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Serviços de segurança palestinos continuam a cooperar com os seus homólogos americanos

Chefe dos Serviços de Inteligência da Autoridade Palestina (AP), Majed Faraj [Twitter]

Apesar do distanciamento americano-palestino desde dezembro de 2017, que levou à imposição de sanções americanas à Autoridade Palestina (AP), isso não impediu as duas partes de realizarem reuniões, em segredo ou em público. A contradição suscita vários pontos de interrogação em relação à seriedade desse afastamento.

No início de julho, Saeb Erekat, secretário-geral do Comitê Executivo da OLP, reuniu-se com os congressistas americanos Lindsey Graham e Chris Van Hollen em Ramallah. Os três homens discutiram a renovação do apoio financeiro dos EUA aos serviços de segurança palestinos, que foram suspensos desde o início de 2019.

Van Hollen e Graham falaram positivamente sobre o papel do PA na manutenção da segurança. Eles também argumentaram que seria “contraproducente para o governo dos EUA cortar o financiamento da AID para escolas e hospitais palestinos, o que só fortalece o Hamas e envia o sinal de que não temos uma relação de trabalho com a AP”.

Enquanto o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, nega ter contato político com a administração dos EUA no final de junho, ele confirma que a Autoridade Palestina continua sua coordenação de segurança com os EUA para “combater o terrorismo”.

Em maio, a administração americana concordou em fornecer 10 veículos blindados à AP.

Em junho, o chefe do Serviço Geral de Inteligência (GIS) da AP, major-general Majed Faraj, reiterou seu total compromisso em combater o terrorismo, o extremismo e a violência. Ele também disse que cooperaria com todos os partidos regionais e internacionais na 10ª Reunião Internacional de Altos Representantes para Assuntos de Segurança, realizada em Ufa, Rússia.

Em setembro, uma delegação do GIS palestino visitou Washington para conversar com a CIA. O presidente Abbas anunciou que a delegação buscava manter a segurança e a cooperação de inteligência entre a Autoridade Palestina e os EUA, apesar de cortar todas as relações com a Casa Branca.

Torna-se difícil entender a continuação dos encontros palestino-americanos de natureza de segurança da inteligência, dado o distanciamento político e diplomático entre eles. Isso levanta questões sobre o futuro da cooperação de segurança entre os EUA e a Palestina e a possibilidade de que as declarações americanas sejam uma introdução à retomada do apoio financeiro americano à agência de segurança palestina. Também é preciso saber a natureza das concessões que a AP fará em troca da retomada da ajuda financeira, bem como as formas de cooperação em segurança entre Ramallah e Washington.

As repetidas declarações do presidente Abbas a respeito da cooperação com os americanos freqüentemente se concentram na necessidade de combater o terrorismo. Isso sgnifica que a AP está fornecendo informações para os EUA sobre grupos armados e desempenhando um papel na luta contra o Daesh e a Al-Qaeda.

Os atuais encontros palestino-americanos parecem semelhantes aos anteriores. Uma reunião particularmente infame ocorreu em junho de 2018, entre o chefe do GIS palestino, Majed Faraj, com o então diretor da CIA, Mike Pompeo.

As fontes palestinas com as quais conversei concordam que essas reuniões são realizadas em nível de segurança, mas não deram mais esclarecimentos. Também afirmaram que as reuniões de segurança entre a AP e a administração americana continuaram apesar do boicote da AP à administração do presidente Trump, depois que os EUA reconheceram Jerusalém como a capital de Israel em dezembro de 2017 e transferiram sua embaixada para a cidade, em maio de 2018.

As discussões desses encontros palestino-americanos envolvem questões de segurança com uma dimensão e implicações relacionadas à região em geral, para além das negociações palestino-israelenses. Também incluem o claro desejo americano de assegurar a estabilidade política e de segurança nos territórios palestinos após o fim, por qualquer motivo, da era de Abbas.

Pode-se dizer com muita confiança que Majed Faraj é um dos líderes palestinos mais próximos de Abbas. As reuniões com seus colegas americanos são uma continuação de encontros anteriores, já que autoridades de segurança palestinas têm fortes relações com os americanos. Washington e Tel Aviv vêem os acontecimentos na arena palestina do ponto de vista da segurança nacional.

No entanto, é estranho que essas reuniões de alto nível sejam realizadas quando, ao mesmo tempo, a AP está tão descontente com o chamado plano de paz encabeçado por Jared Kushner e Jason Greenblatt. Apesar disso, as reuniões de segurança palestino-americanas e a comunicação bilateral com as partes interessadas da segurança americana não pararam.

