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Relembrando a chacina da Candelária

Há 28 anos oito meninos em situação de rua, de 11 a 19 anos de idade, foram brutalmente assassinados por policiais militares em um crime que chocou o mundo
Os nomes dos oito mortos da Chacina da Candelária inscritos em uma cruz de madeira, erguida no jardim de frente da Igreja da Candelária, no Rio de Janeiro, em 25 de agosto de 2012 [Antonio Thomas/Flickr]

“Se não vejo na criança, uma criança,é porque alguém a violentou antes e o que vejo é o que sobrou de tudo o que foi tirado. Mas essa que vejo na rua sem pai, sem mãe, sem casa, cama e comida, essa que vive a solidão das noites sem gente por perto, é um grito, é um espanto. Diante dela, o mundo deveria parar para começar um novo encontro, porque a criança é o princípio sem fim e o seu fim é o fim de todos nós.”

Herbert de Souza – Betinho

O quê: Chacina da Candelária

Onde: Centro da cidade do Rio de Janeiro

Quando: 23 de julho de 1993

Hoje completam 28 anos de um dos mais vergonhosos episódios da história brasileira, quando um grupo de extermínio do Rio de Janeiro, formado por policiais militares, assassinou oito meninos em situação de rua, com idades entre 11 e 19 anos, e deixou dezenas feridos. O caso conhecido mundialmente como “Chacina da Candelária” fez com que o mundo notasse o descaso do governo brasileiro com as suas crianças, que continuaram desamparadas e sem proteção mesmo após testemunharem o crime. Como escreveu o sociólogo Betinho, “quando uma sociedade deixa matar a criança é porque começou seu suicídio como sociedade”.

O que aconteceu?

Na noite de 23 de julho de 1993 mais de setenta crianças, adolescentes e jovens em situação de rua dormiam perto da igreja da Candelária, no centro do Rio de Janeiro. Pouco antes da meia noite, cinco policiais à paisana desceram de dois carros com placas cobertas e começaram a atirar à queima-roupa. No local, quatro meninos morreram na hora e um quinto foi morto enquanto tentava fugir do ataque. Um dos jovens, líder dos menores e conhecido pelo apelido de Come-Gato, foi levado em estado grave ao hospital, mas morreu quatro dias depois pelos ferimentos.

Os sobreviventes contam que os homens chegaram à praça chamando pelo Come-Gato e após não terem resposta, dispararam contra o grupo de cerca de quarenta jovens.

Próximo dali, na rua Dom Gerardo, o mesmo grupo capturou dois meninos e um jovem em situação de rua. Dentro do carro, o jovem Wágner dos Santos, de 21 anos, foi atingido. Os homens deixaram os três perto do Museu de Arte Moderna, no Aterro do Flamengo, onde atiraram nos três e mataram os dois menores. Apesar de ter levado quatro tiros, Wágner sobreviveu e foi a principal testemunha do caso.

Os oito mortos naquela noite foram Paulo Roberto de Oliveira, de 11 anos; Anderson de Oliveira Pereira, de 13 anos; Marcelo Cândido de Jesus, 14 anos; Valdevino Miguel de Almeida, 14 anos; “Gambazinho”, 17 anos; Leandro Santos da Conceição, 17 anos; Paulo José da Silva, 18 anos; e Marcos Antônio Alves da Silva, de 19 anos.

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A artista Yvonne Bezerra de Mello, que fazia um trabalho social voluntário educando os menores, havia deixado fichas telefônicas com três deles para caso precisassem contatá-la. Cerca de meia noite, ela recebeu um telefonema de um dos meninos: “Tia, vem pra cá. Estão nos matando”. “A cena que eu vi foi crianças correndo de um lado para o outro, completamente desesperadas – logicamente -, em cima dos mortos, sacudindo as crianças mortas”, contou ela em entrevista ao Linha Direta – Justiça, exibido em 27 de julho de 2006. Ela foi a primeira a chegar à igreja da Candelária, reuniu as crianças ao seu redor, abraçando-os e tentando acalmá-los, até o amanhecer. “Assim nós ficamos até às seis da manhã, ninguém voltou para dar alguma assistência, para dizer se era perigoso. Poderia ter chegado ali não sei quantos carros, atirado na gente e matado. Então eu fiquei sozinha ali com aqueles sobreviventes”.

