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Jair Bolsonaro e Pastor extremista Silas Malafaia incitam apenas ódio e guerra civil no Brasil

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O presidente Jair Bolsonaro e o pastor Silas Malafaia, no Palácio do Planalto. Em 03 de fevereiro de 2020 [ Isac Nóbrega/Presidência da República]

Durante os seis anos em que morei em Roma como jornalista, entrevistei centenas de mulheres mais velhas, filhas do fascismo, mulheres que tiveram seus pais assassinados na devastadora guerra para a qual Mussolini arrastou a Itália.

Eu precisava entender o ódio que dominou os italianos nas décadas de 30 e 40 e como ele foi sendo alimentado por grupos poderosos e invisíveis até então, legitimando agressões contra todos os que não eram cristãos, contra minorias religiosas, jovens de esquerda, mulheres independentes e trabalhadores rurais, etc, dando origem ao regime que mais tarde seria chamado de fascismo.

As semelhanças das milícias fascistas da década de 30 e as milícias cristãs que ainda apoiam Bolsonaro são assustadoras. Aquelas milícias eram chamadas por Mussolini de “fascio”, uma espécie de feixe com vários gravetos de madeira que, juntos, podem fazer uma fogueira.

O movimento italiano passou a ganhar força quando a Milizia Volontaria per La Sicurezza começou a agredir as pessoas em manifestações cada vez mais violentas nas ruas e a colocar fogo em casas e matas na zona rural da Itália.

Os milicianos que levaram Mussolini ao poder eram chamados de Camicie Nere, Camisas Negras, em homenagem aos arditi, que usavam uniformes negros, e agiam em nome do anticomunismo, antipacifismo e do nacionalismo.

Eles atacavam mulheres, espancavam intelectuais e jornalistas, agrediam os membros das Ligas Camponesas, perseguiam mulheres e as agrediam com cartazes nas ruas.

Poucas pessoas sabem que bem antes da II Guerra, as “milizie volontarie” foram responsáveis pelo assassinato de 600 italianos, enquanto a polícia os apoiava ou se recusava a fazer algo contra elas.

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As “ milizie” foram fortalecidas pelo apoio da ala de extrema-direita dos Carabinieri, a Polícia Militar da Itália. No início, os milicianos italianos usavam apenas porretes ao invés de armas, pois o objetivo era humilhar os inimigos, mas em poucos meses, Mussolini criou um programa de incentivo à compra de armas, tendo o apoio de uma grande parte dos cristãos da época e de padres que o apoiavam aumentando o número de assassinatos no campo e no interior da Itália.

Os milicianos, conhecidos como camicie nere, queriam impedir as pessoas de ajudar os refugiados de guerra e os ciganos, impedir juízes de investigar as mortes cometidas por eles, e se uniam em grandes grupos para comprar fuzis e utilizá-los contra os jovens da resistência, chamados na Itália de “partigiani”.

Em 1937, num de seus discursos mais famosos e mais violentos, Mussolini afirmaria em Roma que “só um povo armado é um povo livre”

As semelhanças com o momento que vivemos no Brasil são assustadoras.

Nos últimos dias, ao conversar com seus milicianos digitais e com os apoiadores na saída do Palácio do Alvorada, o presidente Bolsonaro afirmou por duas vezes que “todo mundo precisa comprar fuzil, só idiota reclama que tem que comprar feijão”.

O sujeito que hoje ocupa o mais alto cargo do executivo brasileiro, foi além.

“O CAC, que é fazendeiro, compra fuzil 762. Tem que todo mundo comprar fuzil. Povo armado jamais será escravizado. Eu sei que custa caro. ‘Ah, tem que comprar é feijão.’ Cara, se não quer comprar fuzil, não enche o saco de quem quer comprar”, afirmou Bolsonaro na saída do Palácio do Planalto.

A sigla CAC é como são chamados por ele os caçadores, atiradores e colecionadores.

O presidente Jair Bolsonaro se elegeu tendo como uma de suas principais promessas a facilitação do acesso a armas, e tendo como símbolo de campanha os seus dois dedos apontados para nós em forma de arma letal.

De fato, o número de fuzis, pistolas e rifles adquiridos no Brasil disparou vergonhosamente e, julho de 2021, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, as medidas de facilitação do acesso a armas fizeram com que o Brasil alcançasse a marca de 2.077.126 armas particulares, ou seja, uma arma para cada 100 brasileiros, o que é um índice altíssimo para um país violento como o Brasil.

A própria campanha eleitoral do então candidato Bolsonaro recebeu doações financeira da Taurus, uma das maiores fabricantes de armas do Brasil e da América Latina.