É claro que essas reuniões entre palestinos e americanos podem discutir o desejo de Majed Faraj de se nomear o sucessor de Abbas. Os seus comentários próximos aos de Washington e suas visitas podem ser uma tentativa de sua parte para convencer os americanos a apoiá-lo. Esse apoio seria fundamental para a Faraj, especialmente porque ele não foi escolhido como membro do comitê executivo da OLP ou como membro do comitê central da Fatah. Estas são posições importantes para qualquer um que seja nomeado como sucessor de Abbas.

Faraj é visto por muitos palestinos como um colaborador de Israel. Isto se deve principalmente ao seu anúncio, em 2016, que suas forças de segurança frustraram 200 ataques armados contra Israel e que estava trabalhando lado a lado com Israel e os Estados Unidos.

Os palestinos dizem que as reuniões de segurança entre palestinos e americanos significam que a inteligência dos EUA tem uma rede de relações próximas com a contraparte palestina. Quando o Hamas assumiu o controle da Faixa de Gaza, em meados de 2007, obtendo acesso a arquivos de inteligência palestinos, revelou documentos provando a cooperação de segurança palestina com a CIA.

Além disso, o pessoal de segurança palestino é treinado nos Estados Unidos. Oficiais americanos supervisionam as agências de segurança palestinas na Cisjordânia e os serviços de inteligência palestinos têm adidos de segurança na maioria das 90 embaixadas palestinas em todo o mundo. Eles têm laços com agências internacionais e ajudam os EUA na busca de grupos armados no mundo, fornecendo um banco de informações nesse campo.

Ao mesmo tempo, a inteligência palestina está conseguindo rastrear grupos armados em todo o mundo por ter pessoal e informantes em áreas onde esses grupos armados estão mobilizados, como a Síria e a Líbia.

Os palestinos na Faixa de Gaza e na Cisjordânia também trocam informações sobre os agentes de segurança palestinos que trabalham com a CIA em países onde estão muito presentes. Isto é especialmente verdadeiro em áreas de grande tensão e que representam um incômodo para os Estados Unidos e Israel, como a Síria.

Fontes dos EUA e da Líbia confirmaram que o GIS palestino e seu diretor, Faraj, foram homenageados pela Casa Branca por fornecer informações valiosas à CIA, que ajudaram a identificar os movimentos do líder da Al-Qaeda, Abu Anas al-Libi, e facilitaram seu sequestro. em 2013. Na Síria, em 2015, o GIS palestino contribuiu para a libertação de dois reféns suecos mantidos por grupos armados desde 2013.

Os agentes palestinos são figuras populares na comunidade de segurança norte-americana e têm uma forte rede de relações com altos funcionários da CIA, após anos trabalhando juntos. Suas reuniões se concentram na coordenação bilateral para perseguir grupos armados no Oriente Médio. A causa palestina recebe pouca atenção. Ainda assim, os americanos agradecem aos seus colegas palestinos pelos seus esforços de segurança, enquanto as agências de segurança palestinas lhes agradecem pela formação e pelos fundos.

O Hamas condenou os papéis desempenhados pelo GIS nessa área, especialmente sua cooperação com a CIA para processar algumas pessoas procuradas, de uma maneira que afeta a causa palestina. O Hamas tem centenas de documentos confirmando que a inteligência palestina espionou países árabes e muçulmanos, além de aliados, em benefício de Israel e dos EUA.

As contínuas reuniões de segurança entre os EUA e a Palestina, apesar do distanciamento político, dão crédito àqueles que dizem que a Autoridade Palestina pode ser um dos braços da política dos EUA na região. Existe uma coordenação de segurança de alto nível entre eles, e falar de um distanciamento político entre Washington e Ramallah não é verdade, já que a comunicação está em andamento. A AP não pode cortar suas relações com os Estados Unidos; caso contrário, seria como cortar suas artérias.

Tais encontros palestino-americanos fornecem uma série de indicações importantes, particularmente o interesse dos americanos em manter um relacionamento com a AP, apesar das alegações e acusações americanas contra ela. Outro sinal é a recusa da AP em suspender a coordenação de segurança com Israel e os Estados Unidos.

Essas reuniões entre as duas partes podem dar a impressão de que – apesar da tensão constante – o status quo pode retornar a longo prazo.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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