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A Federação Israelita e o silenciamento da crítica a Bolsonaro

O presidente eleito, Jair Bolsonaro, e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, visitam a sinagoga Kehilat Yaacov, em Copacabana, no Rio de Janeiro [Foto Fernando Frazão/ Agência Brasil]
O presidente eleito, Jair Bolsonaro, e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, visitam a sinagoga Kehilat Yaacov, em Copacabana, no Rio de Janeiro [Foto Fernando Frazão/ Agência Brasil]

O Brasil mergulha cada vez mais numa longa noite de ódio e intolerância,  cuja data de término ou possibilidade de se transformar em um amanhecer de esperanças  ainda não conhecemos.

Recentemente, aconteceu mais  um episódio de intolerância e de tentativas de silenciar qualquer crítica à comunidade judaica no Rio de Janeiro.

O professor Michel Gherman, com quem eu não concordo em muitos em muitos temas que dizem respeito ao sionismo e às ações do governo de Israel, tem sido alvo de imorais  intimidações da Federação Israelita do Rio de Janeiro.

Gherman  é  coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos (NIEJ) da Universidade Federal do Rio de Jaةشneiro, é doutor em História social pela UFRJ e Mestre em Antropologia e Sociologia pela Hebrew University, e um brasileiro de origem judaica.

Esse  professor brasileiro tem feito comparações  fundamentadas entre o bolsonarismo no Brasil  e o nazismo na Alemanha.

Comparações que eu também tenho feito há alguns anos em dezenas de artigos meus sobre a Berlim de 1933 e o Rio de Janeiro de 2018 ou 2021.

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Existe uma  flagrante semelhança entre o discurso de Hitler e o discurso de Bolsonaro no Clube Hebraica no Rio de Janeiro , aplaudido por centenas de judeus de extrema- direita, afirmando que ” as minorias ou se adequam ou desaparecem”, afirmando na mesma noite que esteve em um Quilombo brasileiro e que o quilombola mais leve pesava mais de três arrobas (medida usada para pesar animais e não seres humanos) e que em seu governo não haveria um centímetro de terra demarcada para ” indígenas preguiçosos”.

Sim, membros da Federação Israelita, judeus    que ainda apoiam Bolsonaro são os mesmos que apoiaram o presidente mesmo quando ele   escolheu como Secretário  Nacional da Cultura o senhor Roberto Alvim, que em um dos seus discursos para os brasileiros repetiu frases literais  do nazista Joseph  Goebbles, usou uma música de Wagner,  amado por Hitler, na abertura do vídeo, citou parágrafos inteiros de Goebbles em outras ocasiões e que afirmava, assim como Bolsonaro, que o nazismo é movimento de esquerda.

Para qualquer pessoa que tenha  estudado minimamente a II Guerra Mundial e os movimentos nacionalistas europeus da década de 30 e 40 o nazismo jamais poderia ser de esquerda, mas para Bolsonaro a ignorância e o negacionismo histórico podem ser  usados a qualquer momento como armas que retroalimentam  o ódio.

Membros da Federação israelita do Rio de Janeiro   que ainda apoiam Bolsonaro são os mesmos que o elegeram mesmo depois de terem visto, em 2015, uma célebre foto de Jair  Bolsonaro apoiando  um candidato a vereador vestido de Adolf Hitler.

O candidato nazista  a vereador na Cidade Maravilhosa,  conhecido como Professor Marco Antonio, foi  naquele momento  levado até mesmo  a uma cerimônia no legislativo municipal pelo filho do atual presidente, Carlos Bolsonaro., e fez elogios ao autoritarismo , à ditadura brasileira e à organização do regime nazista.

Membros  brasileiros da Federação Israelita  que ainda apoiam Bolsonaro são os mesmos que o elegeram sabendo que  o seu projeto de governo  era essencialmente  excludente, racista, de idolatria por um Israel segregador, militarizado, mítico, e representante el de uma excludente  e  repleta de supremacia  ” sociedade judaico- cristã”.

O projeto de poder de Bolsonaro teve  Olavo de Carvalho como guru absoluto , um sujeito que estudou apenas até a quinta série do Fundamental, mas se autoproclama um ” filosofo” e  tenta  reescrever a história do Brasil  glorificando torturadores, ditadores e canalhas,  demonizando os muçulmanos, e as religiões- afro- brasileiras ,  demonizando a Teologia da Libertação,  justificando a perseguição religiosa aos muçulmanos, a demonização das minorias  e o racismo de qualquer espécie.

Quando o professor Michel Gherman faz uma comparação do bolsonarismo com o nazismo, chamando os apoiadores do presidente Jair Bolsonaro de nazistas, ele está apenas constatando as semelhanças históricas entre os dois movimentos políticos! Está avaliando 1933 e os fatos que levaram a Alemanha ao nazismo e não analisando 1941 ou 1945 e as consequências finais das escolhas feitas por alemães e até por alguns judeus,  que trabalhavam como guardas nos campos de concentração e apoiavam de alguma  forma o nazismo.

São comparações históricas, irrefutáveis e que encontram confirmação nos próprios discursos de Jair Bolsonaro e de Olavo de Carvalho, um confesso aliado de Stve Bannon e um dos líderes da horda de  extrema direita norte- americana que invadiu o Capitólio  em janeiro de 2021, causando inclusive a morte de manifestantes.

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A  comparação do professor Michel Gherman  revoltou a Federação Israelita do Estado  do Rio de Janeiro, que acabou divulgando uma nota de repúdio.

A ” nota de repudio” foi assinada pelo presidente da instituição, Alberto David Klein, que além de intimidar Gherman, o acusou de banalizar o nazismo.

Em um vídeo- resposta o professor Guerman afirmou que ” a tentativa de intimidação que o presidente faz é abjeta e ridícula, mas será mal sucedida. Calar judeus do Rio não pode ser a prática de quem supostamente deveria nos representar”.

Qualquer tentativa de silenciar os  que denunciam governos que massacre as minorias e desrespeitam meus irmãos humanos, venha de onde vier,  é imoral e não podemos aceitar.

A empatia  humana e verdadeira e aquele que sentimos também pelos que pensam diferente de nós , mas que nesse momento estão sendo intimidados.

Quero deixar aqui  minha solidariedade ao professor Michel Gherman, a  agradeço por, em um momento de imensa escuridão  no Brasil, tentar jogar  luz sobre como, ao longo da História, permitimos que a  tragédia humana  se repita, com a cumplicidade de  descendentes dos que um dia foram mortos pelo mesmo ódio.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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