De acordo com as investigações, a motivação teria sido um desentendimento do dia anterior entre um policial e os meninos de rua. Durante a tarde, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) organizou uma manifestação próxima à igreja da Candelária. O policial militar Marcos Vinicius Emmanuel de 26 anos fazia a segurança quando, de acordo com a reportagem do Linha Direta, ele se aproximou do líder dos menores da Candelária, Marcos Antônio Alves da Silva, o “Come Gato”, de 19 anos, desconfiado de que escondiam cola de sapateiro. A abordagem gerou uma discussão e o policial decidiu levar para a delegacia um jovem que ele suspeitou ser quem forneceu o entorpecente. Yvonne estava no local e contou que a prisão gerou um tumulto. As crianças se revoltaram e uma delas atirou uma pedra na viatura, o que fez com que um dos menores de idade também fosse detido. Na delegacia ambos foram liberados, já que o consumo de cola não era ilegal, irritando o policial Emmanuel e motivando o massacre.

Horas antes do ataque policiais passavam de carro na região gritando ameaças contra as crianças, por esse motivo, Yvonne antes de ir para casa, deixou as fichas telefônicas para caso algo realmente acontecesse.

O que aconteceu depois?

O assassinato dos meninos de rua no centro do Rio de Janeiro gerou indignação nacional e internacional, motivando um protesto formal da Comunidade Econômica Europeia, em que os doze países do grupo pediam que as autoridades brasileiras punissem os culpados e tomassem providências para proteger as crianças da violência. A grande repercussão e protestos pressionou o poder público, que conduziu uma investigação às pressas, acusando logo depois da chacina três policiais militares, incluindo o policial Emmanoel, e um civil, com base em depoimentos dos sobreviventes.

Em setembro de 1994, Wágner dos Santos foi vítima de mais um atentado, na Estação Central do Brasil. Ele foi atingido novamente por quatro tiros e dado como morto, em uma tentativa de impedir seu testemunho. Ele sobreviveu e continuou disposto a testemunhar. Ele foi posto pelo governo no Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas Ameaçadas, passando a viver na Suíça.

Em 1996, em um novo reconhecimento, Wágner identificou o policial Carlos Jorge Liafa, preso em 12 de abril, mas que não foi indiciado, mesmo com a perícia comprovando que uma das cápsulas que atingiu uma das vítimas foi disparada da arma de seu padrasto. No dia 25 do mesmo mês, Nelson de Oliveira dos Santos Cunha se entregou à polícia e confessou ter participado do crime, causando uma reviravolta no caso. Ele confirmou a participação de Marcos Emmanuel e acusou os policiais militares Marco Aurélio Alcântara e Arlindo Afonso Lisboa e o ex-policial militar Maurício da Conceição Filho, conhecido como Sexta-Feira 13. Ele foi indicado como o líder do grupo, o miliciano foi expulso da polícia em 1990 por tortura e em 1994 foi morto em um tiroteio com policiais.

Os outros três suspeitos que ficaram quase três anos presos foram inocentados após a confissão.

Nelson Oliveira dos Santos Cunha foi condenado a 45 anos, Marco Aurélio Dias de Alcântara a 204 anos e Marcos Vinícios Emmanuel a 300 anos de prisão. O único a não ir para júri popular foi Arlindo Afonso Lisboa Júnior, que pegou dois anos por ter uma das armas do crime.

Com os indultos judiciais, Cunha e Alcântara foram soltos após cumprirem quatorze anos de prisão. Emmanuel foi solto em 2012, mas após seu indulto o Ministério Público Estadual recorreu ao Superior Tribunal de Justiça, que retirou o benefício e pediu sua prisão preventiva. Ele está foragido.

