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Afeganistão, enfim livre do jugo imperial norte-americano

Combatentes do Talibã montam guarda ao longo de uma estrada perto da Praça Zanbaq em Cabul em 16 de agosto de 2021 [Wakil Kohsar/ AFP via Getty Images]

A surpreendente saída das tropas norte-americanas do solo afegão nos últimos dias foi, sem dúvida um acontecimento histórico simbólico e carregado de consequências geopolíticas cruciais. Após cerca de dois décadas de ocupação do Afeganistão, as tropas norte-americanas bateram em retirada. Por mais que analistas políticos e intelectuais digladiem entre si para tentar fazer uma leitura fidedigna e justa deste acontecimento histórico, há uma cena marcante que resume de uma forma emblemática este fato. A aeronave militar americana, que decolou em retirada do aeroporto de Cabul, foi capaz de levantar vôo mesmo tendo cidadãos afegãos agarrados na sua estrutura por fora. Ao menos dois cidadãos afegãos morreram tragicamente ao cair da aeronave logo ao decolar. Uma cena que viralizou e que lembra em muito o que ocorreu no Vietnã há cerca de meio século, quando militares americanos lançaram para morte cidadãos vietnamitas que tentavam subir por uma escada a um helicóptero.

O império americano ocupou o Afeganistão por duas décadas. A invasão do país islâmico de maioria sunita, que fica numa região estratégica da Ásia Central, deu-se logo após os atentados de 11 setembro contra as torres gêmeas do World Trade Center em Nova York. Esta investida militar norte-americana fazia parte da chamada guerra contra o terrorismo, lançada pelo então presidente Bush Filho, que visava vingar-se dos ataques de onze de setembro. Durante duas décadas, o poder imperial norte-americano controlou política, econômica e socialmente o Afeganistão, a um custo estimado em centenas e centenas de bilhões de dólares. Isso sem falar da tragédia humana marcada pela morte de milhares e milhares de civis incoentes afegãos. Os Estados Unidos lideravam a coalizão que era composta, entre outros estados, pelo Reino Unido e pela Austrália. Abundam escândalos das atrocidades cometidas pelos militares desta coalizão ocidental contra o pobre país islâmico.

Podemos afirmar, mais uma vez, que o Afeganistão faz jus à sua fama de ser o cemitério dos impérios. Um país montanhoso, com uma sociedade tribal apegada às tradições religiosas e à sua fé islâmica, é, sem dúvida, um grande desafio mesmo para impérios com poderios militar, econômico e político sem precendentes. O protagonismo da resistência afegã contra o invasor yankee foi assumido pelo grupo Talibã, de ideologia ortodoxa sunita. Durante duas décadas os combatentes do Talibã aderiram à luta armada contra as forças da coalizão imperialistas. As sangrias e baixas e infiligidas pelos atos de resistência às forças invasoras de ocupação acabaram culminando na gloriosa vitória da nação afegã e na humilhante expulsão das forças do maior imperio mundial da atualidade.

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Como devemos encarar a retirada norte-americana do solo afegão? Antes de mais nada, devemos dizer que foi, sem sombra de dúvida, uma grande vitória para todo o povo afegão. Não podemos, em hipótese nenhuma, menosprezar a libertação de um povo do domínio de uma nação imperialista expansionista. Os Estados Unidos não tinham tropas no Afeganistão para combater o terrorismo, e muito menos para levar a democracia para o país islâmico da Ásia Central; as tropas americanas ficaram no Afeganistão por duas décadas a serviço do projeto imperialista norte-americano. É importante dizer e frisar, com todas as letras, que o império norte-americano, com todo o seu poderio, e com todos os seus arsenais, teve que amargar uma dura e humilhante derrota contra um inimigo muito menos equipado e preparado. A história da Guerra do Vietnã repetiu-se. Foi mais um David contra Golias na História Mundial.

