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Violência policial evidencia urgência de embargo militar a Israel já

Pessoa ferida sendo socorrida por moradores [Midia 1508/via rede social]

As imagens aterradoras da chacina de Vila Cruzeiro, no Rio de Janeiro, das agressões registradas na periferia de São Paulo e da barbárie do assassinato de Genivaldo de Jesus Santos pelas mãos da Polícia Rodoviária Federal (PRF) na BR-101 em Umbaúba, a 100km de Aracaju, capital de Sergipe, não deixam dúvidas: técnicas, treinamentos e tecnologias à disposição dos braços armados do Estado estão a serviço do genocídio pobre e negro. Israel, que ininterruptamente segue em sua limpeza étnica contra os palestinos, é cúmplice. Levantar a bandeira por embargo militar a esse estado colonial e de apartheid é urgente.

A denúncia sobre os acordos criminosos com Israel por parte de governos para municiarem suas polícias não é de hoje. No Rio de Janeiro, são caveirões, treinamento e técnicas israelenses a serviço de chacinas como a da favela de Vila Cruzeiro. Ali, moradores viveram momentos de horror no último dia 24 de maio, em invasão policial que resultou em pelo menos 25 mortos e se configurou na segunda pior chacina em apenas um ano – a de Jacarezinho culminou em 28 assassinados no ano de 2021. A “operação” contou, segundo reportagem no portal Mídia 1508, com a participação do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), da Polícia Federal (PF), da PRF e da Polícia Civil. “Eles agiram na região por 12 horas.” Armas israelenses, fruto de tais acordos, contribuíram para a combinação macabra que impôs cenário de terror.

Em São Paulo, onde uma policial militar tortura dois jovens numa comunidade da Brasilândia, na zona norte, na mesma semana, durante revista, a cumplicidade sionista é igualmente velha conhecida. São blindados israelenses, além de técnicas, treinamentos, metralhadoras, entre outros aparatos.

O que talvez tenha surpreendido aqueles que pensavam que a PRF não estaria nesse bolo seja tanto sua contribuição com a chacina de Vila Cruzeiro quanto sua ação criminosa que culminou na morte de Genivaldo por asfixia.

Sem poder respirar

A improvisada câmara de gás na viatura em que o rapaz negro de 38 anos que sofre, segundo a família, de transtornos mentais, foi jogado – cuja filmagem em que se debatia até perder a vida chocou o mundo e ganhou as manchetes internacionais –, lembra as horripilantes cenas comuns na Palestina ocupada: bombas de gás tóxico lançadas em locais fechados, como dentro das casas das pessoas, em universidades, em mesquitas, em campos de refugiados, indiscriminadamente.

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Quando dos protestos pelo assassinato em 25 de maio de 2020 de George Floyd, em Mineapolis, estado de Minnesota, EUA, por policial que ajoelhou em seu pescoço até que não pudesse mais respirar, a palestino-americana Mariam El-Katib revelava ao Middle East Eye as semelhanças e lembrava: “Quando eles começaram a usar gás lacrimogêneo contra os manifestantes [em Minneapolis], foi para mim como um flashback na Palestina (…).” No caso palestino, a reportagem aponta ser notório “o uso quase diário por Israel”, com “pesquisadores em 2018 rotulando o campo de refugiados de Ainda, na Cisjordânia ocupada, como ‘o lugar mais gasoso do mundo’”.

Foi assim durante mais uma tentativa de limpeza étnica no bairro palestino de Sheikh Jarrah, em Jerusalém, em maio de 2021. Tem sido assim nos ataques à Mesquita de Al Aqsa, na mesma cidade, nos últimos anos, bem como em campos de refugiados. Foi assim durante a invasão sionista de uma sessão em 9 de março último no campus da Universidade Técnica Palestina – Kadoorie em memória do jovem Ammar Shafiq Abu Afifeh, mais um entre os mais de 60 assassinados por Israel somente em 2022. São vários os registros de palestinos que vêm perdendo a vida também por asfixia.

Em janeiro último, um desses casos ocorreu em campo de refugiados de Qalandia: Fahmy Hamad, 57, faleceu após inalar gás lançado no local pelas forças de ocupação israelenses, segundo a agência de notícias Wafa. Não foi o primeiro. Notícias dão conta de que inclusive bebês e mulheres faleceram nos últimos anos da mesma forma, sem poder respirar. Em fevereiro último, relatório da organização israelense de direitos humanos BT´Selem revela que na cidade de Beita, na região da Nablus, que conta 9 mil habitantes, mais de 4.200 enfrentaram intoxicação por gases lançados após ofensiva das forças de ocupação israelenses.

Essas técnicas são testadas sobre as cobaias humanas que o apartheid sionista converte os palestinos todos os dias na contínua Nakba (catástrofe cuja pedra basilar é a formação do Estado racista de Israel em 15 de maio de 1948 mediante limpeza étnica planejada) e depois vendidas para o mundo. O Brasil se tornou lamentavelmente nos últimos anos o quinto maior importador de tecnologia militar israelense. A PRF está entre os beneficiários.

Segundo reportagem publicada no site oficial do Governo Federal em 24 de agosto último, naquele dia a Polícia Rodoviária Federal recebeu a visita do adido militar de Israel, coronel Oded Knaan, para compromissos em Pernambuco. “O intuito do encontro foi o de estreitar a cooperação técnica e tecnológica entre o país e as instituições de Segurança Pública, da Justiça e da esfera Legislativa, além de promover a troca de conhecimentos e experiências entre as entidades”, informa o texto.

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Na mesma matéria, consta que a “comitiva da PRF foi composta pelo superintendente executivo, Eduardo Siqueira Campos, pelo coordenador de Processamento de Policiamento em Brasília, Duarte Pires e pelo chefe substituto do Serviço de Operações, Filipe Ranier”.

Ainda na reportagem, o superintendente regional da Polícia Rodoviária Federal, Antonio Vital, destaca: “Essa visita é de extrema relevância para a PRF, pois representa a retomada da integração com Israel, que já contribuiu de maneira significativa com a doutrina da instituição e ainda tem muito a colaborar com nosso aprimoramento, tanto na área de tecnologia como de treinamento para nossos policiais.”

Acordo de cooperação em questões relacionadas a defesa entre Brasil e Israel firmado por Bolsonaro logo após sua posse, em março de 2019, foi aprovado no Plenário do Senado em 29 de março último e deve intensificar essa colaboração da morte. Segundo reportagem na Agência Senado, o acordo inclui “visitas mútuas de delegações a entidades civis e militares; encontro entre representantes de instituições de defesa; visitas de navios e aeronaves militares; intercâmbio de pessoal e aquisição de materiais e serviços de defesa. Fica autorizado ainda a participação em cursos de treinamento, estágios, seminários, conferências e simpósios em entidades militares e civis de interesse para Defesa”.

Além da denúncia da limpeza étnica em curso na Palestina, com a cumplicidade do governo federal e estaduais, que sustentam o derramamento de sangue lá enquanto promovem o genocídio pobre e negro aqui, urge retomar a campanha por embargo militar a Israel. Exigir o fim desses acordos criminosos é mais do que solidariedade com o povo palestino. É também parte da luta por justiça para Genivaldo, para as vítimas da chacina de Vila Cruzeiro e todas as que enfrentam cotidianamente a violência policial.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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