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Palestinos ligados à Autoridade tornam-se bilionários, o resto vive na miséria

Ubai al-Aboudi, diretor do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento Bisan, comentou sobre a criminalização do grupo por Israel e esforços para contrapor injustiças na Palestina ocupada
Ubai al-Aboudi, diretor do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento Bisan

“Israel me proibiu de viajar sem razão alguma, senão meu trabalho para superar as violações de direitos humanos cometidas na Palestina”, reafirmou Ubai al-Aboudi, diretor do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento Bisan, em entrevista ao MEMO. Em 29 de abril, o ativista palestino-americano tentava atravessar a fronteira controlada por Israel da Cisjordânia ocupada ao território jordaniano, para então seguir viagem ao México e participar do Fórum Social Mundial – encontro anual de organizações globais da sociedade civil. Autoridades israelenses, no entanto, proibiram-no de sair do país. Apesar de suas múltiplas tentativas de obter uma justificativa ou explicação sobre a recusa da ocupação, o governo em Tel Aviv se recusou a sequer respondê-lo.

“Israel não poderia manter suas violações sem cumplicidade internacional, incluindo dos Estados Unidos, que permanece em silêncio”, acrescentou Ubai. “Os mesmos países que se recusam a responder a Israel demonstraram claramente ter todas as ferramentas para impor represálias a um estado que viola a lei internacional, como ocorreu com a Rússia”.

A mesma cumplicidade externa se aplica aos esforços israelenses para criminalizar associações da sociedade civil, incluindo o centro Bisan e outras cinco ongs palestinas, designadas pela ocupação como “entidades terroristas” em outubro último. “Tudo isso se refere ao trabalho e à pesquisa essencial que fazemos aqui”, reiterou Ubai.

Eles não me impediram de viajar por razões pessoais, mas sim porque sou parte de uma organização que expõe violações de direitos humanos e relações assimétricas de poder. Eles designaram o centro Bisan como ente terrorista porque nossa associação é capaz de se engajar com outras organizações de base, jovens, mulheres e pessoas com deficiência, para ressoar a voz palestina em âmbito internacional.

Fundada em 1989, durante o ápice da Primeira Intifada, por acadêmicos e ativistas palestinos, o centro Bisan é uma organização democrática e não-governamental cuja missão é conceder apoio à resistência do povo palestino e robustecer o papel da sociedade civil. O centro Bisan dá espaço a agentes comunitários, sobretudo de grupos marginalizados, para melhor expressar suas necessidades e seus interesses e equipá-los com ferramentas estratégicas para assegurar seus direitos mais fundamentais.

“Trabalhamos para produzir uma pesquisa crítica sobre direitos socioeconômicos, sobretudo referente às violações de diversas entidades, seja da ocupação israelense, da Autoridade Palestina (AP) ou mesmo de grandes negócios que operam na Cisjordânia e Gaza”, prosseguiu Ubai. “Ao longo dos anos, concentramos nosso trabalho em empoderar e dar voz àqueles raramente ouvidos e pressionar contra políticas que marginalizam os mais diversos segmentos da sociedade palestina”.

O sucesso da organização – que inclui expor os principais cúmplices do esquema de empobrecimento da economia palestina – deve-se à combinação de pesquisas essenciais e ações pragmáticas em escala política. “Não somente criticamos as violações, mas oferecemos também um caminho adiante para que os palestinos assumam controle sobre seu próprio destino, ao evidenciar formas de abordar as mais diversas questões sobre a Palestina ocupada, seja por meio da economia solidária ou da economia de resistência”.

“Por exemplo, buscamos expor como doadores alimentaram efetivamente o empobrecimento palestino nos últimos 25 a 30 anos, desde o início do processo de Oslo, durante os quais a Autoridade Palestina, Cisjordânia e Faixa de Gaza – além da própria sociedade civil – receberam cerca de US$50 milhões em assistência estrangeira, ao converter-se então em uma das áreas mais subsidiadas do planeta”. Segundo a pesquisa, um volume considerável de tamanha assistência – quase 85% do valor total – foram destinados a Israel por meio de importações, o que agravou na prática as falhas estruturais da economia palestina.