Uma vitória dos combatentes do Talibã, com seus trajes nacionais típicos, com as suas barbas crescidas, e com os seus parcos recursos e equipamentos, é um episódio inspirador e estimulador para outros povos e nações que passam por situações parecidas. O povo sírio, que está com a sua nação sob ocupação russa, norte-americana, iraniana e turca, pode ter uma grande inspiração na estrondosa vitória dos Talibã no Afeagnistão. O povo iraquiano, que sofre com as ocupações americana e iraniana, tamém pode buscar exemplo e inspiração na saga afegã contra os yankee. O povo palestino é outro que pode ter alento, com este acontecimento, na sua luta contra a ocupação e agressão sionistas.

18 milhões de afegãos, metade do país, precisam de ajuda humanitária; quase três milhões foram internamente deslocados [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

Alguém pode dizer, como você pode chamar a vitória de um grupo religioso ultra-radical, como o Talibã, como uma grande vitória para o Afeganistão. Não faltam contra-argumentos para rebater quem faz tal questionamento. Em primeiro lugar, se os combatentes do Talibã não tivessem um apoio popular minimamente maciço jamais teriam conseguido triunfar contra o poderoso império americano. Em segundo lugar, não podemos usar os padrões e paradigmas ocidentais para dizer aos povos do mundo quais regimes políticos, sociais e econômicos eles gostariam de adotar, nem qual fé professar. Se o Ocidente prega os valores democráticos e defende a liberdade, então os intelectuais e os povos do Ocidente deveriam respeitar escolhas como a do povo afegão. Impor valores e paradigmas ocidentais a povos não-ocidentais é um ato de autoritarismo, presunção e violação da soberania e dignidade dos povos não-ocidentais. Se o Ocidente diz que prega a democracia, então eles deve aceitar a vontade popular nos países islâmicos, mesmo em caso do triunfo de partidos e correntes de inclinação ortodoxa islâmica.

É preciso, no entanto, ter cuidado ao exaltar a vitória afegã. É inegável que o triunfo dos Talibã foi legítimo e louvável. Entretanto, não podemos deixar-nos levar pelo êxtase da vitória. Os Talibãs precisam fazer uma leitura realista da era na qual vivemos e deveriam fazer uma auto-crítica no sentido de questionar se a ultra-ortodoxia ainda cabe em tempos como o nosso. A reforma, mesmo em assuntos considerados sacros, deve ser feita constante e incessantemente. Do contrário, uma fantástica vitória pode transformar-se em uma derrota. Deixada de lado a questão teológica, é preciso também lembrar os Talibã que, ao assumir o poder, eles não podem embriagar-se sob o seu efeito. É necessário o diálogo mesmo com os opositores. Um governo triânico pode custar caro ao país.

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Permito-me aqui, como muçulmano, falar uma opinião pessoal sobre regimes políticos de orientação islâmica. Não é direito de poder imperial nenhum dizer aos países sob o seu domínio o que devem fazer ou não. O Ocidente, ao impor sobre os países islâmicos o que devem fazer ou deixar de fazer, deixa patente a sua arrogância e prepotência. No entanto, vejo que a jurisprudência e o pensamento político islâmicos necessitam de viscerais reformas, no sentido de dialogar com a modernidade, e no sentido de fazer uma diplomacia inteligente que faça o mundo entender a justiça das causas islâmicas. Guerras não vencem-se somente com armamentos e arsenais, guerras vencem-se com diplomacia também. Os grupos e partidos de orientação islâmica devem ter intelectuais suficientemente inteligentes e sábios para reformar os sistemas ideológicos islâmicos e para dialogar com o mundo.

O cuidado e a alerta lançados ao Talibã fazem-se necessários, uma vez que temos um exemplo recente de uma vitória de um grupo paramilitar libetário contra um poder imperial, vitória esta que acabou transformando-se em tragédia nacional. No ano 2000, o grupo paramilitar do Hezbollah, uma espécie de braço militar iraniano no Líbano, conseguiu expulsar as tropas israeleneses do sul do Líbano. Uma grande e incontestável vitória. Hoje, 21 anos após esta grande vitória, o Líbano está refém do Hezbollah, que é um estado dentro do estado, e que é o governante de fato do Líbano, um país que está aos frangalhos, com crises política, econômica e social sem precedentes. Dizemos aos Talibãs: parabéns pela vitória, mas não sejam como o Hezbollah!

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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