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Determinação política, sangue palestino e amor pelo samba na história do presidente da CPI da Pandemia

Entrevista com Omar Aziz, o senador amazonense de origem palestina que aceitou o desafio de investigar as mazelas do governo por trás das mortes da pandemia
Senador Omar Aziz [Foto arquivo pessoal]

Décadas de anos após a onda de imigração para a América Latina, os descendentes dos árabes que chegaram ao Brasil têm, com o passar do tempo, participado ativamente da vida política do país.

Omar Muhammad Amin Ismail Abdelaziz (nome na Palestina), conhecido no Brasil como “Omar Aziz” é um bom exemplo.O atual senador e presidente da mais importante Comissão Parlamentar de Inquérito da atualidade, senão da história democrática brasileira, é filho de palestino e mãe de origem italiana. Seu pai é Muhammad Amin Abdulaziz da cidade de Al-Mazraa Al-Sharqiya na Cisjordânia. Muitos de seus familiares migraram para os Estados Unidos da América depois que os meios de subsistência diminuíram em sua terra natal, a Palestina. Mas Abdulaziz migrou para o Brasil em meados do século passado e veria seu filho tornar-se uma importante liderança política no Amazonas e, hoje, no Brasil.

Omar Aziz preside a “Comissão Parlamentar de Inquérito” (CPI) que faz a investigações dos abusos e possíveis crimes ocorridos na gestão federal da pandemia do coronavírus, que já passou este ano de meio milhão de mortes. Os trabalhos da comissão estão em fase final, de relatoria, e poderão resultar em denúncias graves contra o presidente da República. Nesta entrevista ao Monitor do Oriente Médio, Aziz fala da sua origem e trajetória política, de jovem militante contra a ditadura a senador da República.

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Quem é Omar Aziz?

Me chamo Omar José Abdel Aziz (nome no Brasil), meu aniversário está perto, vou completar 63 anos de idade. Sou filho de pai palestino e minha mãe tem origem italiana. Tenho formação em engenharia civil, mas atuo na política há mais de 40 anos. Inclusive saiu recentemente na imprensa um relatório sobre mim da época da ditadura militar. Quando jovem atuei no movimento estudantil a favor da democracia no Brasil. Tive a honra depois de ter sido eleito vereador mais votado do pleito, deputado estadual mais votado do pleito, vice-prefeito, vice-governador, governador mais votado da história do Amazonas e hoje senador. Já fiz de tudo. Já fui presidente de escola de samba: a Aparecida inclusive é a que tem mais títulos no Carnaval daqui. Sou torcedor do Boi Garantido e, quando governador, ampliei o Bumbódromo de Parintins. Fui diretor de futebol do Nacional, meu time do coração aqui em Manaus. Sou pai, tenho muito orgulho dos meus filhos, e hoje atuo como senador do Amazonas presidindo a CPI da Pandemia.

Você pertence a uma família que emigrou da Palestina em meados do século passado, pode nos contar como foi sua formação entre a cultura árabe e a brasileira?

Meu pai chegou ao Brasil vindo de navio. Ele nasceu na Palestina, mas lá não se emitia passaporte e quem dava o passaporte eram os jordanianos. Chegou aqui em 1956 pelo Porto da Bahia. Lá ele foi para o interior de São Paulo ser mascate. Meu avô materno era italiano e tinha uma pequena fazenda. Meu pai e minha mãe casaram em Garça, no interior de São Paulo, onde eu nasci em 1958. Meu pai, assim como muitos árabes comerciantes, era nômade. Moramos em muitos lugares na época. Meu pai tinha um irmão que morava no Peru e a gente chegou a se mudar para lá. Até hoje ainda mantenho sim algumas tradições. Lá em casa a mesa é sempre farta, inclusive com muitas receitas que eram da minha mãe e foram passadas de geração em geração.

Você já visitou a Palestina? Mantém algum contato com sua família lá?

Ainda não tive a oportunidade, muitos dos meus familiares migraram para a América do Norte, a maioria para os EUA. Quem sabe um dia. Eu gostaria muito de ir.

Quando você decidiu entrar na vida política do Brasil e como foi o início?

É uma consequência natural do seu trabalho em busca de dar uma contribuição a cidade e ao Estado que você vive. A política tem sido demonizada no Brasil, mas é através dela que conseguimos construir uma sociedade mais justa e igualitária. Minha primeira eleição foi para vereador de Manaus, ainda em 1988.

Você chegou ao cargo de governador do estado do Amazonas, o que isso significa para você?

Agradeço muito a Deus. Me sinto muito honrado de ter sido eleito o governador mais votado da história do meu Estado. O povo do Amazonas sempre foi muito carinhoso comigo. Sou devedor desse povo. Em toda minha vida pública, sempre procurei ser alguém sensível, que ajudasse efetivamente as pessoas. Mas a retribuição dos amazonenses para comigo é algo que enche meu coração de orgulho. Poderia ter me envaidecido, mas encarei a oportunidade com muita responsabilidade. E os números falam por mim. Fui o governador que mais construiu escolas de tempo integral, o governador que construiu e equipou hospitais, não só no interior, mas na capital também com o Delphina Aziz, que hoje é referência no combate ao Covid. Em 2013, um ano conturbado politicamente no Brasil devido às manifestações em todo o País, eu fui avaliado como o melhor governador do Brasil. Foi uma pesquisa divulgada pelo Ibope, um dos mais respeitados institutos de pesquisa do País.

Omar Aziz [ Foto arquivo pessoal]

Você enfrentou muitas dificuldades e problemas em sua vida política?

Infelizmente na política existem pessoas que apelam para mentiras em busca de ganhar uma eleição. E eu te falo que é muito difícil ser injustiçado. São mentiras que muita gente acredita e não correspondem com a realidade. A verdade é que eu não respondo a processos, não sou réu em nenhuma ação. Mas uma coisa eu garanto: mesmo tendo sido vítima de muitas mentiras, você não me vê acusando ninguém nem fazendo o mesmo jogo. Acredito na política que seja usada para melhorar a nossa sociedade.

Muitos problemas surgiram recentemente entre você e o presidente Bolsonaro, pode nos contar sobre esse assunto?

As pessoas precisam de vacina, precisam de emprego, querem ter um trabalho… É isso que deveria ser o foco do presidente da República. Mas eu não agrido o presidente pessoalmente. Agora, infelizmente, pra muita gente, fazer política é ficar acusando os outros, destilando ódio. Isso é péssimo para o Brasil.

Na sua opinião, diante das divisões políticas e da pandemia, para onde vai o Brasil? Há alguma esperança de que as condições do estado melhorem em um futuro próximo?

É claro que precisamos ter esperança. Se a gente perder a esperança, nossas ações perdem o sentido. Eu penso que as coisas são cíclicas. E vão melhorar no futuro próximo sim. As eleições acontecem no Brasil a cada dois anos. No ano que vem, as pessoas vão decidir sobre os cargos estaduais e federais. É uma nova chance para todos.

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