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Haverá apelos por justiça a Shireen Abu Akleh ou Israel continuará seus assassinatos?

Shireen Abu Akleh, correspondente da Al Jazeera, assassinada por Israel, em Jerusalém ocupada [Shireennasri/Twitter]

O mundo despertou nesta manhã com as notícias de mais outra jornalista palestina executada por disparos israelenses. Shireen Abu Akleh, correspondente veterana da Al Jazeera, foi assassinada enquanto cobria os ataques de tropas sionistas contra a cidade de Jenin, na Cisjordânia ocupada. O Ministério da Saúde da Autoridade Palestina (AP) confirmou que Abu Akleh foi baleada na cabeça, transferida a um hospital e declarada morta.

“A bala foi disparada contra um local que não poderia ser protegido por seu colete ou capacete de imprensa”, explicou Waleed al-Omari, diretor regional da Al Jazeera em Ramallah. “Aparentemente, Abu Akleh foi baleada por um franco-atirador israelense que queria matá-la”.

O produtor Ali al-Samoudi, colega de Abu Akleh, foi baleado nas costas; segundo os relatos, sua condição permanece estável. “Fomos alvejados em uma área vazia”, recordou al-Samoudi. “Não houve confrontos, não houve tiroteios, sequer houve quem que atirasse pedras”.

A jornalista Shatha Hanaysheh estava ao lado de Abu Akleh na ocasião do disparo. “Éramos um grupo de quatro jornalistas”, destacou. “Estávamos em uma localidade de visão clara aos soldados da ocupação israelense; ninguém estava armado e não houve confrontos”.

O exército israelense alegou “investigar” o caso. Segundo seu comunicado, as tropas sionistas conduziam uma “busca por foragidos” junto do serviço de segurança interna Shin Bet e da polícia de fronteira no campo de refugiados de Jenin e nos arredores da aldeia de Burqin, além de outras localidades da Cisjordânia ocupada. As autoridades sionistas insistem na tese de disparos palestinos, em um suposto confronto com tropas israelenses, que “reagiram com fogo, sem causar baixas”.

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A Al Jazeera descreveu Shireen Abu Akleh como “parte da primeira geração” de seus repórteres de campo. “Por um quarto de século, Abu Akleh esteve no coração do perigo para cobrir guerras, ofensivas e agressões da ocupação israelense contra o povo palestino nos territórios ocupados”, declarou a rede de imprensa radicada em Doha, capital do Catar.

Shireen Abu Akleh nasceu em Jerusalém ocupada, em 1971; possuía cidadania palestina e estadunidense; e graduou-se em jornalismo na Universidade de Yarmouk, na Jordânia. Recentemente concluiu sua pós-graduação em imprensa moderna. Começou a trabalhar para a rede Al Jazeera em 1997 e apareceu em frente às câmeras para transmitir informações diretamente da Palestina, do Egito e dos Estados Unidos, entre outros países.

As facções palestinas condenaram o assassinato e acusaram a ocupação de “executá-la” como “parte dos esforços para encobrir crimes de guerra e lesa-humanidade”.

A Al Jazeera prometeu lutar por justiça contra os assassinos de Abu Akleh: “Não importa o quanto tentem encobrir este crime, buscaremos justiça”.

Diversos governos e entidades internacionais também repudiaram a execução de Abu Akleh, incluindo Organização das Nações Unidas (ONU), Estados Unidos, Grã-Bretanha e China. “Condeno veementemente o assassinato da repórter da Al Jazeera, Shireen Abu Akleh, baleada com munição real nesta manhã, enquanto cobria uma operação das forças de segurança de Israel na cidade de Jenin, na Cisjordânia ocupada”, declarou Tor Wennesland, representante da ONU para o “processo de paz” no Oriente Médio, em sua página do Twitter.

Thomas Nides, embaixador dos Estados Unidos em Israel, afirmou nas redes sociais: “Muito triste saber da morte da jornalista palestino-americana Shireen Abu Akleh. Encorajo uma investigação detalhada sobre as circunstâncias do episódio, incluindo ao menos outro jornalista ferido, nesta quarta-feira, em Jenin”.

