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A ruína do guru do ódio religioso Olavo de Carvalho

Olavo de Carvalho em seu vídeo do youtube “Ciência e falsa ciência”, de 4 de janeiro de 2021 [Reprodução/Youtube]

Há poucos anos, pelos artigos que tenho publicado como correspondente de guerra, como jornalista e por ter iniciado um canal dando voz aos refugiados lutando pela reconstrução da paz e contra a intolerância, como muitos de vocês sabem, fui atacada por mais de quatro mil seguidores do guru do ódio religioso e um dos maiores islamofóbicos do mundo, o ideólogo   da extrema-direita brasileira, Olavo de Carvalho.

Muitas agressões deixadas pelos criminosos e extremistas cristãos naquela semana foram apagadas, até para poupar minha filha, então com apenas treze anos, que chorou durante todos aqueles dias diante da sordidez de Olavo de Carvalho.

Os seguidores do guru do ódio me escreviam naqueles dias mensagens com frases como “você merecia ser estuprada”, “será estuprada para aprender a não defender refugiados muçulmanos” e publicaram fotos com ameaças que tenho vergonha de reproduzir aqui.

Foram seis dias de terror. Mas também foram dias de afeto, apoio e de milhares de manifestações de solidariedade e carinho vindas de muçulmanos e cristãos do mundo todo.

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O aspecto irônico dessa história é que o guru incitou seus seguidores contra mim acreditando que eu era professora e muçulmana, sem ler ou pesquisar nada sobre mim no Google, onde há centenas de matérias sobre mim e sobre meu trabalho como jornalista e cristã. O sujeito agrediu várias jornalistas (sempre mulheres) por meses sem sequer fazer uma pesquisa elementar sobre elas.

Não apenas nunca fui muçulmana, e tenho imenso carinho pelos meus amigos muçulmanos, como sou sobrinha neta de um dos arcebispos católicos mais conhecidos da história do Brasil e sou de uma família árabe cristã há mais de 1200 anos.

O outro aspecto irônico dessa história é que Olavo, naquele seu estilo literário de quem vive no limbo do esgoto existencial e tem obsessão por orifícios anais, escreveu que eu, por lutar contra as guerras e pela tolerância religiosa, depois de ser agredida, ficaria calada por medo de suas agressões e seria esquecida.

Para a infelicidade de Olavo, jamais me calei, continuei escrevendo, viajando ao Oriente Médio e dando voz aos refugiados, recebi três prêmios internacionais, recebi a homenagem em Paris como embaixadora da paz, recebi, com imensa honra, o prêmio Estrella del Sur em Montevidéu,  recebi a Medalha Marielle Franco em Salvador na linda Casa do Olodum,  e tive minha trajetória como jornalista e escritora contada em livros feitos por alunos de duas faculdades de jornalismo e por alguns maiores jornais do Brasil.

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Enquanto isso, Olavo de Carvalho tem sido condenado em vários processos judiciais, adquiriu uma dívida de indenização de dois milhões de reais para com Caetano Velloso, perdeu inúmeras ações, perdeu vergonhosamente o processo que moveu contra mim, que foi EXTINTO pelo juiz, o que é ainda pior do que perder, e tem sido denunciado e ridicularizado pelos maiores jornais do mundo.

Olavo foi denunciado recentemente por algumas das mais importantes publicações norte-americanas sobre política no continente, por grandes publicações italianas, e ridicularizado em programas humorísticos da TVs italiana, alemã e britânica.

Foi denunciado também pela própria filha, Heloisa de Carvalho Arribas, no livro escrito recentemente por ela, em parceria com o filósofo Henry Bugalho, intitulado “Meu pai, o guru do presidente” e lançado pela Kotter Editorial.

Heloisa e eu nos tornamos amigas exatamente na semana em que fui exposta e agredida por seu pai. Recebi dela naqueles dias sombrios, uma carta emocionante, repleta de solidariedade, luz, empatia, humanidade, e desde então, nos tornamos amigas.

Heloísa revela em seu livro, assim como me havia relatado quando conversamos nos meses seguintes, o imenso abandono intelectual a que foi submetida pelo pai ainda na infância. Sim, ela cursou a primeira série do ensino fundamental aos sete anos e passou os seis anos seguintes fora da escola, assim como outros dois irmãos. Segundo ela me contara logo que nos conhecemos, o pai não pagava as mensalidades escolares, mesmo tendo dinheiro, e eles acabavam expulsos de várias escolas, até que que o pai decidiu tirá-los da escola definitivamente no momento mais fundamental do aprendizado, a alfabetização. Ela carregaria para sempre a dor, a tristeza e os problemas cognitivos causados pelo pai. Foi só quando já tinha doze anos, que ela voltou a estudar, ao deixar a casa paterna para morar com uma tia materna.