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Ubai apontou diversos indicadores para elucidar a dimensão da crise vivenciada sob colonização, incluindo prejuízos fiscais, queda qualitativa nos índices de educação – os piores desde 1994 –, precariedade no sistema de saúde, baixa produtividade das áreas agrárias e declínio substancial no produto interno bruto (PIB). Neste entremeio, no entanto, o Presidente da Autoridade Palestina Mahmoud Abbas e seus correligionários próximos vivem na ostentação e fartura.

Vimos o fenômeno da ascensão de multibilionários vinculados à Autoridade Palestina enquanto a pobreza cria raízes cada vez mais profundas nas comunidades palestinas. Vemos também a destruição sistêmica dos principais setores produtivos na Cisjordânia e Faixa de Gaza, através da abertura do mercado a políticas neoliberais adotadas pela Autoridade, que contribuíram com a subjugação do povo palestino.

Crítico eloquente da corrupção da Autoridade Palestina, o ativista insistiu não ter receios em manter sua campanha por direitos humanos. De acordo com Ubai, os Estados Unidos, a Autoridade Palestina e a comunidade internacional têm de reavaliar suas alianças e agendas políticas no futuro próximo.

“É absolutamente absurdo que o centro Bisan seja difamado como terrorista por Israel, sob a acusação de conduzir pesquisas críticas em benefício de um partido político, dado que nenhum de nossos estudos acadêmicos serve a qualquer entidade individual. Nossos esforços são a serviço de toda a humanidade e, portanto, qualquer partido ou estado que queira recorrer a nossas pesquisas será bem-vindo – até mesmo Israel, porque isso poderia culminar na revogação de suas políticas racistas e na descolonização da Palestina ocupada”.

A mais recente pesquisa do Centro Bisan – prevista para publicação ainda este ano – deverá expor a Autoridade Palestina como segundo maior agente de expropriação de terras na Cisjordânia, logo após as autoridades da ocupação israelense, com intuito de priorizar grandes negócios. “Trata-se de uma violação que ocorre no Vale do Jordão e nas cidades de Jericó, Ramallah e Jenin, sobretudo contra fazendeiros palestinos que perdem suas terras e propriedades como resultado direto. Algumas dessas apreensões são ratificadas pelo próprio presidente da Autoridade Palestina”.

Ubai reiterou que Israel é um estado de apartheid, mas insistiu que o problema também se concentra em denunciar a cumplicidade de Abbas e seus aliados políticos nas violações humanitárias, com intuito de reunir mais e mais ganhos financeiros enquanto reprime esforços em nome da libertação nacional do povo palestino.

Determinado a manter seu trabalho apesar da criminalização e do assédio reiterado por parte de Israel, Ubai enfatiza que é seu dever seguir adiante. “Todo ativista terá um preço a pagar; no entanto, a longo prazo, nossos esforços ajudarão a criar um mundo mais igualitário onde direitos humanos são preservados. A Palestina é um microcosmo das injustiças que ocorrem em todo o mundo … Seja violações de classe, raça, gênero ou trabalho, tais elementos serão encontrados na Palestina ocupada e solucionar tais questões em âmbito local dará esperanças para superá-las em outros países do mundo”.

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O preço pago por Ubai foi uma invasão cibernética a seu aparelho celular de uso particular. No último ano, o ativista sentiu-se aliviado quando o spyware Pegasus – desenvolvido pela empresa israelense NSO – foi exposto à comunidade internacional.

“A extrema-direita, os racistas e criminosos de guerra não tiram folga, então é preciso manter nosso ativismo e ecoar vozes populares contra os abusos contínuos de direitos humanos impostos aos palestinos”, acrescentou Ubai. “O Pegasus foi desenvolvido aqui e usado primeiro contra os palestinos; agora é vendido e adotado por déspotas em todo o planeta. Isso demonstra mais outra vez o que acontece na Palestina ocupada abrirá as portas para mais e mais violações de direitos humanos em escala internacional, incluindo nos países ocidentais – o que já presenciamos dia após dia”.

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