Até mesmo o Ministro de Relações Exteriores de Israel Yair Lapid alegou no Twitter que seu governo conduzirá um inquérito conjunto com a Autoridade Palestina sobre o episódio. “Jornalistas devem ser protegidos nas zonas de conflito e temos absoluta responsabilidade em buscar a verdade”, afirmou o chanceler israelense.

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Embora tamanha condenação pareça positiva, não é novidade alguma. A dura realidade é que o estado ocupante tem permissão para agir com impunidade ao conduzir assassinatos recorrentes. Nós todos sabemos — assim como Tel Aviv — que não haverá repercussões internacionais à morte de Shireen Abu Akleh ou outros palestinos. Apesar do nobre fraseado do embaixador americano, é justamente seu país quem confere proteção diplomática a Israel, além de providenciar anualmente US$3 bilhões em assistência militar; é precisamente Washington quem põe a arma nas mãos da ocupação, que — por sua vez — atira para matar e mutilar civis palestinos em âmbito cotidiano.

Haverá então uma investigação unilateral israelense ou Ramallah poderá contribuir? Efetivamente, o exército ocupante já introduziu esforços para encobrir o crime, ao sugerir que a morte de Abu Akleh decorreu de disparos palestinos. O porta-voz israelense Ran Kokhav afirmou à rádio militar que os palestinos levaram o corpo ao funeral e que lhes cabe a iniciativa de conduzir uma autópsia conjunta para determinar a causa mortis. Na prática, Kokhav antecipou-se em fechar as portas para qualquer investigação de sua parte.

Este inquérito, não obstante, é desnecessário. Relatos de testemunhas viralizaram nas redes sociais e mesmo na grande imprensa; ninguém pode sequer alegar desconhecimento. É evidente e notório que Abu Akleh vestia um colete escrito “IMPRENSA” em letras garrafais, quando foi baleada, sem qualquer indivíduo armado nas proximidades.

O fato de que os soldados israelenses continuaram a atirar e recusaram-se a permitir o acesso de uma ambulância ao local indica veementemente sua intenção de executar Abu Akleh; e podemos dizer que não havia qualquer outra motivação senão seu trabalho para a Al Jazeera em difundir as ações executadas pelas tropas sionistas na Cisjordânia. Abu Akleh não é a primeira profissional de imprensa — palestina ou não — vítima da ocupação. Eu mesmo fui baleado nas costas por um soldado israelense em 2018, ao cobrir as manifestações da Grande Marcha do Retorno, na Faixa de Gaza. Yaser Murtaja não teve a mesma sorte; o jovem fotojornalista foi morto a tiros por atiradores sionistas na mesma ocasião.

Segundo Naser Abu Baker, representante do Sindicato dos Jornalistas da Palestina, Abu Akleh foi a 55ª repórter palestina a ser executada pela ocupação desde 2000. Em entrevista concedida à rede Al Jazeera, Baker mencionou um decreto do governo israelense, aprovado em 15 de novembro de 2015, para lançar uma “guerra” contra os jornalistas palestinos.

Outra estatística aterradora é que Shireen Abu Akleh foi a 58ª palestina morta por Israel desde janeiro de 2022. Poucas horas depois, um indivíduo israelense matou a tiros um jovem palestino em al-Bireh, nos subúrbios de Ramallah. Trata-se da 59ª vítima da ocupação colonial sionista somente este ano.

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O repúdio de líderes e entidades globais não basta; tampouco apelos e promessas vazias de investigação. Nada disso buscará justiça por Shireen Abu Akleh ou outros palestinos deliberadamente executados por Israel. Nada disso impedirá a ocupação de assassinar cada vez mais cidadãos nativos. Apenas sanções e processos penais contra a ocupação e suas autoridades poderão fazê-lo. Não obstante, parece que os ventos da política internacional ainda não sopram neste sentido.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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