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Lula, o G7 e a política externa brasileira

Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, conversa com seus homólogos da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, e dos Emirados Árabes Unidos, Mohamed bin Zayed al-Nahyan, durante a cúpula do G7, em Apúlia, na Itália, em 14 de junho de 2024 [Presidência da Turquia/Murat Kamaci/Agência Anadolu]

Em 14 de junho o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, participou do segmento de engajamento externo da Cúpula do G7, em Borgo Egnazia, na Apúlia, a convite da primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni.

Segundo o portal do Ministério das Relações Exteriores, além dos demais membros do G7, da Santa Sé e do Brasil, estiveram na reunião os seguintes países: África do Sul, Arábia Saudita, Argélia, Argentina, Emirados Árabes Unidos, Índia, Jordânia, Mauritânia (representando a União Africana), Quênia e Turquia. Entre os organismos internacionais, os convidados foram: União Europeia (com status de observadora no G7), Organização das Nações Unidas (ONU), Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial, Banco Africano de Desenvolvimento e Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Esta foi a oitava participação do presidente em cúpulas do grupo. Na sessão externa deste ano, foram discutidos, entre outros, os temas de inteligência artificial e de energia, bem como a cooperação com a África e no Mar Mediterrâneo.

A política externa brasileira, apesar de priorizar as relações com o Brics, intenta manter com os membros do G7 permanente diálogo sobre temas da agenda internacional, seja de forma bilateral, seja no âmbito do G20 e de organismos internacionais nos quais o Brasil e os membros do G7 interagem.

O G7 e os temas afins ao mundo árabe

Os registros das reuniões bilaterais entre o presidente brasileiro e os países árabes presentes não membros do Brics (Argélia e Jordânia) não estão públicos. Conforme difundido na Agência Brasil, por motivos diplomáticos, o Itamaraty divulgou apenas os quatro convites de reuniões bilaterais já aceitos por Lula: o do primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi; e dos presidentes da África do Sul, Cyril Ramaphosa, da França, Emannuel Macron, e da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. “Os outros quatro pedidos de reunião bilateral ainda estão sendo avaliados”, informou o secretário de Assuntos Econômicos e Financeiros, embaixador Mauricio Lyrio.

LEIA: Turquia e Emirados discutem genocídio em Gaza na cúpula do G7

Na mídia jordaniana, o registro foi apenas a participação do rei Abdullah, após seu retorno do encontro do G7. O serviço de comunicação da Argélia apenas reforçou a autoimagem do presidente Abdelmadjid Tebboune, ao descrever o país “como um ator importante no cenário mundial, graças à política diplomática definida pelo Presidente da República desde a sua posse, aos princípios em que se baseia esta política para posicionar a Argélia como um agente poderoso na resolução de crises e aos esforços sustentados para promovê-los internacionalmente”.

Porém, os efeitos dessa presença e a posição (dúbia) do Ocidente — assim como seu aliado, o Japão — são notáveis. Segundo o website oficial do grupo dos países ocidentais, no item Promovendo a paz, a segurança e a prosperidade internacionais: “O trabalho do G7 se baseia num compromisso compartilhado de respeitar a Carta das Nações Unidas, promover a paz e a segurança internacionais e defender a ordem internacional livre e aberta, baseada em regras”.

Entre os tópicos, estão:

  • “Chamado a um acordo abrangente em Gaza: O G7 esteve unido no apoio ao acordo abrangente delineado pelo presidente [dos Estados Unidos] Joe Biden que levaria a um cessar-fogo imediato em Gaza, à libertação de todos os reféns, a um aumento significativo e sustentado no fluxo de assistência humanitária e um fim duradouro para a crise, com a garantia dos interesses de segurança de Israel e da segurança dos civis palestinos de Gaza”.
  • “Aprofundar a cooperação com parceiros em África: O G7 trabalha em conjunto com parceiros africanos para contribuir para a estabilidade e a prosperidade globais, e apoiou o apelo dos países africanos para uma maior voz nos organismos internacionais”.

O Brasil, de certa forma e em linguagem diplomática, exerceu algum contraponto às tendências mais cínicas dessa reunião.

Trechos do discurso de Lula no G7: África, o genocídio palestino e a nova concertação 

Luiz Inácio Lula da Silva governa pela terceira vez o país cuja demografia tem a segunda maior população afrodescendente do planeta. Nesta temática afirmou que:

Além da União Africana, que integra o G20 pela primeira vez como membro pleno, convidamos Angola, Egito e Nigéria a participar das reuniões durante nossa presidência. Muitos países africanos estão próximos da insolvência e destinam mais recursos para o pagamento da dívida externa do que para a educação ou a saúde. Isso constitui fonte permanente de instabilidade social e política. Sem agregar valor a seus recursos naturais, os países em desenvolvimento seguirão presos na relação de dependência que marcou sua história.

Em outro tema da mesma fala, afirmou:

Senhoras e senhores; as instituições de governança estão inoperantes diante da realidade geopolítica atual e perpetuam privilégios. O ano de 2023 viu o gasto com armamentos subir em relação a 2022, chegando a US$ 2,4 trilhões. Em Gaza, vemos o direito de defesa se transformar em direito de vingança. Estamos diante da violação cotidiana do direito humanitário, que tem vitimado milhares de civis inocentes, sobretudo mulheres e crianças. Isso nos levou a endossar a decisão da África do Sul de acionar a Corte Internacional de Justiça.

Na conclusão do discurso, Lula trouxe uma proposta — enfatizada em linguagem diplomática —, segundo a qual adota um dos princípios básicos da diplomacia chinesa e a desenvolvida dentro da Ásia: “A prosperidade traz estabilidade e o desenvolvimento econômico pode gerar a redução da pobreza”. Então, concluiu:

O G7, o Brics e o G20 reúnem as maiores economias do planeta. O futuro que compartilharemos dependerá de nossa capacidade de superar desigualdades e injustiças históricas para vencer as batalhas que a humanidade enfrenta hoje.

Os caminhos da multipolaridade através do Brasil 

Se formos observar a posição do Brasil na cúpula do G7 é mais semelhante com a diplomacia chinesa. Uma tentativa permanente de agregar instâncias internacionais e possibilidades de desenvolvimento com algum valor agregado para os países primário-exportadores e — infelizmente — alguns endividados em moeda estrangeira. Basicamente, os países que estiveram como convidados externos são todos sócios do Brasil:  África do Sul, Arábia Saudita, Argélia, Argentina, Emirados Árabes Unidos, Índia, Jordânia, Mauritânia (representando a União Africana), Quênia e Turquia. Vale observar que são seis Estados de maioria islâmica.

LEIA: O crescimento dos Brics e a desdolarização ameaçam a hegemonia do Ocidente

A projeção externa brasileira passa por ser fiador de relações entre potências ocidentais, potências asiáticas e eurasiáticas e os países do chamado Sul Global. Os problemas e as disputas da política mundial estão absolutamente internalizadas no Brasil e falta bastante para o atual governo conseguir domar os interesses setoriais de elites especulativas e antinacionais. Toda atenção é necessária.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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