Após a chacina da Candelária, a Anistia Internacional, em Londres, havia pedido ao governador do Rio de Janeiro e aos ministros brasileiros da Justiça e das Relações Exteriores para que dessem proteção física para as testemunhas e sobreviventes do massacre, a proteção só foi dada a Wagner após o segundo ataque contra sua vida. Em 2018, o governo do Rio de Janeiro concedeu pensão vitalícia de três salários mínimos a Wagner dos Santos, que convive com sequelas graves dos oito tiros que levou.

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Depois do massacre, os meninos em situação de rua foram levados para um abrigo improvisado por alguns dias, depois alguns foram para a Casa da Testemunha, que fechou em 1997. A voluntária Yvonne conseguiu, com conhecidos, quatro barracos no Morro da Cachoeirinha, para onde levou cerca de quarenta sobreviventes que estavam desamparados pelo poder público, onde ficaram por alguns meses após o ataque.

Embaixo do viaduto, Yvonne começou o Projeto Coqueirinho, uma sala de aula com tapumes, para educar essas crianças com uma metodologia criada por ela. Anos depois, a escola se tornou o Projeto Uerê, na Maré, escola modelo no atendimento de crianças traumatizadas pela violência.

Yvonne Bezerra de Mello em sessão especial do Senado Federal destinada à entrega da Comenda de Direitos Humanos Dom Helder Câmara, em Brasília, 2 de dezembro de 2015 [Marcos Oliveira/Agência Senado]

Yvonne, que era uma importante testemunha do caso, também foi sequestrada após a chacina. Por cerca de cinco horas homens a mantiveram amarrada, encapuzada e com um fuzil apontado para a sua cabeça e então a deixaram no subúrbio do Rio.

Yvonne, em 2001, estimou que 39 das 72 crianças que dormiam na Candelária na época do massacre morreram de causas violentas nas ruas. Em 2018, ela afirmou ao Terra que acreditava que quase todos os sobreviventes da chacina havia morrido. O último que ela mantinha contato foi morto por uma bala perdida na Maré

Um dos sobreviventes do massacre voltou a estampar as manchetes em mais uma tragédia que parou o país, no caso conhecido como o sequestro do ônibus 174. Em 12 de junho de 2000, Sandro Barbosa do Nascimento, de 21 anos, fez dez reféns em um ônibus por cerca de quatro horas. Cercado por policiais e pela imprensa, que televisionou todo o sequestro, ele gritava pedindo que chamassem a “Tia Yvonne”, mas ela não ficou sabendo. Ao tentar descer do ônibus com uma refém, um policial errou a mira e a acertou. Sandro reagiu e também atirou na refém Geísa Gonçalves, que morreu, após ser levado pela polícia militar, ele foi morto asfixiado dentro do camburão. Além de ter testemunhado, quando criança a morte de seus “irmãos” da candelária, Sandro também já havia testemunhado, aos dez anos, o assassinato de sua mãe – crime que fez com que ele fosse parar nas ruas.

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Em setembro de 2000, Elizabeth Cristina de Oliveira Maia, conhecida como Beth Gorda, que havia namorado Sandro e também testemunhou o massacre, foi assassinada com três tiros na cabeça, por três homens, na porta de sua casa, em Botafogo. Ela participou de um documentário sobre a chacina e iria depor no mês seguinte ao seu assassinato em uma audiência de apelação de Emanuel.

Vários outros sobreviventes tiveram fins trágicos, que poderiam ter sido evitados caso tivessem recebido o amparo do governo. Em 1997, João Fernando Caldeira da Silva foi morto a tiros próximo à igreja da Candelária. Thiago Veríssimo, Thiaguinho, morreu por uma bala perdida em 2013, no Complexo da Maré. Gina, que tinha oito anos no dia da chacina, morreu em 2014 após passar anos em um manicômio judiciário.

 

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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