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Lobby sionista vê vitória de ativistas palestinos na justiça

Ativistas da Ação palestina ocupam o exterior do escritório da empresa Elbit Systems, fabricante de armas israelenses, em Londres, Inglaterra, 6 de agosto de 2021 [Guy Smallman/Getty Images]

Todos sabemos que grupos de lobby podem angariar tremenda influência política e que aqueles que apoiam o estado ocupante de Israel estão entre os mais influentes nos países ocidentais. Todavia, parece que pouco a pouco se dissipa tamanha influência, ao menos no que se refere aos tribunais do Reino Unido. Parece que a justiça foi feita, a favor de ativistas que invadiram fábricas de drones militares de uma corporação israelense em solo britânico.

A recente decisão foi descrita como outra vitória extraordinária da campanha Ação Palestina, após um juiz retirar a queixa no processo mais recente contra seus manifestantes. Durante audiência realizada nesta quinta-feira (20), a promotoria deixou de apresentar evidências, após serem expostas infrações graves por parte da polícia, de modo que os três ativistas não poderiam ser devidamente julgados de maneira justa.

O julgamento referia-se a 5 de julho do ano passado, quando três mulheres da Ação Palestina paralisaram os trabalhos de uma instalação industrial em Birmingham, como parte de uma campanha abrangente para denunciar os crimes da ocupação a fornecedores, parceiros de negócios, locatários, entre outros. O alvo em questão pertencia à corporação israelense Elbit Systems, notória fabricante de drones armados. Os ativistas passaram correntes nos portões, subiram no telhado e grafitaram a fachada com tinta vermelha, para demarcar a cumplicidade da empresa com o assassinato de palestinos inocentes. O ato foi bastante bem sucedido e interrompeu as atividades no local, ao passo que os manifestantes conseguiram expor a participação da companhia nos crimes de guerra cometidos por Israel.

Acusações de vandalismo, invasão de propriedade e resistência à prisão foram então apontadas contra três mulheres que participaram do protesto nos escritórios da Vine Property Management, companhia que utiliza a razão social Fisher German e administra propriedades utilizadas pela Elbit System na região de Shenstone, em Staffordshire.

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A decisão da corte sucedeu em apenas um mês a absolvição de três outros ativistas acusados de vandalismo, durante uma barricada conduzida em uma fábrica de motores da Elbit Systems. Em dezembro, a Corte de Magistrado de Birmingham inocentou os chamados Três da Elbit, após a promotoria falhar em demonstrar crimes relacionados aos danos causados à instalação industrial, também administrada pela Vine Property Management. Ao longo do processo, os advogados de defesa reafirmaram que a companhia é cúmplice de massacres perpetrados contra o povo palestino e acusaram a promotoria de abuso de poder.

Membros da Ação Palestina, até então, saíram vitoriosos em ambos os processos judiciais incitados contra eles. Mesmo os juízes pareceram compreender princípios de necessidade e proporcionalidade ao agir para denunciar a cumplicidade britânica com crimes de guerra.

Protesto em apoio à Ação Palestina, em Leicester, Reino Unido, 21 de maio de 2021 [Vudi Xhymshiti/Agência Anadolu]

No entanto, a principal diferença neste último caso envolvendo ativistas da Ação Palestina é que o processo implodiu praticamente antes de começar, permitindo que os três acusados caminhassem livres, após uma segunda derrota humilhante da Elbit Systems. Os manifestantes, representados por Lydia Dagostino, sequer tiveram de argumentar a seu favor perante o tribunal. Após o veredito, sua alegria era notável. “Esse tipo de ativismo é imprescindível e proporcional diante dos crimes de guerra e lesa-humanidade cometidos com produtos da Elbit”, declararam os manifestantes. “Mesmo o judiciário conseguiu reconhecer os fatos e a promotoria foi incapaz de construir argumentos viáveis, de modo que a Ação Palestina pode então manter seus apelos pelo fim da violência policial, da intimidação e de agressões físicas cometidas contra ativistas detidos”, acrescentou o grupo em comunicado.

Vale mencionar: talvez a polícia britânica fosse melhor empregada caso investigasse os verdadeiros criminosos, isto é, os cúmplices dos crimes de guerra de Israel contra os palestinos. Drones Hermes e Watchkeeper, fabricados pela Elbit Systems, possuem capacidade letal e são utilizados contra civis na Faixa de Gaza sitiada. O drone Hermes é descrito como “espinha dorsal” do vasto aparato de vigilância israelense, a fim de escolher precisamente seus alvos.

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Em um caso relacionado, grupos de direitos humanos no Reino Unido conquistaram outra “grande vitória” contra a Elbit Systems, de modo a fechar uma de suas fábricas no país europeu, após 18 meses de protestos diretos convocados pela Ação Palestina. A instalação da corporação israelense em Manchester foi então vendida por US$12 milhões, em um acordo aparentemente elaborado para reestruturar as operações da empresa no Reino Unido.

“A produção de armas, drones e tecnologia militar depende de uma vasta rede de cumplicidade empresarial”, destacou a Ação Palestina. “Estamos comprometidos em desmantelar esta rede, ao reivindicar o fim de parcerias com a Elbit Systems, a menos que as empresas queiram fechar as portas junto da corporação israelense. A mensagem a outras companhias que possuem sangue palestino nas mãos é bastante clara: até que deixem de facilitar a repressão brutal de Israel contra os palestinos e cortem laços com a Elbit Systems, a Ação Palestina terá de interromper seus trabalhos e sua subsequente contribuição com atos de genocídio”.

A mensagem reverberou nas cortes britânicas, mas ainda não criou raízes no parlamento, apesar de uma atordoante reportagem da Al Jazeera em quatro episódios, intitulada The Lobby, que revelou o papel escandaloso da embaixada de Israel na cooptação de políticos britânicos. O fato de o lobby sionista ser capaz de “derrubar” um congressista eleito e ter recursos para tanto representa ainda uma verdadeira mácula na arena política do Reino Unido.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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