Portuguese / Spanish / English

Middle East Near You

O spyware Pegasus e as consequências à privacidade

Mulher checa website do grupo NSO, empresa israelense responsável pelo spyware Pegasus, em Nicósia, capital do Chipre, 21 de julho de 2021 [Mario Goldman/AFP via Getty Images]

Não muito tempo atrás, havia uma enorme preocupação com casos de invasão em algumas redes sociais, incluindo websites supostamente imunes a hackers, como Facebook, Twitter, WhatsApp, entre outros. Surge então o spyware Pegasus.

O Pegasus é um programa desenvolvido pela empresa israelense NSO, através do qual telefones celulares podem ser hackeados e monitorados. Uma recente investigação identificou cerca de 50 mil aparelhos infectados com o software, adquirido por regimes árabes para espionar opositores, ativistas, jornalistas e até mesmo políticos estrangeiros. A história obteve vasta cobertura da mídia.

Entretanto, é a ponta do iceberg. Não há dúvida de que forças militares e policiais de países desenvolvidos já possuem gerações avançadas do Pegasus. Quando chegarem ao mercado, será a preços provavelmente acessíveis.

Combinado com a alta tecnologia de drones e satélites, que permitem uma vigilância incrivelmente detalhada dos céus sobre todos nós, fica claro que a privacidade está prestes a tornar-se uma relíquia do passado. Caso haja segredos a serem convenientemente revelados, logo serão, não importam as consequências. Sobretudo, conforme baixam os custos, é questão de tempo que vizinhos possam esquadrinhar uns aos outros.

LEIA: Conselho de Segurança Nacional de Israel está ‘investigando’ alegações de spyware do NSO

Trata-se de uma progressão efetivamente diabólica. Todos serão expostos, não apenas em âmbito político, mas também social. Este aspecto é complexo e requer uma profunda discussão talvez em outro texto.

Já sabemos, todavia, quão difícil é manter segredo para aqueles que trabalham nos campos políticos ou militares, embora tanto dependam desse atributo. Sabem agora muito bem que absolutamente tudo será compartilhado entre seus colegas e outras agências de segurança. Com efeito, sentem que terão de mudar a forma como trabalham.

Os efeitos não chegarão apenas a grupos de oposição, mas também a órgãos e regimes oficiais e reconhecidos, sob a dinâmica de rivalidades históricas e disputas por poder. Podemos esperar uma onda de vazamentos de grupos governistas e opositores, não importa, cada qual calculado para prejudicar as partes seja como for.

Haverá fatalmente um crescimento nas equipes de segurança e repressão engajadas em espionar inimigos em âmbito doméstico ou no exterior. Hordas serão espionadas a vasto custo. Governos inteiros descobrirão que também são alvos de tais ações em diversos níveis, sob uma conjuntura bastante difícil. A instabilidade é uma tragédia anunciada.

LEIA: Macron pede explicações do premiê israelense sobre software espião

Não há solução, porém, senão o pluralismo, a liberdade e a transparência, para que a sofisticada espionagem não seja sequer necessária. Agências de segurança e inteligência precisam ser recalibradas para representar a consciência do povo e os interesses da sociedade, ao invés dos anseios das velhas elites.

Quando a opressão tornar-se insuportável, haverá dois caminhos: o declínio ainda maior nas condições sociopolíticas ou a insurreição popular para retomar o controle. Já testemunhamos e já sabemos o que pode acontecer. Com a proliferação de mecanismos temerários como o Pegasus, mais do mesmo ainda está por vir.

Publicado originalmente pela rede Arabi21, em 23 de julho de 2021; editado pelo MEMO

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

Categorias
ÁfricaArtigoEmirados Árabes UnidosEuropa & RússiaFrançaIsraelMarrocosOpiniãoOriente Médio
Show Comments
Show Comments