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O fracasso da experiência no Cazaquistão

Prédio administrativo incendiado por protestos contra o aumento no preço dos combustíveis, na cidade central de Almaty, Cazaquistão, 7 de janeiro de 2022 [ALEXANDR BOGDANOV/AFP via Getty Images]

A Rússia frustrou um plano israelo-americano de bombardear o Cazaquistão, como fizeram as potências ocidentais no Afeganistão, no Iraque, na Síria, na Líbia e no Iêmen. Moscou aproveitou-se de sua recente experiência ao intervir no território sírio. Rapidamente, o governo russo respondeu ao pedido do presidente cazaque Kassym-Jomart Tokayev para adentrar no país sob o disfarce da Organização do Tratado de Segurança Coletiva, entidade criada em 2002 após a invasão americana no Afeganistão. O grupo consiste de seis ex-repúblicas soviéticas: Rússia, Cazaquistão, Bielorrússia, Armênia, Tadjiquistão e Quirguistão. As tropas foram enviadas com dois objetivos: proteger instalações do estado e conceder apoio às forças cazaques para enfrentar uma suposta invasão de facções armadas jihadistas.

As fronteiras do Cazaquistão com a China estendem-se por 1.460 km; com a Rússia, são 6.467 km, com área equivalente a 2.5 milhões de quilômetros quadrados. O país é rico em minerais como petróleo, gás natural, manganês, ferro, crômio e carvão. Representa ainda o maior produtor de urânio do mundo. Portanto, um braço produtivo para as demandas de China, Rússia e outros países. Sua população equivale a menos de 20 milhões de pessoas, embora seja o nono país em termos de área. Na região meridional, o Cosmódromo de Baikonur ainda é o maior e mais importante centro de lançamento de foguetes de todo o mundo.

O Cazaquistão tornou-se assim foco de atenção internacional, ao passo que sua localidade estratégica na Ásia Central ganhou importância nas últimas décadas. Devido a seu impacto em potencial sobre a segurança de Pequim e Moscou, ambos adversários de Washington, tais países alteraram a prioridade estabelecida sobre o Oriente Médio para os territórios asiáticos. Neste contexto, os Estados Unidos retiraram-se às pressas do Afeganistão, então entregue ao movimento Talibã, o que efetivamente criou um círculo de tensão, atrito e mesmo confronto com a China a leste, o Irã a oeste e Tadjiquistão, Uzbequistão e Turcomenistão ao norte. A ideia agora é incendiar a Ásia Central para exaurir a China, a Rússia e o Irã, a fim de assegurar que os interesses americanos não sejam expostos pelos agentes regionais.

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O plano para bombardear o Cazaquistão ocorreu em dois estágios:

Primeiro, por meio de protestos populares deflagrados em 2 de janeiro de 2022, convocados por organizações da sociedade civil, motivados pela falta de democracia e pluralismo, assim como pela alta nos preços de combustíveis e bens essenciais sob a persistente crise econômica. Segundo, pela transferência de facções jihadistas adeptas do fundamentalismo islâmico, como a Al-Qaeda e o Estado Islâmico (Daesh), amparadas por uma experiência de combate acumulada no Afeganistão, na Síria e no Iraque. Todas parecem financiadas por recursos do petróleo, sob planejamento americano, israelense e mesmo europeu.

A rápida intervenção russa na última quinta-feira, 6 de janeiro de 2022, junto de seus aliados da Organização do Tratado de Segurança Coletiva, aparentemente frustrou planos para converter o Cazaquistão no próximo centro de tensão, após o Afeganistão, a fim de criar uma retaguarda capaz de exaurir os oponentes de Washington por meio da instabilidade na Ásia Central. Justamente, foi o que aconteceu no mundo árabe, que culminou na devastação da Síria, do Iraque, da Líbia e do Iêmen, além de debilitar a capacidade econômica de outros países, em benefício da ocupação e colonização israelense.

A conspiração contra o Cazaquistão fracassou. Washington, Tel Aviv, Europa e seus financistas tentarão avançar ou mudarão de foco? Neste caso, qual país será então escolhido a seguir?

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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