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Relembrando o Massacre Dos Erres na Guatemala

Sob as ordens do ditador Efraín Ríos Montt, a pequena aldeia da Guatemala viveu um dos maiores horrores promovidos pelas ditaduras no continente
Escavações resgatam os corpos das vítimas de Dos Erres, por anos ocultos em um poço aterrado [twitter]

O que: Massacre de aproximadamente 300 camponeses na aldeia Dos Erres, durante a ditadura

Quando: 6 a 8 de dezembro de 1982

Onde: Guatemala

O que aconteceu

Em meio à ditadura no país da América Central, a aldeia Dos Erres viveu um dos piores massacres entre 6 e 8 de dezembro de 1982, de um total de 669 registrados no relatório Memórias do Silêncio. O documento é elaborado pela Comissão para o Esclarecimento Histórico, cuja primeira edição é de junho de 1999. A Guatemala estava então sob a administração do general Efraín Rios Montt (1982-1983).

O Centro de Justiça e Responsabilidade (CJA, na sigla em inglês) relata: “Adotando uma estratégia chamada ‘drenar o mar onde os peixes nadam’, o ditador Efraín Ríos Montt ordenou às forças armadas que arrasassem vilas inteiras e massacrassem camponeses indígenas suspeitos de simpatizar com a guerrilha.”

No dia 6 de dezembro de 1982, 58 militares das unidades especiais Kaibils cercaram a aldeia rural Dos Erres, no departamento de Petén, a 600km ao norte da capital, Cidade da Guatemala. Massacraram cerca de 300 habitantes, segundo a Comissão de Direitos Humanos da Guatemala (GHRC, na sigla em inglês), com requintes de crueldade.

“Disfarçados de guerrilheiros, os Kaibils invadiram a aldeia e conduziram os homens para o prédio da escola e as mulheres para duas igrejas. Depois de procurar, em vão, por propaganda comunista e contrabando, os soldados começaram a carnificina. Eles jogaram um bebê de três meses, vivo, em um poço de água vazio, depois começaram a esmagar as cabeças dos bebês contra paredes e árvores. Os crânios das crianças mais velhas foram esmagados com uma marreta”, descreve o CJA. E continua: “Os aldeões foram interrogados, alvejados e jogados no poço. Mulheres e meninas foram estupradas e depois mutiladas com facões.” As vítimas foram atiradas no poço, algumas ainda vivas, descreve ainda a GHRC, segundo a qual 113 dos assassinados eram crianças com menos de 14 anos de idade. “Os Kaibils jogaram terra no poço […]”, completa o CJA. Apenas quatro menores sobreviveram.

Antecedentes

Segundo a Enciclopédia Latinoamericana, na história do século XX, a Guatemala viveu um breve período democrático de dez anos, entre 1944 e 1954. O período é marcado por reforma agrária impulsionada por Jacob Arbenz Guzmán, que “entregou terra a 100 mil camponeses e expropriou 1,5 milhão de acres do latifúndio privado”.

Esse ciclo se interrompe com golpe de Estado apoiado pelo imperialismo estadunidense e das ditaduras hondurenha e nicaraguense, que destitui Arbenz do governo. A intervenção militar foi comandada pelo coronel Carlos Castillo Armas. A resistência à ditadura e sua sucessão de governos militares desemboca em guerra civil que dura 36 anos – de 1960 a 1996 –, período em que estima-se a morte e desaparecimento de cerca de 250 mil pessoas.