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Ela me contaria naquele momento, já adulta, forte, mãe, e formada em Direito, que escreveria em livro “sobre o lado cruel e manipulador do guru que as pessoas compraram como cristão, uma fraude, um líder de uma seita perigosa, que sempre teve sede de poder, que abandonou os filhos de várias formas, mas que se vende como um cristão exemplar e um pai dedicado, pois se viu numa questão moral delicada. O mesmo pai que levou sua mãe a tentar o suicídio, deu um golpe financeiro em amigos, na editora com quem trabalhava, estava tendo o poder de fazer um imenso mal ao Brasil”.

Olavo de Carvalho foi denunciado recentemente também em longas reportagens das revistas Veja, Época e Istoé, e a própria plataforma de vídeos que permitiu que ele propagasse em larga escala sua voz insana, o Youtube, reconheceu os danos causados à democracia no Brasil e retirou da plataforma dezenas de vídeos do sujeito. O guru e seu ódio nefasto mergulharam o Brasil numa noite sem fim, pulverizando um vírus letal, degenerativo, que afeta o sistema nervoso central, causando agressividade, comprometendo capacidades cognitivas, afetando a capacidade auditiva, cujos sintomas são assustadores e incluem o falso nacionalismo, a xenofobia, a homofobia, a falta de empatia, o falso moralismo, o falso cristianismo, o ódio à ciência, à medicina e às universidades e a incapacidade de discernir o real do imaginário e insano.

O guru do ódio, do bolsonarismo e das armas, o sujeito que acredita que a Pepsi é feita de fetos abortados, que acredita que Galileu e Newton eram idiotas, o sujeito que acredita que é o Sol que gira em torno da Terra (geocentrismo) e que a Terra permanece parada, o sujeito que acredita que todos os muçulmanos (mais de um bilhão de pessoas) são terroristas em potencial, que bradava há poucos meses que a pandemia de covid não existia e que não mataria ninguém, o sujeito que afirma há anos que as vacinas não devem ser tomadas pelas crianças e que devemos deixá-las morrerem se tudo der errado, o sujeito que afirma que o Herodes fez um bem às crianças na Terra Santa ancestral, matando-as antes de completar dois anos de vida porque assim as impediu de pecar, enfim, o sujeito que berra as agressões mais abjetas contra refugiados muçulmanos e fez um imenso mal a várias gerações de brasileiros.

Olavo de Carvalho e seus seguidores perderam há anos qualquer traço de humanidade e qualquer limite moral, a ponto de afirmarem, como fez o próprio charlatão, que os portugueses não escravizaram os negros e nem pisavam na África, e que a escravidão foi benéfica para os negros no Brasil. Infectados pelo mestre com rações diárias de racismo e intolerância, tudo isso travestido de “cristianismo”, e de “filosofia”.

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Os seguidores do guru do ódio encontraram nele um “filósofo” que, mesmo não tendo sequer terminado o ensino fundamental, legitimou o racismo, a misoginia e a vontade de matar, alegando que esses sentimentos podiam ser “cristãos”. Odeiam as diferenças religiosas, a infinidade de cores do mundo, o multiculturalismo e a própria vida, pois cultuam a morte, idolatram alguém cujo grande prazer é matar ursos nos EUA, cultuam o rosto da morte e passam seus dias na internet ameaçando pessoas. Odeiam o fato de existirem diferentes muçulmanos assim como diferentes cristãos e a indigência de seus cérebros trabalha apenas com ideias binárias, duas ideias de cada vez, algo como “todo muçulmano é o malvado e todo cristão é o mocinho da história”. Pensar sobre ideias mais sofisticadas e em outras variáveis diante de um cenário muito complexo, lhes é impossível.

Mas os anos de manipulação, ódio, misoginia e racismo pagos a peso de ouro parecem estar acabando.

Olavo de Carvalho está cada vez mais isolado. Seus discípulos mais nefastos, como o ex-ministro Abraham Weintraub e o ex-secretário de cultura, Roberto Alvim, que fizeram discursos retirados da ideologia nazista, já perderam seus cargos e entraram definitivamente para a lata de lixo da história.  O guru do ódio perdeu dezenas de patrocinadores nos últimos meses, foi retirado de várias plataformas de pagamentos virtuais e, há poucos dias, teve seu contrato literário com a Editora Record rompido definitivamente.

O ideólogo do ódio decidiu voltar há alguns dias ao Brasil.

Atingido por uma série de doenças e problemas cardíacos, descobriu que não tinha dinheiro sequer para se tratar no país em que vivia e idolatrava, os EUA.

Foi internado em um hospital de São Paulo pelo Sistema Público de Saúde brasileiro, o mesmo sistema que ele covardemente atacou e demonizou por anos.

Tudo isso nos mostra como o mundo gira, mas não muda a minha tristeza por ter testemunhado o abismo em que mergulhamos, o fim de programas sociais históricos, o aumento do feminicidio, os assassinatos de indígenas e negros, e as mais de quinhentas mil mortes que poderiam ser evitadas no Brasil, se o presidente não fosse um seguidor confesso da as ideias assustadoras e neonazistas de Olavo de Carvalho. Ideias que mergulharam o Brasil em um ciclo de horrores e obscurantismo só comparável à Inquisição medieval.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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