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Não se sabe quanto o presidente terá recebido da empresa em 2018, mas a empresa vem tendo lucros que jamais havia registrado em sua história e testemunhando a transformação do Brasil em um país feito de mais armas, menos investimento em saúde e educação e mais investimentos na indústria da morte.  As vendas da fabricante de armas apenas em 2019 atingiram 303 mil unidades e a receita com as vendas ao Brasil e aos EUA totalizou R$ 200,4 milhões no primeiro trimestre daquele ano, um número 19,4% superior ao verificado no mesmo período do ano anterior.

Enquanto as vidas de cerca de 600 mil brasileiros foram ceifadas pelo atraso e pela corrupção na compra de vacinas e as vidas de mais de 10 milhões de crianças brasileiras estão em risco pela carência alimentar e pela alta do preço dos alimentos, a indústria da morte prospera com Bolsonaro.

Como se não nos bastasse um governo que pratica claramente a necropolítica, o conselheiro espiritual de Bolsonaro, o pastor fundamentalista Silas Malafaia, vem incitando seus fiéis a participar de manifestações violentas no dia sete de setembro.

Sim, o sujeito uniu vários pastores evangélicos em um vídeo de tom belicista, em apoio ao presidente Jair Bolsonaro, no exato momento em que o presidente incentiva o confronto armado no Brasil, declarando que todos os brasileiros devem comprar um fuzil.

O pastor e empresário que enriqueceu fazendo uso de discursos violentos e de uma verborragia que nada tem de cristã é o mesmo sujeito que em 2009 afirmou, em um culto nos EUA, que havia comprado um avião particular por 12 milhões de dólares. É o mesmo sujeito que prega a honestidade, mas que, tendo nascido pobre, jamais conseguiu explicar a origem de sua fortuna, e que foi classificado em 2013, pela Forbes, como um dos três pastores mais ricos da América Latina, com um patrimônio de 150 milhões de dólares.

É o mesmo sujeito que foi indiciado pela Polícia Federal em 2017 por lavagem de dinheiro e que, de acordo com a PF, “se locupletou com valores altos de origem ilícita”. Sim, uma investigação da Polícia Federal detectou, em 2017, que um cheque do escritório de advocacia de Jader Pazinato foi depositado na conta de Malafaia e que esse escritório teria recebido recursos ilícitos desviados de prefeituras através de uma organização criminosa. Segundo o relatório da PF, contratos fraudulentos com prefeituras eram usados para desviar recursos de arrecadação da mineração.

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Malafaia, o pastor que incita ódio e guerra civil no Brasil, é o mesmo que lidera a propagação da Teologia da Prosperidade, algo importado dos EUA, que criminaliza os mais pobres dentro da igreja e que não tem absolutamente nenhum fundamento bíblico.

O pastor apresenta um programa belicista, medíocre e de culto ao dinheiro há mais de 29 anos na TV, um programa em forma de “Cruzadas Evangelistas” e transmitido por várias emissoras no país. Em uma entrevista dada em novembro de 2010, Silas Malafaia chamou os pastores mais pacifistas e que não pregam a Teologia da Prosperidade, ou seja, que não cultuam dinheiro como o valor máximo do cristianismo e que não criminalizam os pobres, de “idiotas que deveriam perder a credencial de pastor para aprender melhor sobre as Escrituras”.

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Charge Latuff

O conselheiro espiritual de Bolsonaro também já protagonizou inúmeras outras incitações ao ódio.

Já incentivou pessoas a agredirem homossexuais nas ruas, e já chamou a jornalista Eliane Brum de “vagabunda” durante uma entrevista concedida ao jornal norte-americano New York Times, em novembro de 2011. A ofensa foi proferida após a publicação de um artigo de Brum onde ela relata as agressões vividas por pessoas agnósticas ou ateias no Brasil.

Como jornalista e como embaixadora da paz, alguém que cobriu a destruição final da Iugoslávia em 2001, que cobriu os bombardeios finais de uma guerra que começara seis anos antes com os cristãos ortodoxos sendo armados por milicianos para matar os muçulmanos da Bósnia ( com quem antes conviviam como irmãos), como alguém que entrevistou em Sarajevo  as mães que perderam seus filhos no Massacre de Srebrenica, quando mais de 8 mil jovens muçulmanos foram mortos por cristãos extremistas enlouquecidos, como alguém que chorou depois de entrevistar as mulheres sírias refugiadas em Zahle, e ouviu os relatos de como o fácil acesso a armas e o ódio político destruíram a Síria, só posso afirmar que a atmosfera de guerra civil que tomou conta de meu país tem devastado meu coração.

Os senhores da guerra e os aliados da morte sequestraram também o país que mais amo no mundo.

Que Deus tenha misericórdia do Brasil.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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