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O que Israel tem a ver com isso

As unidades especiais eram municiadas por armas e treinamento vendidos pelo Estado racista de Israel. Em artigo de sua autoria, datado de 25 de dezembro de 1981, Penny Lernoux aponta que a “Guatemala comprou dez Aravas [jatos militares desenvolvidos pela Israel Aircraft Industries] e os equipou com metralhadoras na parte dianteira do avião e como estruturas com metralhadoras abaixo das asas. Também comprou grandes quantidades de rifles Galil, um sistema de transmissão tática e um circuito de radar complexo. A imprensa guatemalteca informou sobre periódicas chegadas de navios ao porto de Santo Tomás de Castilla, que vinham de Israel com armas para o exército guatemalteco.” Segundo ele, guerrilheiros que lutavam contra a ditadura no país afirmavam à época que “instrutores militares israelenses e argentinos estavam treinando” os militares na Guatemala.

O que houve depois

Conforme o portal TRTWorld, em relação ao massacre de Dos Erres, “em 1999, um Comitê de Investigação da Verdade, sancionado pela ONU, descobriu que ‘todas as evidências balísticas recuperadas (da cena da aldeia) correspondiam a fragmentos de balas de armas de fogo e cápsulas de rifles Galil, feitos em Israel”.

Ainda de acordo com a notícia, o general Ríos Montt “também agradeceu aos militares israelenses pelo treinamento de soldados guatemaltecos” para o sucesso do golpe militar, que “foi fundamental para a condução do genocídio contra a população maia”. Além disso, especialistas observaram que “pelo menos 300 assessores israelenses” estavam na Guatemala durante o golpe.

A reportagem, publicada em 18 de fevereiro de 2021, lembra que o New York Times, à época, relatou que “Israel é conhecido por ter equipes de inteligência, especialistas em segurança e comunicações e pessoal de treinamento militar na Guatemala”.

E vaticina: “A campanha brutal de Montt contra os maias do país também carregou temas notavelmente semelhantes a algumas políticas israelenses contra os palestinos. A campanha de ‘armas e feijões’ de Montt, que oferecia ‘Se você estiver conosco, vamos alimentá-lo, se não, vamos matá-lo’, era quase idêntica ao plano de paz econômica do atual primeiro-ministro Benjamin Netanyahu para os palestinos sob o Acordo do Século, promovido pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. De acordo com o plano, os palestinos receberiam benefícios econômicos ao desistirem de suas reivindicações, muitas das quais estão consagradas no direito internacional, sobre os territórios ocupados.”

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Matéria publicada pelo Correio do Povo informa que entre 2008 e 2018 “os tribunais guatemaltecos proferiram 16 sentenças em casos de crimes graves, condenando 30 ex-oficiais, comissários militares e ex-membros da patrulha de defesa civil, por tortura, desaparecimentos, execuções extrajudiciais e agravada violência sexual e escravidão sexual e doméstica. Os primeiros casos que chegaram a julgamento se concentraram principalmente em oficiais de baixa patente durante a guerra. Mas o ímpeto se deslocou para a acusação de militares do alto escalão”.

Entre os condenados, militares das unidades Kaibil pelo massacre de Dos Erres. Na sentença, o tribunal guatemalteco declarava que a aldeia foi riscada do mapa. Outra semelhança com o que ocorreu na Palestina. À Nakba (catástrofe com a formação do Estado de Israel em 15 de maio de 1948 mediante limpeza étnica planejada), cerca de 500 aldeias palestinas foram destruídas e em pelo menos 31 delas foram documentados genocídios.

Em 2013, Ríos Montt foi finalmente declarado culpado por genocídio e crimes contra a humanidade depois de escapar de um processo por conta da imunidade parlamentar. Mas nunca foi preso, sob o pretexto da idade avançada. Morreu em 2018, aos 92 anos de idade, sem jamais pagar por seus crimes contra a humanidade.

Não obstante, como aponta o Correio do Povo em reportagem de 13 de setembro último, os militares condenados poderiam em breve não ter que cumprir suas sentenças e permanecer em liberdade. O Congresso estava para votar mudança na Lei de Reconciliação Nacional, concedendo anistia geral aos crimes cometidos durante o período sob pressão de generais reformados, ante o crescente número de condenações nos últimos anos. A luta contra a impunidade e por justiça segue na ordem do dia.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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