essa dúvida – se o regime possui ou não armas químicas – prevalece até hoje. Mais recentemente, relatos israelenses ainda indicaram que ataques aéreos de Israel contra a Síria, em 31 de março, forneceram evidências de que o regime de Assad está efetivamente ressuscitando sua indústria de armas químicas.

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Uma investigação lançada sobre o massacre pela Organização para Proibição de Armas Químicas (OPAQ), cujo relatório foi divulgado em março de 2019, revelou que há “evidências razoáveis” de que um ataque químico de fato ocorreu em Douma e que o regime de Assad fora responsável. Alguns meses depois, Ian Henderson – ex-oficial da OPAQ – publicou um relatório de contestação alegando que o documento original continha falhas e que não havia evidências concretas de que as bombas de gás foram disparadas de helicópteros do regime.

Contudo, um relatório da agência de monitoramento Bellingcat refutou a versão de Henderson, ao afirmar: “É evidente que a metodologia de Henderson apresentou falhas fundamentais e que o pressuposto principal de sua tese foi feito em torno da altitude da qual tais cilindros caíram. Aparentemente, há ainda diversos erros ou imprecisões em outros aspectos do relatório.”

Rússia e Síria chegaram ao ponto de alegar que grupos de oposição locais ligados aos países ocidentais conduziram eles próprios os ataques, a fim de incriminar Assad. Acusaram ainda os Capacetes Brancos – organização respeitada internacionalmente composta por profissionais de saúde e voluntários que operam nos territórios mantidos pela oposição – de forjar os ataques, acusação plenamente desmentida por organizações de checagem de fatos.

Dois anos após o massacre em Douma, a identidade dos responsáveis permanece mistério. Em novembro de 2019, a OPAQ anunciou que os detalhes sobre o incidente em Douma foram transmitidos a uma nova equipe estabelecida para identificar devidamente os responsáveis.

Ataque químico na Síria – cartum [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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